
Ex-integrante de governos municipal e estadual no Rio, o advogado Alessandro Pitombeira Carracena viu a carreira pública ruir após ser apontado pela Polícia Federal como peça de um esquema de colaboração com o crime organizado. Preso desde 2025 e novamente alvo de mandado na Operação Anomalia, ele é acusado de atuar em favor do Comando Vermelho, vazando informações sobre operações policiais e usando sua rede de contatos políticos para atender interesses da facção.
A trajetória que começou em cargos técnicos e alcançou secretarias estratégicas terminou atrás das grades, um contraste que investigadores resumem como a passagem de secretário a presidiário.
Ascensão na vida pública
Advogado especializado em Direito Penal Econômico e do Consumidor, Carracena construiu carreira na administração pública ao longo das últimas gestões municipais e estaduais do Rio.
Ele ocupou diferentes cargos na Prefeitura do Rio durante o governo do ex-prefeito Marcelo Crivella, incluindo:
- secretário municipal de Ordem Pública (2020);
- diretor de operações em autarquia municipal;
- presidente do Fundo Especial de Ordem Pública;
- presidente do Conselho Administrativo da Guarda Municipal;
- integrante do Gabinete de Crise criado pela prefeitura durante a pandemia.
Posteriormente, passou a integrar o governo do estado durante a gestão do governador Cláudio Castro. No Palácio Guanabara, foi:
- secretário estadual de Esporte e Lazer (2022);
- subsecretário estadual de Defesa do Consumidor, cargo que ocupou até ser exonerado em janeiro de 2025.
Em boa parte dessas funções, atuou ao lado do então secretário Gutemberg de Paula Fonseca, que afirma conhecê-lo há cerca de duas décadas e sempre o considerou um profissional técnico.
Suspeita de atuar para o crime organizado
As investigações da Polícia Federal indicam, porém, que Carracena teria usado a influência adquirida na vida pública para atender interesses do Comando Vermelho.
Segundo a PF, ele é suspeito de:
- vazar informações sobre operações policiais para traficantes do Complexo do Alemão;
- interferir em decisões de segurança pública, como a retirada de uma base do Batalhão de Choque na Gardênia Azul, na Zona Oeste;
- agir como interlocutor político de integrantes da facção.
Em uma conversa interceptada em janeiro de 2024, traficantes discutiam a presença da tropa do Choque na região. Após contato com o então deputado estadual Thiego Raimundo dos Santos Silva, conhecido como TH Jóias, um telefonema foi feito para um contato identificado como “Carracena Secretário de Governo”. Dias depois, a unidade policial deixou o local, segundo a investigação.
Para a Polícia Federal, esse episódio evidenciaria uma ingerência direta do então subsecretário em favor da organização criminosa.
Suspeita de corrupção em processo de extradição
Outro eixo da investigação aponta que Carracena teria participado de um esquema para retardar a extradição do traficante internacional Gerel Lusiano Palm, procurado pela Interpol por tráfico de drogas e tentativa de homicídio.
De acordo com o inquérito, ele teria se reunido em Brasília, em 2023, para discutir o caso e recebido R$ 120 mil da advogada do holandês para interferir no processo. Outros dois participantes teriam recebido R$ 15 mil cada.
Entre os investigados estão também um delegado da Polícia Federal e intermediários ligados ao caso.
Prisão e queda
Carracena foi preso inicialmente em setembro de 2025, acusado de repassar informações sigilosas a traficantes. Posteriormente, voltou a ser alvo de mandado de prisão em novas fases da Operação Anomalia, que investiga a infiltração do crime organizado em instituições públicas.
Na operação que levou à sua nova prisão, também foram detidos policiais militares, um delegado da PF, assessores políticos e integrantes da facção.
Para o superintendente da Polícia Federal no Rio, Fábio Galvão, o caso revela um risco institucional grave. “Os criminosos conseguiram se infiltrar na polícia e na Assembleia Legislativa. Isso é muito perigoso.”
A investigação ainda apura se Carracena atuava como elo entre políticos, agentes públicos e o tráfico, usando relações construídas ao longo da carreira.