
No bairro que consagrou Noel Rosa, surgiram versos que também dariam vida a outros personagens. Vila Isabel, berço do samba, já cantou seus bares, suas praças, suas fábricas e suas favelas. Bairro considerado dos mais cariocas e tradicionais do Rio, que nos últimos anos, infelizmente, via a escalada da violência e sua desvalorização, ainda segue carregado de história e memória viva. Entre suas ruas e sobrados antigos, também nasceu a inspiração para um hino moderno do samba.
Em 1978, Leci Brandão, então jovem estudante de direito e já com carreira em ascensão, compôs “Zé do Caroço”, música que inicialmente não foi aceita pela sua gravadora, e que virou sucesso nas rodas de pagode e nos shows da cantora, meio que de maneira informal. Só na década de 80, finalmente ganhou registro oficial em um novo álbum, produzido pela Copacabana, e desde então se tornou um hino, regravado por artistas como Grupo Revelação, Seu Jorge e até Anitta.
Quem foi Zé do Caroço?
A composição surgiu a partir da história real de Mendes, morador do Morro do Pau da Bandeira (uma das comunidades que integram o atual complexo do Morro dos Macacos). O jovem era conhecido como Zé do Caroço (apelido devido a um sério problema de saúde que enfrentava). Fiel a letra da música, ele instalou um sistema de som na laje da casa para transmitir notícias, avisos e eventos para a comunidade, um meio de comunicação popular que incomodava as forças repressivas da época — estávamos em plena ditadura militar, sob o comando do general Ernesto Geisel. A denúncia contra o sistema de alto-falantes foi feita pela esposa de um militar que morava na região, mostrando o quanto aquele pequeno ato de resistência tinha força e alcance.

Leci Brandão, que transitava pelo circuito cultural e político carioca dos anos 1970, mergulhada nos festivais universitários, nos terreiros e na luta do Movimento Negro Unificado, encontrou no Zé do Caroço um símbolo vivo da resistência popular e da força das vozes do morro. Na música, ela fazia questão de destacar a importância de estar nascendo um novo líder e lamentava que na época não havia um no morro dela, na Mangueira. A composiçãose deu a partir de um relato feito por um antigo jornalista O DIA.
“O Zé do Caroço ligava o alto-falante no horário da novela. Um belo dia, vim da Zona Sul vindo para a Tijuca e veio aquela linha melódica, sou compositora intuitiva, Deus quando manda, manda letra, música, introdução, tudo direitinho”, contou Leci Brandão em entrevista.
Zé, que começou como um garoto do Morro do Pau da Bandeira, filho de uma diarista nordestina e um pedreiro, cresceu nos becos e ladeiras, virou líder do pavilhão na FEBEM e, aos poucos, tornou-se um personagem respeitado por toda a comunidade — não pela violência, mas pela palavra e pela capacidade de unir as pessoas.


A música narra esse cotidiano, as lutas e os medos, mas também a esperança e a cultura que brota das comunidades. Zé do Caroço viveu a transição dos anos 70 para os 80, viu o Brasil se transformar, ouviu pelo seu alto-falante os acontecimentos que marcaram a história, como a campanha das Diretas Já, o drama da Copa de 1982 e as mudanças políticas com a Constituição de 1988.
O líder comunitário morreu no início dos anos 2000.
