


Antônio Sá
Se existe o Dia das Mães, dos Pais e das Crianças, por que não um Dia do Sexo? Foi com essa provocação que, em 2008, nasceu oficialmente no Brasil a comemoração do Dia do Sexo, lembrada todo dia 6 de setembro (6/9). A data, que surgiu como jogada de marketing de uma marca de preservativos, ultrapassou a publicidade e conquistou espaço no calendário cultural e social, mesmo sem ser oficializada.
Mas a história vai além. Décadas antes, já havia sido proposta uma data semelhante, num contexto muito diferente, mais voltado para educação e saúde.
A ousadia de 2008: quando o marketing virou movimento
No dia 6 de setembro de 2008, a agência de publicidade Age lançou para a marca Olla a campanha que ficaria marcada: “Se existe o Dia das Mães, dos Pais e das Crianças, por que não temos um Dia do Sexo?”. A escolha do 6/9 não foi ao acaso: os números lembram a posição sexual “69” (“meia-nove”), símbolo de reciprocidade e prazer mútuo.
A campanha apostava no humor, mas também numa lógica irrefutável: as celebrações familiares só existem porque houve sexo antes delas. Por isso, a prática também mereceria um dia para si.
A proposta viralizou. Veiculada em anúncios, vídeos, e-mails e peças publicitárias na internet, a ação chegou a criar um abaixo-assinado virtual para levar o pleito à Câmara dos Deputados. A oficialização nunca aconteceu, mas o engajamento popular foi imediato. Comunidades surgiram no Orkut — a grande rede social da época — e a data acabou se fixando como um “feriado informal” brasileiro.
Com o tempo, o 6/9 deixou de ser apenas piada e passou a ser usado em campanhas de saúde, em discussões sobre prazer feminino, diversidade sexual e importância do consentimento. Hoje, além de preservativos, motéis, restaurantes e até floriculturas aproveitam a data para promover ações e eventos.
A tentativa esquecida de 1935
Pouca gente sabe, mas o Dia do Sexo já havia sido proposto em 1935 pelo médico carioca José de Albuquerque, criador do Círculo Brasileiro de Educação Sexual (CBES).
O CBES, fundado em 1933, buscava reformar a cultura sexual no Brasil, promovendo campanhas de conscientização na mídia, em palestras e em panfletos. Albuquerque sugeriu que o 20 de novembro fosse o “Dia do Sexo”, data em que o tema ganharia espaço de debate.
Sua abordagem, marcada por uma visão clínica e higienista, falava sobre masturbação, controle de natalidade e prevenção de doenças, mas com ênfase maior na função reprodutiva do que no prazer. Curiosamente, ele era contrário ao uso da camisinha. Ainda assim, defendia que o sexo fosse discutido sem tabus, dentro das famílias e nas escolas — uma posição considerada progressista para sua época.
Sem apoio das autoridades de saúde e sem repercussão social, a ideia caiu no esquecimento. O “Dia do Sexo” só voltaria à pauta mais de 70 anos depois, agora em tom bem mais descontraído.
Do tabu à celebração
Comparando os dois momentos, vemos como a percepção da sexualidade evoluiu no Brasil. Enquanto em 1935 falava-se de sexo de maneira científica e moralizante, em 2008 ele foi colocado no centro da publicidade com humor e ousadia.
E se a proposta inicial de José de Albuquerque não vingou, a campanha da Olla conseguiu transformar a data em algo maior: um símbolo cultural que une irreverência e reflexão, usado tanto para vender quanto para conscientizar.
Dia do Orgasmo
Poucos também sabem que existe o Dia Mundial do Orgasmo, celebrado em 31 de julho. A data foi criada em 1999, na Inglaterra, por uma rede de sex shops que buscava chamar atenção para o prazer sexual e, ao mesmo tempo, ampliar suas vendas. Porém, mais do que uma ação de marketing, o dia se consolidou diante de pesquisas que mostravam a insatisfação de muitas mulheres britânicas com a vida sexual.
Com o tempo, a proposta ultrapassou o comércio e ganhou relevância social: passou a ser lembrada em vários países como um momento de reflexão sobre autoconhecimento, saúde sexual e igualdade. Hoje, 26 anos depois, a data é um marco para reforçar a importância de falar abertamente sobre prazer e quebrar tabus, sobretudo em relação ao corpo feminino.
Mais Que Uma Brincadeira
O 6 do 9 é mais do que um trocadilho. É um convite à conversa aberta sobre prazer, saúde e respeito. Nasceu de uma campanha de marketing, mas se consolidou porque tocou em algo universal: a sexualidade como parte essencial da vida.
Do 20 de novembro de 1935 ao 6 de setembro de 2008, o Dia do Sexo mostra como falar de intimidade ainda provoca, ensina e mobiliza. Afinal, mais que uma data curiosa, é um lembrete de que sexo deve ser celebrado com liberdade, responsabilidade e, sobretudo, consentimento.
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