domingo, 17 de maio de 2026 - 8:55

  • Home
  • Rio de Janeiro
  • Como uma pequena igreja do Centro do Rio virou referência nacional na recuperação de arte sacra

Como uma pequena igreja do Centro do Rio virou referência nacional na recuperação de arte sacra

A recente restituição de novas peças sacras à Igreja de Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores consolidou algo que já vinha se desenhando há alguns anos: a pequena igreja de irmandade localizada no coração do Centro do Rio transformou-se, no período, no principal case brasileiro de recuperação de bens culturais procurados. O episódio, que envolveu a atuação da Polícia Federal, do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional e da própria irmandade, não é fruto do acaso, nem de uma descoberta fortuita. É resultado direto de um ecossistema de preservação que combina inventário, documentação histórica, pesquisa continuada, diálogo institucional e vigilância cotidiana.

O primeiro elemento dessa engrenagem é a informação. Poucos acervos religiosos brasileiros possuem um histórico documental tão consistente quanto o da Lapa dos Mercadores. A irmandade mantém inventários e registros sistemáticos há décadas, incluindo um importante livro de registro elaborado em 1947. Paralelamente, o IPHAN fotografou profusamente o monumento desde meados do século XX, produzindo uma documentação visual que hoje se revela decisiva na identificação de peças desaparecidas. Mais tarde, já nos anos 2000, o conjunto foi objeto de inventário no âmbito do Inventário Nacional de Bens Móveis e Integrados. Ainda assim, é importante reconhecer: nenhuma dessas ações, isoladamente, seria suficiente para resolver a maior parte dos casos, sobretudo porque o templo sofreu graves perdas e dispersões ao longo de intervenções ocorridas durante o século XX. O que faz diferença é justamente a sobreposição de camadas documentais ao longo do tempo.

Há também um componente humano decisivo nessa história. O provedor da irmandade, Claudio André de Castro, tornou-se um pesquisador obstinado da trajetória do próprio acervo e acompanha, praticamente todas as madrugadas, leilões e certames virtuais em busca de peças suspeitas. Esse monitoramento contínuo — que exige conhecimento iconográfico, familiaridade com o mercado e domínio da documentação histórica — ajuda a explicar por que tantos objetos vinculados à igreja foram localizados nos últimos anos. Não se trata apenas de reconhecer uma peça “parecida”, mas de cruzar informações, identificar marcas de procedência e estabelecer vínculos materiais e documentais sólidos.

O terceiro ponto talvez seja um dos mais relevantes — e também um dos mais mal compreendidos pelo senso comum. O mercado de arte e antiguidades mudou muito nos últimos anos. Se houve um tempo em que predominavam relações mais opacas e uma certa tibieza institucional, hoje a tendência é de crescente profissionalização e transparência. Comerciantes sérios não desejam negociar peças roubadas, furtadas ou de procedência duvidosa. Ao contrário: ética, rastreabilidade e segurança jurídica tornaram-se elementos fundamentais do próprio funcionamento do mercado. Isso permitiu a construção de pontes duradouras entre negociantes, colecionadores, órgãos de proteção e instituições religiosas. Os bons comerciantes compreenderam que patrimônio ilícito compromete não apenas reputações individuais, mas a credibilidade de todo o setor.

Nesse cenário, plataformas digitais de controle e inventário passaram a desempenhar papel estratégico. O Banco de Bens Culturais Procurados (BCP) do IPHAN consolidou-se como verdadeira ferramenta de consulta pública e investigação, permitindo verificar rapidamente a situação de peças desaparecidas. Ao lado dele, iniciativas como o inventário desenvolvido pela Arquidiocese do Rio de Janeiro e a futura disponibilização pública da base do Inventário Nacional de Bens Móveis e Integrados do IPHAN tendem a aprofundar ainda mais esse processo. Esses sistemas funcionam, na prática, como marcos de procedência, ajudando a estabelecer vínculos históricos e documentais entre objetos e seus locais de origem.

Mas talvez o dado mais promissor dessa história seja outro: a Igreja Católica decidiu entrar efetivamente em campo na pauta da preservação. A percepção de que inventariar, identificar e difundir o patrimônio não é luxo acadêmico, mas estratégia concreta de salvaguarda, começa a ganhar capilaridade entre dioceses, irmandades e comunidades.

Ontem mesmo participei da capacitação “Inventário e Preservação do Patrimônio Cultural — Teoria e Prática”, promovida pela Diocese de Barra do Piraí/Volta Redonda, realizada em Barra Mansa. O Centro Diocesano de Formação Cristã ficou lotado. E isso, por si só, já diz muito. A Diocese, que abrange boa parte do Sul Fluminense e reúne dezenas de templos tombados ou de interesse cultural, compreendeu algo fundamental: preservação só se sustenta quando o léxico da identificação, da documentação e da salvaguarda passa a integrar o cotidiano das comunidades.

É justamente aí que reside a grande lição da Lapa dos Mercadores. O patrimônio não se protege sozinho. Nenhum órgão de fiscalização, nenhuma plataforma digital e nenhum inventário, por mais sofisticados que sejam, substituirão o envolvimento cotidiano dos detentores, pesquisadores, comerciantes éticos e comunidades.

O maior case brasileiro de recuperação de bens culturais procurados nasceu, no fundo, da combinação entre memória acumulada e vigilância compartilhada.

E talvez seja exatamente este o caminho para o futuro da preservação.

Nota do EDITOR: A cerimônia de retorno das peças ao altar da Igreja dos Mercadores ocorrerá no sábado, dia 23/5, às 12h15, e contará com Grande Coral e Orquestra Completa, além da presença de autoridades do Iphan e da Cultura.

Receba notícias no WhatsApp e e-mail

Clique aqui para acessar a Fonte da Notícia

VEJA MAIS

Desafio dos bancos de leite é conscientizar lactantes a doar excedente

A Rede Brasileira de Bancos de Leite Humano da Fundação Oswaldo Cruz (rBLH-BR/Fiocruz) promove de…

Prefeito Visita Início das Operações da Mobi-Rio na Ilha do Governador

A linha 634, que conecta Bananal a Saens Peña, na Ilha do Governador, passou a…

Eduardo Paes vai a Arraial do Cabo e reforça articulações para 2026

Eduardo Paes (PSD), Marcelo Magno (PL), Thiago Fantinha e Vantoil Martins (PSB). Reprodução/ Renata Cristiane…

Ir para o conteúdo