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Os riscos da “droga zumbi”, opioide sintético apreendida na Lapa que causa crise sanitária nos EUA

Usuário com fentanil em Baja Califórnia, na fronteira do México com os EUA, onde o consumo disparou — Foto: VALENTE ROSAS/El Universal/GDA

Agentes da Polinter, da Polícia Civil, apreenderam fentanil e outras drogas durante uma ação na Travessa do Mosqueira, na Lapa, na última quinta-feira (07). Três suspeitos de integrarem o tráfico da região foram presos em flagrante enquanto fugiam de telhados de casarões abandonados que funcionam como boca de fumo. Extremamente potente, o fentanil é cerca de cem vezes mais forte que a morfina, sendo utilizado em hospitais como analgésico para dores severas. Nos Estados Unidos, essa droga é responsável por uma epidemia de mortes por overdose.

Segundo a polícia, a “droga zumbi” (fentanil) estava fracionado em cinco tubos, com 1g da droga no total, e embalado como MDMA, outra droga sintética que já era vendida por traficantes no Rio. Apesar de a quantidade parecer pequena, a dose letal estimada de fentanil em humanos, segundo publicação da European Union Drugs Agency (Euda), é estimada em apenas 2 miligramas, 500 vezes menos do que foi apreendido na Lapa.

Desenvolvido pela primeira vez em 1959 e introduzido na década de 1960 como analgésico intravenoso, a “droga zumbi”, em suas diversas formas (comprimidos, adesivos, injeções etc.) é usado como anestésico e para aliviar as dores agudas de uma cirurgia ou um problema de saúde com dores crônicas. Como outros opioides, caso da heroína ou morfina, a “droga zumbi” interage com os receptores opioides encontrados em áreas do cérebro que controlam a dor e as emoções.

Esses receptores normalmente respondem a substâncias químicas liberadas pelo nosso próprio corpo para nos fazer sentir bem, uma espécie de recompensa por atividades que contribuem para nossa sobrevivência (comer, beber, fazer sexo etc). O efeito dos opioides depende da quantidade da substância e com que rapidez ela entra no cérebro, e a “droga zumbi” é uma droga extremamente poderosa mesmo em pequenas doses.

Uma vez que a “droga zumbi” entra no cérebro, ele interage com os receptores opioides, facilitando a liberação de dopamina, anulando a dor, dando ao usuário um disparo da sensação de prazer, de calma e a redução da ansiedade. “É um pouco como a cocaína, no sentido de que na primeira vez que as pessoas usam, há um efeito poderoso e logo se busca a repetição desse efeito”, explica Daniel Sitar, professor emérito da Faculdade de Ciências da Saúde da Universidade de Manitoba, no Canadá, à BBC News Mundo.

Essa sensação é o que torna a “droga zumbi” tão viciante. No entanto, outro de seus efeitos no cérebro, e é isso que o torna letal, é que ele faz com que a pessoa pare de respirar e morra de hipóxia (quando a oxigenação se reduz perigosamente no corpo).

A respiração se interrompe

O tronco cerebral, que controla a função respiratória, também possui receptores opioides. E quando eles são inundados com fentanil, “você pode parar de respirar, mesmo se estiver consciente”, explica Sitar.

Um estudo recente conduzido por pesquisadores do Hospital Geral de Massachusetts, ligado à Universidade Harvard, revelou que a droga interrompe a respiração antes que se notem outras mudanças e ocorra a perda de consciência. A pesquisa também revelou que o fentanil começa comprometer a respiração cerca de quatro minutos antes da ativação do estado de alerta e em uma concentração 1.700 vezes menor do que outras drogas que causam sedação. “Isso explica por que o fentanil é tão mortal: faz com que as pessoas parem de respirar antes mesmo que se deem conta de alguma alteração”, disse o pesquisador Patrick L. Purdon, principal autor do artigo.

Em um contexto médico, quando altas doses da substância são usadas como anestésico durante uma operação, a supressão da respiração “não é realmente um problema, porque a pessoa é entubada e os pulmões são inflados mecanicamente para simular a respiração”, diz Sitar.

Os resultados do estudo de Harvard deixam claro que nenhuma quantidade de “droga zumbi” é segura fora de um ambiente médico controlado por especialistas. Sitar também acrescenta que quando a “droga zumbi” é usado de forma recreativa, as pessoas não têm controle sobre doses e quantidades. Além disso, ele esclarece, a droga costuma ser adulterada com outras substâncias químicas, o que “torna seus efeitos imprevisíveis, pois variam conforme a mistura”.

Investigações pelo Brasil

Investigações conduzidas em estados como São Paulo e Espírito Santo apontam que traficantes vêm utilizando opioides para potencializar os efeitos de drogas já consolidadas no mercado, como a cocaína. O objetivo seria aumentar o potencial de dependência química e reduzir custos, usando menor quantidade da droga original.

Segundo o delegado Tarcísio Otoni, do Departamento de Narcóticos da Polícia Civil do Espírito Santo, todas as apreensões realizadas até agora no estado indicam que a “droga zumbi” chega ao mercado clandestino brasileiro principalmente por meio do desvio de ampolas hospitalares. “Nossas operações têm indicado que o fentanil tem sido utilizado de duas formas pelo crime organizado: seja misturando a outras drogas para potencializar os efeitos, e também na sua forma pura“, afirmou o delegado.

Especialistas da área da saúde alertam que o principal risco é justamente o consumo involuntário do opioide em drogas adulteradas. O pesquisador Francisco Bastos, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), afirma que o tráfico costuma testar novos produtos conforme avalia a resposta do mercado e da repressão policial. “É difícil para a gente que é da área da saúde compreender a lógica do mercado ilegal, porque é como se um cortasse o efeito do outro. Os opioides cortam aquele pico que a cocaína dá, e por outro lado, a cocaína corta a possível baixa que você tem quando usa opioide”, explicou ao Globo. “De uma forma geral, o tráfico sempre faz teste de mercado e também da repressão. O crack, por exemplo, surgiu assim. Se a repressão estiver frouxa e o mercado for promissor, o traficante vai para lá.”, concluiu.

Nos Estados Unidos, a “droga zumbi” é o principal motor da chamada epidemia dos opioides, responsável por dezenas de milhares de mortes anuais por overdose. Dados do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) apontam que cerca de 71 mil americanos morreram em 2021 em overdoses relacionadas a opioide sintético.

Fentanil avança na América Latina

O avanço da “droga zumbi” ilegal na América Latina desencadeou uma reforma nas estratégias de segurança do continente. Nos últimos anos, governos intensificaram o endurecimento de penas e a atualização legislativa para monitorar não apenas o opioide, mas também novas ameaças sintéticas como nitazenos e xilazina. O maior temor de especialistas reside na ‘estratégia de potencialização’ do crime organizado: a mistura do fentanil a entorpecentes tradicionais, como cocaína e LSD, para elevar o poder viciante. Enquanto no México o consumo avança na fronteira com os EUA, em países como Brasil, Chile e Argentina, o fluxo da droga ocorre majoritariamente pelo desvio de ampolas de uso hospitalar.

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