
Eu quero mais é beijar na boca – talvez essa seja a frase que melhor traduz a sensação de quem sai do teatro depois de assistir “O Dinossauro de Plástico”, monólogo estrelado por Rafael Saraiva. Conhecido por sua veia cômica no Porta dos Fundos, pelo sotaque carioca assumido, pelo amor ao Flamengo e até pelas histórias de ter sido assaltado 11 vezes (como contou no “Que História É Essa, Porchat?”), Rafael mostra no palco uma outra face: sensível, madura, reflexiva e surpreendente.
Depois de temporadas esgotadas, o espetáculo voltou para uma curta temporada no Teatro Domingos Oliveira, na Gávea, de 7 a 30 de novembro, com sessões às sextas e sábados, às 20h, e domingos às 19h. A direção é de Barbara Duvivier, diretora artística do Porta, e o texto, a estreia de Gustavo Vilela como dramaturgo, mergulha nas ansiedades e neuroses de um jovem adulto tentando se entender no mundo.
O espetáculo apresenta Marcelo (ou “Dani”, como o próprio personagem prefere ser chamado), um jovem comum às voltas com suas crises existenciais, inseguranças e a eterna sensação de estar abaixo das expectativas alheias. Mas o texto foge do clichê, ele não quer ser lição de moral, e sim um espelho – às vezes doloroso, às vezes engraçado – para quem está ali assistindo. E foi exatamente assim que me senti: reconhecida em várias falas, pensamentos e crises que Dani vive.
Havia um grupo de adolescentes na minha frente, daqueles que imaginamos se chamarem Enzo ou Valentina – agitados, empolgados, talvez esperando o Rafael das piadas rápidas e irreverentes. Mas o que encontraram foi diferente: um Rafael que emociona, provoca, faz pensar e, claro, arranca risadas, como nos hilários três atos sobre sua ex. Talvez eles ainda não entendam totalmente o que é a crise dos 20 – mas quando ela chegar, vão lembrar. Rafael tem apenas 25 anos, e fala sobre uma geração que sente demais e esconde ainda mais.
Fiquei surpresa e encantada com o caminho escolhido pela peça. Fui esperando humor, e ele existe, mas vem misturado com camadas que nos acompanham quando saímos do teatro. Em alguns momentos me vi completamente em Dani, especialmente quando ele confessa não conseguir terminar nada – e, no fim, percebe que está justamente construindo algo inteiro.
Rafael constrói um personagem humano demais, daqueles que nos lembram que sempre achamos que a grama do vizinho é mais verde, quando esquecemos de reconhecer nossos próprios avanços. A diretora artística resume bem. “Através de um personagem que se encontra e se perde em diversas fronteiras da vida, o espetáculo aborda questões centrais da Geração Z, como hiperconectividade, solidão e a busca por relevância”, afirma.
O texto, como conta Gustavo Vilela, nasceu de conversas entre ele e Rafael – de neuroses reais, compartilhadas, quase confissões de geração. E talvez por isso funcione tão bem. É verdadeiro demais para não reconhecer algo nosso ali. Rafael parece encontrar, com esta peça, um novo passo na carreira.
“Estou muito empolgado por desenvolver projetos autorais. Essa peça é um momento em que posso produzir algo meu e ter o retorno direto do público que me acompanha. É gratificante ver essas possibilidades se abrindo“, conta. E, se posso dar um conselho, continue desenvolvendo. Seus fãs agradecem.
Não quero dar spoilers nem aprofundar o que deveria ser vivido lá, sentado na plateia. Mas posso dizer que vale e muito assistir. Uma peça pequena em estrutura, grande em entrega. Intimista, honesta, generacional. Rafael, não se preocupe com comentários negativos. Você já é comediante, roteirista, agora brilha nos palcos. E mais importante: necessário.
E como ele disse ao final da peça “Se gostou, divulgue.” Aqui estou. Divulgando. E já esperando a próxima.
Serviço
O dinossauro de plástico
- Temporada: de 7 a 30 de novembro, sextas e sábados, às 20 horas, domingos, 19 horas.
- Teatro: Teatro Municipal Domingos Oliveira. Av. Padre Leonel Franca, 240 – Gávea (Planetário).
- Ingressos: inteira (R$ 60,00); meia (R$30,00).
- Venda online: ingressosriocultura.com.br
- Duração: 50 min.
- Gênero: Comédia.
- Classificação indicativa: 12 anos.
