
O que revela a Nota Técnica
Um novo estudo técnico sobre a concentração de renda no Brasil revela um quadro alarmante e, ao mesmo tempo, essencial para compreendermos a desigualdade atual do país. A Nota Técnica “Concentração de renda no Brasil: o que os dados do IRPF revelam?”, assinada por Frederico Nascimento Dutra, Priscila Kaiser Monteiro e Sérgio Wulff Gobetti, aprofunda a análise a partir dos dados das declarações de Imposto de Renda das Pessoas Físicas (IRPF) entre 2007 e 2024.
O documento mostra como a desigualdade voltou a crescer de forma acelerada no período pós-pandemia, especialmente no topo da pirâmide social, onde os ganhos foram muito mais intensos do que na base.
Para ler a nota técnica na íntegra:
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Introdução e objetivos
- Análise de dados do IRPF entre 2007 e 2024 para medir a concentração de renda no Brasil.
- Constatação central: crescimento acelerado da renda no topo da pirâmide, sobretudo após a pandemia.
- O 1% mais rico aumentou sua participação na renda nacional de 20,4% (2017) para 24,3% (2023).
- 85% desse aumento ficaram com o 0,1% mais rico e metade com o 0,01% mais rico.
- O motor dessa concentração foram lucros e dividendos (66% do total), muito acima das rendas do trabalho, acentuado pela pejotização.
- Enquanto a renda média das famílias cresceu 1,4% ao ano (2017–23), a renda do 0,1% mais rico cresceu 6,9% ao ano; no 0,01%, 7,9% ao ano.
PNAD x IRPF
- As pesquisas domiciliares (PNAD/IBGE) subestimam a renda do topo, pois dependem da autodeclaração.
- Diferença marcante: para o 0,01% mais rico, a PNAD apontava em 2023 renda média de pouco mais de R$ 200 mil/mês; o IRPF mostrou R$ 2,5 milhões/mês – 12 vezes mais.
- Conclusão: usar apenas a PNAD leva a diagnósticos equivocados. O ideal é combinar PNAD (base) com IRPF (topo).
Evolução da concentração
- Entre 2006 e 2020, o 1% mais rico mantinha cerca de 21% da renda nacional.
- Pós-pandemia, houve salto de 3 a 4 pontos percentuais.
- De 2017 a 2023, a fatia do 1% subiu de 20,4% para 24,3%.
- Em 2023:
- 0,1% detinham 12,5% da renda;
- 0,01%, 6,2%.
- Considerando valores de fundos offshore e fechados (Lei 14.754/2023), chegariam a 15,9% e 9,9%, respectivamente.
- Dividendos e juros sobre capital próprio explicaram 87% do avanço do 1% e 66% do avanço do 0,1%.
- Enquanto isso, os salários perderam participação, reflexo direto da pejotização.
Fatores explicativos
- Pejotização: profissionais de alta renda converteram salários em rendimentos de capital para reduzir impostos.
- Grandes empresários e exportadores: beneficiados pela alta internacional de commodities e pela inflação doméstica, ampliaram lucros sem grande crescimento da produção.
- Resultado: concentração estrutural de renda, de difícil reversão espontânea.
Panorama regional
Análise inédita por estados mostrou diferenças relevantes:
- Mato Grosso: 1% mais rico passou de 20,3% (2017) para 30,5% (2023).
- São Paulo: de 22,9% para 27,1%.
- Goiás, Paraná, Mato Grosso do Sul e Santa Catarina também registraram forte crescimento.
- Norte e Nordeste mostraram menor nível e menor expansão.
Distribuição do 1% mais rico no Brasil:
- SP concentra 35,6%;
- RJ, 11,2%;
- MG, 9,1%;
- RS, 7%.
O Distrito Federal tem a maior proporção relativa de ricos (2,86%), mas cai entre os milionários (0,1%).
Já SP concentra 42% dos milionários brasileiros.
Conclusão da Nota Técnica
O Brasil, já entre os países mais desiguais, piorou no pós-pandemia: o topo da pirâmide avançou mesmo em cenário de baixo crescimento econômico.
- Transferência de renda (como o Bolsa Família) segue vital, mas insuficiente para lidar com a nova desigualdade concentrada no topo.
- Há urgência em uma reforma tributária progressiva, com:
- revisão de isenções de rendas de capital;
- tributação mais justa de lucros, dividendos, atividades rurais e títulos financeiros subtributados.
Conclusão final: enfrentar a concentração no topo pode melhorar não só a distribuição de renda, mas também a eficiência econômica, eliminando distorções que travam o desenvolvimento.
FiscalData: descubra sua posição na pirâmide
Além de compreender o estudo, é possível verificar em que ponto da pirâmide de renda você está.
A plataforma FiscalData desenvolveu um simulador que, com base nos dados do IRPF 2023, permite descobrir sua posição exata tanto no ranking nacional quanto no Rio de Janeiro (ou em outro estado).
Você pode usar uma estimativa simples da sua renda mensal ou inserir dados detalhados da sua declaração.
O simulador mostra:
- se você está entre os 10% ou 1% mais ricos;
- quantas pessoas estão acima e abaixo de você.
A metodologia foi construída a partir das estatísticas da Receita Federal, estratificadas por centil de renda.
O sistema garante privacidade: os dados não ficam armazenados.
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Reflexão final
O estudo é um alerta: enquanto a maioria da população luta com rendas modestas, o topo da pirâmide avança a passos largos.
É fundamental que o tema entre no debate público e que as políticas tributárias sejam revistas, sob pena de agravarmos ainda mais a desigualdade histórica do Brasil.