Coluna Efeito Borboleta

CERRAM-SE AS CORTINAS

No teatro é assim, quando o espetáculo termina, as luzes do palco apagam-se, as cortinas se fecham para o público, mas os atores permanecem na coxia para os abraços finais.
No espetáculo da vida não é diferente.
Quando as cortinas se fecham vem a certeza de que elas novamente se abrirão.
A plateia é diferente.
O espetáculo é o mesmo.
O elenco às vezes muda.
Ele pode continuar fazendo sucesso ou não.
O tempo dirá.
Mas certamente o sucesso ou o fracasso estará na escolha de um elenco talentoso e principalmente na competência da direção do espetáculo, que tem que ser perspicaz, sensível e generosa.
Minha despedida deste espetáculo foi surpreendente para mim, envolvida dos mistérios que só um grande espetáculo é capaz de promover, mas também recheada do senso comum e talvez da intolerância vil que move a sociedade preconceituosa.
Mas neste momento a despedida é na coxia…
Os dezesseis anos de espetáculo me possibilitaram atuar da forma mais intensa possível.
Em alguns momentos com mais energia e em outros nem tanto, afinal o artista é humano e sensível, exala, reverbera e reflete o resultado de sua plateia, de seus colegas de elenco, da sua direção, dos comentários dos críticos, às vezes positivos, outros maldosos, enfim… é a cena!
Mas o espetáculo não pode parar e tem que passar verdade.
O espetáculo tem que ser a vida do ator, que deve passar a viver aquela história de tal forma, que ela se confunda à sua própria.
Sair de cena não é fácil.
Estrelei vários espetáculos.
Dramas, comédias, algumas românticas, outras não. Suspense e até terror.
Alguns fizeram grande sucesso, outros nem tanto, foram grandes fiascos.
Entretanto, orgulho-me de nunca ter sido um canastrão.
Independente do sucesso, NUNCA abandonei um elenco.
Sempre lutei pelo espetáculo e sua glória.
Vesti a camisa do teatro e fui para as ruas divulgá-lo.
As vezes que deixei o elenco, foi substituição involuntária.
Como todo artista é sensível e intenso… chora, sofre, odeia… tem que se reinventar.
Para este último espetáculo, como em todos, doei-me e por isso, como doeu-me!
Ser substituído num elenco admirável, faz sofrer muito, com profundidade que agoniza.
Fere… mas não mata. Não extirpa.
Astro que é bom, nunca perde o seu valor.
É lembrado pela plateia a vida inteira.
Ato final.
Cerram-se essas cortinas para mim.
O espetáculo terminou para um dos seus mais antigos e empenhados atores.
Minha arte segue em frente, pois como já disse o poeta, o artista deve estar onde está seu público.
Buscarei públicos diferentes.
Acredito que os encontrarei ou serei encontrado por eles, o que torna o novo espetáculo muito mais interessante.
Para o elenco que permanece, deixo só carinho.
A plateia se cala quando o espetáculo termina. Mas isso não é regra geral e ela pode manifestar-se de diversas formas. E é ai que a mágica do espetáculo se completa. A manifestação sincera, translúcida e real da plateia inebriada. Esse é o espetáculo real da vida.
Enfim… quero apenas tornar a verdade clara aos incautos, tenho bastante compreensão do meu derredor, mas nem sempre a outra parte é suficientemente clara e honesta, o que faz com que as pessoas que lidam com a sinceridade, sejam ardilosamente iludidas. Quando não proferimos a verdade dos fatos, por questões éticas e discrição, os outros o fazem por nós e sujam o que construímos por anos: nosso nome.
Entrego as palavras desse texto os meus amigos do Colégio Paulo Cezar, de onde me desligo após quase 17 anos.
Falar de amigos queridos dói na minha alma, e se assim não fosse, não seria eu na minha constante e intensa dualidade.
Rir, esbravejar e chorar.
Encantar-me e fazer-me justiça, é claro e… por que não?

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