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2026 pode ser o ano da virada na história das obras sacras desaparecidas

Arte Sacra Desaparecida – Sagrada Família do Engenho da Posse (Nova Iguaçu). Furtada em 2007. Imagem do Autor.

Nas últimas décadas, a trajetória das esculturas sacras desaparecidas em igrejas e capelas históricas do Rio de Janeiro compôs um capítulo doloroso da nossa história patrimonial. São peças arrancadas de seus lugares de origem, muitas vezes sem documentação adequada, que somem dos circuitos institucionais e reaparecem, quando muito, como rumores em catálogos, acervos privados ou fragmentos fotográficos preservados por fiéis, pesquisadores e irmandades.

A matéria recente do Diário do Rio que retoma o caso da imagem de Santo Antônio desaparecida há mais de quarenta anos da Igreja de Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores recoloca no centro do debate uma ferida aberta: aquele que deveria ser um percurso de fé, memória e devoção transformou-se, por longo tempo, em silêncio e incerteza. Hoje, graças ao esforço da Irmandade e ao trabalho de pesquisa histórica, fotografias antigas e registros arquivísticos ressurgem como instrumentos de busca e esperança — lembrando que nenhuma peça esquecida está, de fato, fora do nosso horizonte de recuperação.

Infelizmente, não se trata de um caso isolado. A imagem da Sagrada Família do Engenho da Posse, em capela tombada pelo INEPAC, roubada já na década de 2000 e até hoje sem rastros de seu paradeiro, permanece listada entre os bens procurados. O mesmo ocorre com a padroeira da Matriz de Nossa Senhora do Pilar, em Duque de Caxias, igreja tombada pelo IPHAN, levada no final do século passado e igualmente nunca localizada (ver pág. 172 desta publicação). Em comum, esses episódios revelam um ponto sensível: quando faltam inventários acessíveis, descrições seguras e mecanismos de consulta pública, as obras desaparecem duas vezes — primeiro do espaço físico, depois da própria memória institucional.

É nesse contexto que se impõe um debate delicado, mas necessário, sobre o modo como o Estado, os órgãos de proteção e os operadores do mercado de arte têm se relacionado. A leitura contemporânea de dispositivos jurídicos próximos ao antigo princípio das “mãos mortas” — segundo o qual toda obra sacra em circulação seria potencialmente fruto de retirada ilegal de um templo — produziu, em muitos ambientes, um clima permanente de suspeição. Antiquários, negociantes e colecionadores, sentindo-se desde o início sob o peso da culpabilidade, retraem-se, fecham portas, evitam o diálogo. O resultado é perverso: justamente aqueles que poderiam oferecer informações, pistas e pontas de investigação tornam-se interlocutores raros, enquanto cabe aos órgãos de proteção a tarefa quase impraticável de acompanhar dezenas de novos leilões digitais por dia.

Não se trata, evidentemente, de relativizar crimes ou legitimar circuitos ilícitos — esses devem ser combatidos e punidos com rigor. Mas é preciso reconhecer que suspeita generalizada não produz cooperação, e sem cooperação não há política patrimonial sustentável. A virada, portanto, passa por reconstruir pontes: aproximar órgãos de proteção, instituições religiosas, negociantes, colecionadores, casas de leilão e pesquisadores a partir de um pacto comum — a salvaguarda do patrimônio cultural brasileiro.

Ferramentas já existentes podem servir de base para esse novo cenário. O cadastro de negociantes no CNART/IPHAN precisa ser constantemente atualizado e fortalecido como instrumento de transparência. O BCP/IPHAN — Banco de Bens Culturais Procurados — oferece um repositório público essencial para identificação e cruzamento de registros. E o futuro Portal de Inventários do IPHAN, que reunirá já no seu nascedouro cerca de 50 mil itens documentados ao longo de quase noventa anos de atuação institucional, tende a se tornar um marco para consultas abertas e verificações técnicas por pesquisadores, autoridades, detentores e até por operadores do mercado, quando agem de boa-fé.

A chave está em transformar esses instrumentos em estruturas de confiança, e não em barreiras formais. Para isso, é fundamental estimular que proprietários, irmandades, paróquias, museus e — por que não? — colecionadores privados elaborem, revisem e divulguem seus inventários. O inventário não é mero ato burocrático: ele dificulta a ação de receptadores e atravessadores, inibe a circulação de peças roubadas e ressignifica a relação entre detentores e poder público. Aqueles que operam à margem, conscientemente, não são parceiros — e sobre eles deve recair todo o peso da lei. Os demais, porém, precisam ser vistos como aliados possíveis.

Há também um outro eixo decisivo: valorizar e dar visibilidade às artes tradicionais brasileiras que mantêm vivo o legado barroco e rococó, especialmente em polos históricos de produção, como ateliês de Tiradentes e São João del-Rei, entre outras cidades mineiras. Ao apoiar esses mestres e oficinas, fortalecemos uma cadeia cultural legítima, historicamente enraizada e tecnicamente qualificada — e impedimos que artistas sejam empurrados para circuitos obscuros de encomendas “de época”, destinadas a alimentar falsificações ou simulacros de procedência duvidosa.

Tudo isso permite imaginar um horizonte possível: que 2026 seja, de fato, um ano da virada. Um ano de recuperações e reencontros, de imagens que retornam às suas comunidades, de descobertas em arquivos e inventários revisitados; um ano de cooperação profícua entre o IPHAN, a CNBB, a ArqRio, o INEPAC, as irmandades, parceiros da sociedade civil — como o atento e dedicado Provedor da Lapa dos Mercadores, Claudio André de Castro — e todos aqueles que compreendem que o patrimônio não é obstáculo, mas fundamento de identidade coletiva.

Se conseguimos transformar desconfiança em diálogo, isolamento em redes e opacidade em sistemas públicos de informação, deixaremos de contar a história de perdas contínuas para escrever outra, mais justa e necessária: a de um país que reaprende a reconhecer, proteger e devolver à vida comum as obras que guardam a memória de sua fé, de sua arte e de sua própria formação histórica.

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