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15 anos após redescoberta do Cais do Valongo, arqueólogos ainda analisam cerca de 1,5 milhão de objetos encontrados

Cais do Valongo – Rio de Janeiro – Foto: Alexandre Macieira | Riotur

Quinze anos depois da redescoberta do Cais do Valongo, na Região Portuária do Rio, o trabalho arqueológico na área ainda está longe de terminar. O sítio histórico, reconhecido como Patrimônio Mundial pela UNESCO, revelou muito mais do que as pedras do antigo cais por onde desembarcaram mais de um milhão de africanos escravizados. Sob o solo da região, arqueólogos encontraram cerca de 1,5 milhão de objetos, muitos deles ainda em processo de estudo.

Grande parte desse material está hoje sob a guarda do Instituto Rio Patrimônio da Humanidade no Laboratório Aberto de Arqueologia Urbana (LAAU), instalado no Armazém Docas André Rebouças, em frente ao cais histórico. A criação de um centro dedicado à interpretação desses achados foi uma das condições estabelecidas pela UNESCO quando o sítio recebeu o título internacional.

Fragmentos do cotidiano

Os objetos encontrados nas escavações oferecem pistas valiosas sobre a vida cotidiana na cidade entre os séculos XVIII e XIX. Entre as peças catalogadas há desde âncoras e canhões de navios até itens muito menores, como sapatos, garrafas, utensílios domésticos, brinquedos, amuletos e ossos de animais.

Cerca de 500 mil peças têm ligação direta com o antigo cais. Entre elas aparecem elementos associados à religiosidade africana, como búzios, contas e pequenos amuletos, que ajudam a revelar traços culturais preservados por pessoas trazidas à força para o Brasil durante o período escravocrata.

Achados arqueológicos do Cais do Valongo

O acervo está armazenado em 12 contêineres climatizados, protegidos de umidade e variações de temperatura. Mesmo após a triagem inicial que confirmou o valor arqueológico das peças, ainda há muito trabalho pela frente. Pesquisadores estimam que aproximadamente 60% do material ainda precisa de estudos mais aprofundados.

Pistas escondidas nos objetos

Alguns itens já permitiram descobertas curiosas. Uma garrafa inglesa de graxa, encontrada a cerca de três metros de profundidade na área da atual Avenida Barão de Tefé, levou os pesquisadores a anúncios de jornais do século XIX. A investigação indicou que o produto, da marca Warren, era vendido em uma loja da Rua do Ouvidor em 1826.

Outro objeto que despertou atenção foi uma pequena caixa com referências à Escócia. Ao comparar a peça com acervos internacionais, um arqueólogo encontrou um exemplar semelhante em um museu britânico, o que ajuda a esclarecer sua origem.

Sapatos masculinos e femininos relativamente bem preservados também estão sendo analisados. Eles foram encontrados em uma área que, há cerca de dois séculos, ficava próxima ao mar e funcionava como ponto de descarte de resíduos.

Laboratório aberto a pesquisadores

O laboratório conta atualmente com uma equipe reduzida, formada por seis profissionais, entre arqueólogos, auxiliares e pessoal de apoio. Para avançar nas pesquisas, o grupo incentiva a participação de especialistas de outras instituições.

O arqueólogo Helder Viana, gerente de arqueologia do instituto municipal, afirmou ao g1, que pesquisadores interessados podem solicitar acesso ao acervo para estudos específicos. O funcionamento segue uma lógica semelhante à de uma biblioteca especializada, na qual o material solicitado é separado para análise em ambiente apropriado.

Além do trabalho científico, o público também pode acompanhar parte da rotina do laboratório. Quem visita o armazém consegue observar os arqueólogos em atividade por meio de janelas de vidro instaladas no espaço de pesquisa.

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