quarta-feira, 15 de abril de 2026 - 10:20

Emanuel Alencar: Dora Negreiros e o poder popular

Dora Hees de Negreiros foi uma importante expoente do movimento ambientalista do Rio. Fez parte do Grupo Executivo de Despoluição da Baía de Guanabara (GEDEG), que teve como missão liderar as negociações com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e estruturar o Projeto de Despoluição da Baía de Guanabara (PDBG), há três décadas. Tive o prazer de conhecê-la (a química nos deixou em 2016), e aprender um pouco com sua enorme experiência. Dora repetia um mantra, quando lhe perguntavam sobre a situação da Guanabara: “O sucesso passa pela sociedade civil organizada, cobrando”.

Quatro anos após o início das operações de empresas privadas no saneamento de muitos municípios do Grande Rio, muitas questões permanecem sem respostas. A sociedade, embora justamente animada com algumas vitórias (como Praia do Flamengo em boas condições na maior parte do ano), ainda não tem meios de aferir o andamento das obras milionárias. Alguns entraves, como a falta de contrato de tratamento de esgotos em São João de Meriti, continuam sem uma solução no fim do túnel.

A Águas do Rio, concessionária de muitos bairros e cidades metropolitana, tem feito, nas rádios, um anúncio ufanista: “100 milhões de litros de esgoto deixaram de cair na Baía de Guanabara, todos os dias”. Ora, vamos a uma conta simples. Estimativas de especialistas com base na situação de 2021 apontam que por dia chegam às águas guanabarinas 1,55 bilhão de litros de esgotos – são 16 cidades contribuindo para o cenário caótico. Para você aí ter uma ideia mais precisa, isso é o equivalente a 622 piscinas olímpicas de dejetos in natura. O que a concessionária está afirmando representa apenas 6% desse total. É um avanço? Sim, mas que precisa ser ponderado diante do tamanho do desafio.

Dora, ex-diretora da Fundação Estadual de Engenharia do Meio Ambiente (Feema), certamente seria uma voz a reclamar da ausência de informações básicas ao cidadão – o site psam.eco.br/, do Programa de Saneamento Ambiental (PSAM) da Secretaria Estadual do Ambiente, está fora do ar. Ela defendia a transparência e o controle social não por ideologia. Era uma profunda conhecedora das ações de sucesso de despoluição de cursos hídricos, mundo afora. “É preciso mais empenho de toda a sociedade para alcançar uma Guanabara de águas limpas, com praias sempre prontas para um prazeroso mergulho de cariocas e fluminenses. É possível, a Guanabara merece. Assim, ela será orgulho de todos nós”, destacou, antes de se despedir desse mundo.

Sua luta é nossa luta.


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