
Eleito em 2024 para seu primeiro mandato na Câmara Municipal do Rio, o vereador Salvino Oliveira (PSD) construiu sua trajetória política com o discurso de ascensão social e de defesa de políticas voltadas à juventude das periferias. Aos 28 anos, o parlamentar foi preso nesta quarta-feira durante a Operação Contenção Red Legacy, da Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro, sob suspeita de negociar apoio eleitoral com integrantes do Comando Vermelho, uma das principais facções criminosas do país.
Segundo investigadores, Oliveira teria tratado diretamente com o traficante Edgar Alves de Andrade, apontado como um dos chefes da organização nas ruas, para garantir autorização para realizar campanha eleitoral na Gardênia Azul, comunidade da Zona Oeste dominada pela facção. Em troca, de acordo com a polícia, o vereador teria articulado benefícios ao grupo criminoso por meio de iniciativas apresentadas publicamente como ações voltadas à população local.
Ao chegar à Cidade da Polícia, o parlamentar negou as acusações. “Entrei na política para mudar a vida das pessoas. Estou sendo vítima de uma briga política que não é minha”, afirmou em entrevista ao telejornal Bom Dia Rio, da TV Globo. Ele também disse não ter qualquer relação com o traficante.
Origem na Cidade de Deus e trajetória de superação
Nascido e criado na Cidade de Deus, na Zona Oeste do Rio, Salvino Oliveira costuma apresentar sua trajetória como exemplo de mobilidade social. Aos sete anos, ingressou por sorteio no tradicional Colégio Pedro II, onde estudou parte da formação básica.
Em relatos divulgados nas redes sociais e em material de campanha, ele afirma ter trabalhado desde cedo em atividades informais para ajudar nas despesas da família, vendendo água em sinais de trânsito e balas em ônibus. Também diz ter atuado como ambulante, garçom, pedreiro e estagiário da Defensoria Pública.
Anos depois, ingressou na universidade e se formou em Gestão Pública pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em 2023. Durante a juventude, participou de projetos educacionais e atuou como voluntário em cursos pré-vestibulares comunitários.
Ascensão política na gestão Eduardo Paes
A aproximação com a política institucional ocorreu durante a campanha a prefeito de 2020, quando se aproximou do então candidato à reeleição Eduardo Paes.
No início da gestão, em 2021, foi convidado para assumir a recém-criada Secretaria Especial da Juventude Carioca, tornando-se o secretário municipal mais jovem da história da cidade, aos 22 anos.
À frente da pasta, coordenou iniciativas voltadas à formação e inclusão de jovens de comunidades. Entre os programas criados está o Pacto pela Juventude, desenvolvido em parceria com a UNESCO, que oferece capacitação e auxílio financeiro temporário para jovens lideranças comunitárias desenvolverem projetos sociais. A secretaria também implantou espaços de capacitação tecnológica com cursos como robótica, inovação e operação de drones.
Eleição para a Câmara do Rio
Depois de deixar a secretaria, Salvino disputou pela primeira vez um cargo eletivo. Nas eleições municipais de 2024, foi eleito vereador do Rio pela legenda de Eduardo Paes, o Partido Social Democrático (PSD), com pouco mais de 27 mil votos.
Na Câmara Municipal, apresentou projetos voltados à juventude e à regulação de novas atividades econômicas. Um dos projetos mais conhecidos propõe regras para o funcionamento de imóveis usados para aluguel de curta temporada, como plataformas digitais de hospedagem.
Episódio de agressão em operação na Cidade de Deus
Durante o período pré-eleitoral de 2024, o então pré-candidato esteve no centro de um episódio de tensão na Cidade de Deus. Em julho daquele ano, ele foi agredido durante uma confusão envolvendo moradores, manifestantes e forças de segurança durante uma operação da prefeitura para demolir construções consideradas irregulares.
Vídeos que circularam nas redes sociais mostraram Salvino cercado por manifestantes, sendo atingido por tapas, socos e empurrões. Garrafas e ovos foram arremessados, e ele acabou atingido por spray de pimenta após a intervenção de policiais.
Na ocasião, afirmou que havia ido ao local após receber mensagens de moradores e que tentava mediar o diálogo entre comerciantes e o poder público quando a situação saiu do controle.
Suspeita de articulação política com o tráfico
A prisão do vereador ocorre no âmbito da operação que investiga a estrutura nacional do Comando Vermelho e sua rede de apoio fora do sistema prisional. Segundo a Polícia Civil, a investigação aponta a existência de uma cadeia de comando estruturada, com divisão territorial e atuação interestadual.
Entre os investigados estão familiares de Márcio dos Santos Nepomuceno, considerado uma das principais referências históricas da facção e preso desde 1996. A polícia aponta que pessoas próximas ao traficante, como sua esposa e um sobrinho, atuariam como intermediários de interesses do grupo.
De acordo com os investigadores, o objetivo da operação é atingir não apenas os executores do tráfico, mas também as estruturas políticas, financeiras e institucionais que permitiriam a expansão da organização criminoso.