
Na mesma semana em que assisti ao filme nacional A Natureza das Coisas Invisíveis, encontrei outro filme que dialoga com magia, mas de um jeito completamente diferente. Se o longa nacional explora fé, tradição e espiritualidade popular, Wicked: Parte II entrega fantasia em escala hollywoodiana, com efeitos grandiosos e uma construção épica que ressignifica O Mágico de Oz de forma ambiciosa.
E devo admitir: fui surpreendido de maneira muito positiva. O longa subverte padrões e fez com que eu pensasse muito num texto sobre padrões de beleza impostos.

A heroína, ou vilã, dependendo de quem julga – ou noticia – ganha novas camadas na interpretação poderosa e na presença firme de Cynthia Erivo. Ela faz de Elphaba não só a Bruxa Má do Oeste, mas uma guerreira da libertação animal, uma ativista vegana que luta contra injustiças, manipulações e fake news dentro do universo de Oz. É maravilhosa a forma como o filme dialoga com temas muito contemporâneos: informação, mentira, controle de narrativas. Para quem interessa a verdade? Para quem interessa a mentira? O que são e a quem servem? O roteiro explora essas perguntas com inteligência e provoca um reflexão necessária.
Ariana Grande, como Glinda, volta cheia de brilho, mas agora assombrada pelas consequências das escolhas do primeiro filme. Importante colocar aqui que, até o momento em que escrevo esse texto ainda não vi Wicked – Parte I. Pasmem!


Dessa maneira, fui de mente aberta, como gosto, na pré-estreia especial para a qual fui convidado. Ali pude sentir que muita coisa ressoava para quem acompanhou a franquia desde o início. Um rapaz sentado ao meu lado chorava copiosamente em boa parte do ato final, tomado pela força emocional da história, um indicador claro da legião de fãs que Wicked conseguiu reunir.
Confesso que gosto quando uma continuação funciona sozinha, como Uma Noite Silenciosa 2, filme o qual vi antes do original. Gostei demais e corri para ver o primeiro. Já em Wicked: Parte II faz mais falta conhecer o que veio antes. Contudo, isso não prejudicou a experiência. Aproveitei o meu distanciamento e ficou a curiosidade para ver a primeira parte.
A verdade é que Wicked: Parte II é uma superprodução que entende seu tamanho. Direção de arte deslumbrante, maquiagens impecáveis, efeitos especiais exuberantes, tudo funciona bem. Ou quase tudo. Pessoalmente, não sou um grande fã de musicais, e, para mim, as canções até quebram o ritmo da obra e do drama em algumas situações. Talvez eu seja execrado por essa colocação. Mas, apesar de ser baseado em um musical da Broadway, e essa ser sua essência por excelência, seria melhor sem algumas das músicas.
O diretor Jon M. Chu retorna com eficiência após transformar o primeiro Wicked em um fenômeno global, responsável por mais de 750 milhões de dólares de bilheteria e 10 indicações ao Oscar, incluindo Melhor Filme. Nesta segunda parte, ele aprofunda o conflito entre Elphaba e Glinda, agora separadas por escolhas dolorosas.


Elphaba vive exilada na floresta de Oz, tentando libertar os Animais silenciados e expor a verdade sobre o Mágico (Jeff Goldblum). Glinda, enquanto isso, tornou-se o símbolo oficial da Bondade, uma figura pública moldada pelo marketing político do palácio e pelo comando calculado de Madame Morrible (Michelle Yeoh). Entre fama, casamento e deveres, ela tenta, talvez de forma ingênua, reconciliar Elphaba com o Mágico, o que gera consequências graves para Boq, Fiyero e até para Nessarose.
Quando uma garota do Kansas cai em Oz (você sabe quem é, né?) o destino das duas bruxas e de todo o reino muda de forma definitiva. O filme amarra essa jornada num clímax emocional intenso, que evoca amizade, culpa, coragem e redenção. Um bom final, sem dúvidas.
É um filme sobre olhar de novo para uma história conhecida e descobrir que todo mito tem mais de um lado.
Afinal, assim como A Natureza das Coisas Invisíveis, este também é um filme sobre crença, não necessariamente espiritual, mas humana. É sobre enxergar o outro com honestidade e empatia. Sobre reconhecer que toda grande narrativa é feita de escolhas, versões, interpretações.
Crítica: A Natureza das Coisas Invisíveis
O longa já chega ao circuito com trajetória sólida. Acumula prêmios relevantes e participou de laboratórios e seleções dedicadas a filmes em finalização. Entre as distinções, estão o WIP Paradiso no Ventana Sur (2024), o Prêmio Mistika no BrasilCineMundi (2024), melhor projeto de ficção no BAL-LAB do Festival Biarritz Amérique Latine e melhor roteiro no Festival Cabíria de 2019. Também passou pelo First Cut Lab e First Cut Lab+ no Karlovy Vary (2024), pelo Curitiba Lab no Olhar de Cinema (2024), além de compor o 10º BrLab e o 20º Produire au Sud.
A Natureza das Coisas Invisíveis acompanha Glória (Laura Brandão), uma menina de 10 anos que é obrigada a passar as férias no hospital onde a mãe (Larissa Mauro) trabalha como enfermeira. Nesse ambiente frio e cheio de ruídos, ela conhece Sofia (Serena), que acredita que a piora na saúde da bisavó tem relação direta com a internação. Dessa diferença nasce uma amizade luminosa, que oferece algum conforto diante do medo, da dor e da expectativa silenciosa que paira nos corredores do hospital.
Explorando cantos e histórias, as duas meninas revelam desejos simples: sair dali, respirar outro ar, encontrar algum sentido. Glória, porém, carrega algo a mais. Depois de um transplante de coração na infância, ela passa a sentir emoções que parecem não ser completamente suas. O filme abraça esse mistério com delicadeza, construindo um realismo fantástico que nunca grita, apenas sussurra.


O Brasil que vive no invisível também pulsa aqui. O longa exalta tradições que resistem apesar do tempo, como a cultura das benzedeiras e seus rezos. O benzimento aparece não como folclore, mas como tecnologia ancestral, um saber de cura, acolhimento e proteção. O filme ainda apresenta a procissão das encomendadoras de almas de Santana do Brejo, criando um retrato histórico que honra essas mulheres e suas práticas.
A fé, aliás, é um dos grandes personagens do filme. Surge em símbolos, gestos, silêncios e pequenas visões. Uma cena resume bem esse espírito: numa conversa, uma personagem afirma que às vezes “a gente vê o que quer ver, mas não é real”. A outra responde: “e faz diferença?”. É a bela face do filme se mostrando.
A morte também atravessa essa narrativa, não como ameaça ou punição, mas como passagem. O roteiro trata do fim com dignidade, sem romantizar e sem demonizar, permitindo nuances e respirações.
É impossível falar do filme sem destacar Laura Brandão, que entrega uma Glória cheia de carisma, doçura e inquietação. Serena, como Sofia, acompanha esse brilho com naturalidade e força. Juntas, formam um duo que sustenta boa parte da emoção do longa.
Uma das virtudes da obra é permanecer aberta a interpretações. Ela não entrega respostas sobre vida, morte, destino ou espiritualidade, e talvez seja exatamente isso que a torne honesta. Quem teria essas respostas, afinal?


O epílogo merece menção à parte. Deixa um sabor de tabaco bom, daqueles apertados no interior. Com cheiro de reza antiga. Lembro ainda do caderno de orações da bisavó, que aparece no filme com recortes de Nossa Senhora e Jesus Cristo. E evoca também as casas simples das rezadeiras, onde as imagens dos santos convivem com a fé viva de quem cura e acolhe.
A Natureza das Coisas Invisíveis é um belo e saboroso filme nacional, redondo, dotado de um encantador fechamento. Tão mágico quanto Wicked e extremamente em sua magia brasileira.
Wicked 2 estreia nesta quinta-feira, 20 de novembro, nos cinemas brasileiros, mas os fãs podem assistir à produção a partir desta quarta, 19 de novembro, em sessões antecipadas em todo o Brasil.
A Natureza das Coisas Invisíveis chega aos cinemas brasileiros em 27 de novembro.
