Aldo Gonçalves é presidente do Sindicato dos Lojistas do Comércio do Município do Rio de Janeiro (SindilojasRio) e do Clube de Diretores Lojistas do Rio de Janeiro (CDLRio).
O fim da escala 6×1 ganhou força no Congresso, mais sensível a pautas de apelo social, com a proximidade das eleições. No entanto, ao se analisar o tema com base em dados e evidências, o que emerge é um cenário que exige cautela, especialmente para um país que ainda convive com baixa produtividade e profundas desigualdades estruturais.
O Brasil registra um crescimento médio de produtividade inferior a 0,5% ao ano na última década, bem abaixo do observado em economias desenvolvidas, segundo o FGV-IBRE e outras instituições. Esse dado é central para a análise. Reduzir a jornada mantendo os mesmos salários implica aumento do custo por hora trabalhada. Se não houver ganhos equivalentes de eficiência, a conta não fechará. Como resume o economista José Pastore, “ganhos de produtividade não ocorrem de forma imediata” e dependem de fatores como qualificação, tecnologia e gestão, não de imposições legais.
A experiência internacional reforça esse ponto. Segundo Pastore, a redução de jornadas, quando ocorre, é fruto de negociação coletiva e adaptação setorial, não de mudanças uniformes na Constituição. Ignorar essas diferenças pode gerar distorções graves, sobretudo em setores intensivos em mão de obra.
Estimativas apontam que a diminuição da jornada poderá elevar custos operacionais em até 20% para as empresas, pressionando preços e reduzindo a competitividade. Outros estudos indicam possíveis efeitos negativos sobre o PIB e o emprego, caso não haja contrapartida em produtividade. Em um país que ainda busca consolidar sua recuperação econômica, esse risco não pode ser negligenciado.
Quando se traz essa discussão para o comércio, especialmente o varejo, os desafios se tornam ainda mais evidentes. Trata-se de um setor que opera com margens estreitas, alta rotatividade e forte dependência de mão de obra presencial. No caso do Rio de Janeiro, o cenário é ainda mais delicado. O comércio local segue impactado pelas sucessivas crises políticas e financeiras do estado, pela retração econômica e pelos efeitos profundos da pandemia, dos quais não se recuperou plenamente.
Para as micro e pequenas empresas, que representam a maioria do varejo fluminense, uma mudança abrupta na jornada pode significar aumento de custos sem capacidade de repasse ao consumidor, este também pressionado pelo alto custo de vida. Na prática, isso pode levar à redução de quadros, à informalidade ou até ao fechamento de negócios.
É indubitável a legitimidade do debate sobre qualidade de vida e condições de trabalho. Mas soluções sustentáveis exigem diagnóstico correto. O verdadeiro nó da economia brasileira não está na quantidade de horas trabalhadas, mas na baixa produtividade. Sem enfrentá-lo, qualquer tentativa de redução generalizada da jornada corre o risco de produzir efeitos contrários aos desejados.
O caminho mais responsável deve passar pela valorização da negociação entre empregadores e trabalhadores, respeitando as especificidades de cada setor. E deve passar, também, pelo estímulo à qualificação profissional e à modernização das empresas, que certamente se refletirá em maior produtividade. Fora disso, há mais incertezas do que soluções.
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