
A crise climática já deixou de ser um problema distante e passou a pressionar a economia das cidades, elevar custos públicos e aprofundar desigualdades sociais. Esse foi o tom do debate “Quando o extremo vira rotina: como eventos climáticos transformam a economia e nosso dia a dia?”, realizado na manhã desta sexta-feira (13), no Museu do Amanhã, no Centro do Rio.
O encontro foi promovido pelo HUB de Economia e Clima do Instituto Clima e Sociedade (iCS), em parceria com a Escola de Ciências do Museu do Amanhã, e reuniu o economista Rogério Studart, conselheiro do HUB, e Luize Sampaio, coordenadora de Informação da Casa Fluminense. A mediação ficou a cargo do jornalista e gestor ambiental Emanuel Alencar.
A discussão girou em torno de um ponto que já não cabe mais tratar como secundário: enchentes, secas e ondas de calor estão mexendo com a dinâmica econômica das cidades, afetando infraestrutura, mobilidade, saúde pública e o custo de vida da população.
Na abertura, Emanuel Alencar chamou atenção para a distância entre o discurso e a execução. Segundo ele, embora cerca de 70% dos municípios fluminenses tenham algum plano ligado à pauta climática, menos de 15% contam com orçamento específico para adaptação. Na prática, isso reduz a capacidade das cidades de acessar recursos e tirar medidas do papel.
Para Rogério Studart, que também é consultor da ONU e ex-diretor do Banco Mundial, os episódios recentes de chuvas fortes no Rio de Janeiro deixam claro que a crise climática já entrou de vez na rotina urbana. “A economia tratou o clima por muito tempo como uma externalidade, mas isso é um erro: ele é fundamental para o desenvolvimento e é resultado direto da forma como organizamos nossa produção e nossa relação com a natureza. Ignorar isso é uma barbárie social e também orçamentária, porque os custos aparecem depois em perdas de infraestrutura, mobilidade e qualidade de vida nas cidades”, afirmou Rogério Studart.
Ele defendeu que o risco climático precisa entrar de forma mais direta nas decisões econômicas e orçamentárias. Segundo o economista, adiar esse debate só empurra a conta para frente, e ela chega mais cara. “A gente precisa entender o custo da inação climática. Quando o poder público não coloca essa questão no orçamento agora, essa conta chega depois em forma de perdas de infraestrutura, gastos emergenciais e impactos diretos sobre a população. O clima precisa estar no centro das decisões públicas, assim como a responsabilidade fiscal passou a estar. Sem isso, continuaremos pagando um preço muito mais alto no futuro. A forma como o setor público e o setor financeiro alocam recursos hoje vai afetar diretamente o futuro das próximas gerações”, alertou Rogério Studart.
Na mesma linha, Luize Sampaio destacou como a degradação ambiental e a precariedade do saneamento agravam os efeitos da crise climática na Região Metropolitana do Rio. Segundo ela, a maior parte dos rios da região hoje apresenta qualidade da água classificada como ruim ou muito ruim, o que amplia a incidência de doenças e expõe desigualdades antigas.
“A má qualidade das águas dos rios, bacias e lagoas da Região Metropolitana impacta diretamente no aumento das doenças de veiculação hídrica e mostra como a crise climática se cruza com desigualdades estruturais do território. Quando olhamos quem é mais afetado, vemos que são justamente as populações que vivem nas áreas mais vulneráveis. Chegamos a extremos: há famílias na Baixada Fluminense que já desistiram de comprar móveis devido à frequência de enchentes e perdas materiais”, disse Luize Sampaio.
Ela também citou a relação entre indicadores sociais e ambientais para mostrar como o problema recai com mais força sobre certos territórios. “Quando a gente cruza os dados ambientais com os sociais, o retrato da desigualdade fica muito evidente. Em Belford Roxo, por exemplo, 98% das pessoas internadas por doenças de veiculação hídrica são pessoas negras. E a Baixada Fluminense tem um papel essencial para a economia da região: cerca de 70% dos alimentos consumidos na capital vêm dali. Se esses territórios não estiverem protegidos e estruturados, isso impacta diretamente toda a dinâmica da cidade”, completou Luize Sampaio.
Durante a conversa, os especialistas também citaram experiências de recuperação ambiental na Baía de Guanabara. A melhora recente da qualidade da água em praias da capital foi apontada como um exemplo que pode inspirar ações em municípios do entorno, como Magé e São Gonçalo, com possíveis ganhos ambientais e sociais para áreas mais vulneráveis.
A COP30 também entrou na discussão. Para Studart, a conferência ajuda a expor o tamanho do atraso das cidades, sobretudo as mais pobres, na preparação para eventos extremos. “Um ponto positivo da COP foi mostrar o quanto as cidades, especialmente as mais pobres, estão absolutamente despreparadas para enfrentar os eventos climáticos que já estamos vivendo. O problema climático está chegando à porta de casa, e isso tende a aumentar a pressão social por respostas mais efetivas”, concluiu Rogério Studart.
Além do debate, o evento também serviu para divulgar o edital “Clima na Economia: integrando a questão climática à agenda econômica”, lançado pelo Instituto Clima e Sociedade por meio do HUB de Economia e Clima. A chamada vai destinar R$ 2,5 milhões a pesquisas aplicadas, com até R$ 500 mil por projeto.
As propostas poderão ser inscritas em quatro eixos: adaptação às mudanças climáticas, macroeconomia e meio ambiente, microeconomia e clima, e finanças públicas e mudanças climáticas. A ideia é apoiar estudos com aplicação prática em políticas públicas, investimentos e estratégias de desenvolvimento.