
Pedro Duarte
vereador, advogado e pós-graduado em Gestão Pública
& Bruno Kazuhiro, ex-secretário de Turismo do Rio
Nos últimos anos, tem sido cada vez mais comum um certo fenômeno no Carnaval Carioca: a conquista de títulos por escolas de samba que não são da cidade do Rio, mas sim de municípios do entorno da capital, situados na Região Metropolitana. Desde 2010, foram 13 títulos de escolas do Rio e os mesmos 13 títulos de cidades da Região Metropolitana. Um empate que já seria significativo. Já nos últimos 8 campeonatos, tivemos 6 títulos do entorno da capital e apenas 2 vitórias do município que recebe os desfiles, uma estatística que impressiona.
À primeira vista, esses números podem demonstrar uma democratização do carnaval, que irradia do Rio para toda a metrópole e permite que cidades com população e economia menores conquistem o campeonato. Isso seria, inclusive, super positivo. Mas o motivo não é exatamente esse. Há também quem possa dizer que o fenômeno seria derivado especificamente do grande sucesso da Beija-Flor de Nilópolis. Contudo, embora a escola realmente seja a maior campeã de fora do Rio, nos últimos 8 anos tivemos também 3 campeonatos da Unidos do Viradouro (Niterói) e 1 da Acadêmicos do Grande Rio (Duque de Caxias). O cenário se reforça quando lembramos que, dos 4 últimos títulos da Série Ouro e consequentes acessos ao Grupo Especial, 3 foram de Porto da Pedra (São Gonçalo), Acadêmicos de Niterói e União de Maricá.
Na realidade, não se trata apenas de uma positiva democratização ampla do carnaval para diversas cidades ou de domínio da Beija-Flor. Se trata, em grande medida, de maior poderio econômico. Para além de patrocinadores e patronos, que existem em todas as escolas, as agremiações recebem verbas públicas para financiar os seus desfiles. A Prefeitura do Rio de Janeiro, o Governo do Estado e também o Governo Federal aportaram recursos, neste Carnaval de 2026, para todas as escolas igualmente. E aqui está o X da questão. As escolas do Rio recebem estas verbas e já estão, nesse sentido, agraciadas pela Prefeitura de sua cidade. Já as escolas de fora do Rio recebem verbas extras, muitas vezes polpudas, de suas respectivas prefeituras, valendo ressaltar que Niterói e Maricá estão em momento de alto recebimento de royalties do petróleo de livre aplicação.
Em resumo, o que as escolas do Rio recebem também é recebido pelas escolas de fora do Rio. Mas o que as escolas de fora do Rio recebem de suas prefeituras não é recebido pelas agremiações cariocas. A título de exemplo, neste ano de 2026, a campeã do Especial, Viradouro, recebeu 4 milhões de reais da Prefeitura de Niterói. Já a campeã do Acesso, União de Maricá, recebeu 8 milhões de sua cidade. Gradualmente, ano a ano, isso vai criando um desequilíbrio, que pode se agravar ainda mais quando governos de outros estados decidem também patrocinar desfiles do Carnaval Carioca ou quando a Presidência da República se envolve no samba por conta dos enredos escolhidos pelas escolas.
Considerando que as outras cidades, naturalmente, irão continuar a financiar suas escolas e que a Cidade do Rio de Janeiro, sede do espetáculo, provavelmente seguirá financiando todas as escolas, seja de qual cidade forem, por conta dos desfiles ocorrerem no Rio e gerarem turismo, emprego, renda e arrecadação de impostos na Cidade Maravilhosa, qual seria a solução?
O que propomos é um fundo público geral de financiamento das escolas. Um ‘pool” de patrocínios, onde todos os entes públicos que desejarem financiar o Carnaval, sejam prefeituras, governos estaduais ou o governo federal, aportem esses valores em uma soma única, transparente, que é repartida de maneira escalonada pelas diferentes divisões em disputa e, dentro de cada divisão, distribuída igualmente para todas as escolas que participam da competição. lgo similar ocorre em campeonatos esportivos ao redor do mundo.
Esse mecanismo traria mais competitividade para o campeonato e mais transparência para o uso de dinheiro público, evitaria distorções fabricadas pelo desequilíbrio financeiro e combateria a politização e o personalismo dos enredos. Além disso, os fãs do carnaval, os foliões, os turistas, as comunidades que apoiam às escolas e os profissionais do carnaval saberiam que, a cada ano, todos têm chance real de ganhar.