quarta-feira, 7 de outubro de 2026 - 11:43

  • Home
  • Alerj
  • Conta de água em condomínios vira nova guerra no Congresso e pode mexer no bolso de milhões de moradores do Rio

Conta de água em condomínios vira nova guerra no Congresso e pode mexer no bolso de milhões de moradores do Rio

Imagem meramente ilustrativa

Uma nova disputa envolvendo o saneamento básico começou a ganhar força em Brasília — e ela pode afetar diretamente a vida de milhares de moradores e usuários de condomínios no Rio de Janeiro. Em meio ao delicado equilíbrio econômico das concessões privadas de água e esgoto, deputados federais querem mudar a forma como as empresas cobram a chamada “tarifa mínima” em prédios que possuem apenas um hidrômetro coletivo.  

O tema, aparentemente técnico, mexe com um dos maiores gastos fixos dos condomínios cariocas. Em muitos edifícios sem medição individualizada, a concessionária calcula uma tarifa mínima para cada apartamento ou sala comercial, mesmo quando o consumo total do prédio é inferior à soma dessas franquias mínimas. Na prática, um condomínio com 100 apartamentos pode acabar pagando como se todos consumissem individualmente o mínimo previsto em contrato: todos pagam por uma franquia que às vezes não é utilizada, inclusive unidades vazias.

A controvérsia ganhou força após uma mudança de entendimento do Superior Tribunal de Justiça em 2024. O tribunal passou a considerar legítima a cobrança da tarifa mínima multiplicada pelo número de economias — termo técnico usado para definir cada unidade residencial ou comercial — quando o prédio possui apenas um hidrômetro geral.   Isso foi uma mudança de entendimento; a CEDAE – antecessora das atuais distribuidoras de água – havia antes perdido várias ações neste sentido.

A decisão abriu caminho para reajustes expressivos em contas de água de condomínios em diversas cidades, especialmente em regiões atendidas por concessionárias privadas após os leilões da antiga CEDAE. Em Niterói e São Gonçalo, por exemplo, administradoras passaram a relatar aumentos relevantes nas despesas condominiais.  No Rio, ficou famoso um caso de um condomínio comercial na rua Dom Gerardo cuja conta subiu de 10 mil para 130 mil reais: e ele sequer está totalmente ocupado.

Carlos Jordy atuando na Câmara dos Deputados, em Brasília – Foto: Divulgação

Foi nesse cenário que surgiu o Projeto de Lei 1845/25, de autoria do deputado federal Carlos Jordy, do PL. A proposta pretende alterar a Lei Nacional de Saneamento Básico para proibir que concessionárias multipliquem a tarifa mínima pelo número de apartamentos em condomínios sem hidrômetros individuais.  

O texto propõe uma lógica diferente: em vez de multiplicar a tarifa mínima por unidade, o consumo total registrado no hidrômetro coletivo seria dividido pelo número de apartamentos, aplicando-se então a tarifa correspondente à média efetivamente consumida. Segundo Jordy, o modelo atual imporia um “ônus desproporcional” às famílias.  

O debate, porém, está longe de ser consensual. Empresas do setor e especialistas em infraestrutura começaram a reagir duramente contra a possibilidade de mudanças legislativas após contratos já assinados. Reportagem recente do  NeoFeed classificou o cenário como um “cabo de guerra” capaz de ameaçar a segurança jurídica do saneamento brasileiro.  

O temor das concessionárias é simples: os contratos assinados após o Marco Legal do Saneamento foram estruturados com determinadas previsões de receita. Alterar as regras no meio do caminho poderia gerar pedidos bilionários de reequilíbrio econômico-financeiro — conta que, no fim, acabaria repassada ao próprio consumidor.  

No Rio de Janeiro, onde a privatização dos serviços da antiga Cedae movimentou dezenas de bilhões de reais e se tornou um dos maiores projetos de infraestrutura urbana da história recente do estado, o tema ganha contornos ainda mais delicados. O setor de saneamento já enfrenta disputas sobre cobertura real de esgoto, metas de universalização e impactos da futura reforma tributária.   Além disso, é este modelo que está finalmente realizando o sonho fluminense de limpar e despoluir a Baía da Guanabara, que voltou a florescer nos últimos anos – praias antes imundas agora se tornam cristalinas como resultado do trabalho das novas concessionárias.

Enquanto isso, síndicos e administradoras afirmam categoricamente que a cobrança atual se tornou uma das maiores pressões sobre as contas condominiais. Segundo entidades do setor, em alguns edifícios a despesa com água já representa até 45% do orçamento mensal.   Em imóveis comerciais ou de escritórios, fala-se em mais, e na região do Centro do Rio de Janeiro, onde a vacância média de escritórios em prédios mais antigos beira os 60%, pagar por unidade quando há tantas salas vazias preocupa a quem tem que cumprir orçamentos e pagar contas em dia.

O projeto ainda tramita na Câmara dos Deputados e deve passar por comissões antes de eventual votação em plenário. Muita água ainda vai passar neste moinho. Mas a simples abertura dessa discussão já foi suficiente para reacender um debate que mistura direito do consumidor, contratos de concessão, investimentos bilionários e o futuro do saneamento no estado do Rio.

Receba notícias no WhatsApp e e-mail

Clique aqui para acessar a Fonte da Notícia

VEJA MAIS

Lula cobra Flávio Bolsonaro sobre apoio ao fim da escala 6×1

O candidato à reeleição nas eleições 2026, Luiz Inácio Lula da Silva, desafiou nesta quarta-feira…

Melhor investimento em saúde pode evitar 739 mil mortes no Brasil

Aumentar os investimentos em saúde de forma direcionada pode prevenir 739 mil mortes prematuras no…

Mendonça multa Flávio por impulsionar post negativo contra Lula

O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), decidiu nesta segunda-feira (5) multar o…

Ir para o conteúdo