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Quando Pentecostes fazia o Rio parar: a festa do Divino que tomava o Campo de Santana

Hoje, para muitos cariocas, Pentecostes passa quase em silêncio, celebrado dentro das igrejas, entre leituras, cânticos e paramentos vermelhos. Mas houve um tempo em que a festa do Espírito Santo transbordava dos altares para as ruas do Rio de Janeiro. No século XIX, a cidade conheceu uma das mais fortes manifestações populares e religiosas de sua história: a Festa do Divino Espírito Santo no Campo de Santana, organizada em torno da antiga Irmandade de Santana, com folias, barracas, música, bandeiras, coroações simbólicas e uma multidão que fazia daquela área, hoje atravessada pela pressa da Central do Brasil, um dos grandes palcos da vida carioca.

O Campo de Santana, antes de ser Praça da República, antes de ver a Proclamação de 1889, antes de se transformar em cenário político e militar do Império, nasceu marcado pelo sagrado. A capela dedicada a Sant’Ana foi erguida em 1735, num espaço ainda periférico, arenoso, alagadiço e mal incorporado à cidade. Ali atuavam irmandades como a de São Domingos e a de Santana, num Rio em que as confrarias religiosas não eram apenas associações devocionais, mas verdadeiras estruturas de sociabilidade, assistência, identidade e presença pública.  

Foi nesse espaço que floresceu o chamado Império do Divino Espírito Santo. Segundo estudo de Ivo Venerotti Guimarães, publicado pela Revista do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro, havia junto à igreja um “império”, isto é, um pavilhão de pedra e cal, com capelinha ao fundo e uma plataforma onde o Imperador do Divino recebia homenagens durante as festas. A celebração, promovida pela Irmandade de Santana, chegou a ser considerada a festa religiosa mais importante da época, podendo se estender, em algumas ocasiões, de maio a julho.  

A festa tinha como centro litúrgico Pentecostes, cinquenta dias depois da Páscoa, mas sua preparação começava antes. A tradição do Divino, trazida do mundo português para o Brasil, envolvia o levantamento de um mastro com a pomba do Espírito Santo, a escolha ou coroação de um “imperador”, quase sempre uma criança, e as chamadas folias, grupos que percorriam a cidade recolhendo doações. A Brasiliana Iconográfica registra que, na primeira metade do século XIX, a Festa do Divino era uma das mais importantes do Rio de Janeiro e que seus ritos chamaram a atenção de artistas estrangeiros, entre eles Jean-Baptiste Debret.  

Debret deixou uma imagem preciosa desse universo: “Coleta de óbulos para a festa do Divino Espírito Santo”, aquarela de 1826, localizada no Rio de Janeiro e hoje associada aos Museus Castro Maya. A cena mostra justamente a cidade percorrida pela devoção popular, com músicos, esmolas, crianças, símbolos religiosos e teatralidade pública. Não era um Pentecostes abstrato, reservado apenas ao sermão; era uma festa visível, sonora, urbana.  

No Campo de Santana, essa devoção se misturava à própria vida da Corte. O ato de coroação do Imperador do Divino contava, não raramente, com a presença dos vice-reis. Havia vestimentas requintadas, música, bandeiras e uma dimensão quase monárquica, mas popular, da celebração. Era como se o Rio criasse, por alguns dias, um pequeno reino simbólico do Espírito Santo, no qual a cidade se reconhecia ao mesmo tempo católica, portuguesa, tropical e festiva.  

A chegada da Corte portuguesa em 1808 alterou o destino do Campo. Parte da área foi apropriada para usos militares e administrativos. O antigo Império da Irmandade de Santana, construído em pedra e cal, acabou demolido em 1811 para dar lugar a instalações ligadas ao Regimento da Tropa. A Irmandade resistiu, mas, a partir daí, passou a erguer um Império provisório sempre que chegava a festa do Divino. A devoção sobreviveu, mas já sob pressão da cidade oficial que avançava sobre a cidade popular.  

Nos anos de 1830, o poder público passou a olhar com desconfiança para grandes ajuntamentos urbanos. O Arquivo Nacional registra que, a partir de 1837, durante os três dias da tradicional festa religiosa do Divino, o funcionamento de barracas no Campo de Santana passou a depender de licença da Câmara Municipal e de termos de compromisso, responsabilizando comerciantes por desordens e tumultos. Era o Rio tentando disciplinar aquilo que durante décadas havia sido espontâneo: a rua, a fé, a música, o comércio miúdo e a multidão.  

Aos poucos, o Campo de Santana mudou de alma. Vieram o quartel, o chafariz, o Senado, a Casa da Moeda, a estação ferroviária, os edifícios do poder, o paisagismo de Glaziou e, por fim, a República. A igreja de Santana foi demolida em 1855 por causa da expansão ferroviária e transferida para a Rua de Santana. O espaço que um dia acolhera o Império do Divino tornou-se cada vez menos religioso e cada vez mais administrativo, militar, ferroviário e político.  

Por isso, Pentecostes no Rio não é apenas uma data do calendário católico. É também uma chave para entender uma cidade às vezes esquecida: o Rio das irmandades católicas, das procissões, das folias, das barracas, dos mastros, das pombas do Divino, dos sinos e das multidões que rezavam e festejavam no mesmo movimento. Uma cidade em que o sagrado não estava escondido, mas ocupava largos, campos e ruas. Algo parecido com o encontro do sagrado e do profano que ocorre quando as procissões saem e entram da Igrejinha dos Mercadores, em meio ao samba da rua do Ouvidor, e que costuma parar a rua.

Hoje, ao ouvir falar de Pentecostes, talvez o carioca pense apenas na Missa dominical e na descida do Espírito Santo sobre os Apóstolos. Mas no Rio antigo, Pentecostes também fazia nascer um império efêmero no Campo de Santana. Um império sem exército, mas com música; sem palácio duradouro, mas com barracas e bandeiras; sem coroa verdadeira, mas com uma criança simbolicamente coroada diante do povo. Era o Império do Divino, uma das grandes festas esquecidas da cidade.

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