quinta-feira, 4 de junho de 2026 - 8:48

Como será envelhecer em um planeta em crise?

Foto de Felix Mittermeier no Pexels

Para o Dia Mundial do Meio Ambiente, trago uma reflexão sobre a conexão entre emergência climática, cidades mais inclusivas e a longevidade da população.

A pergunta do título talvez seja uma das mais importantes e menos debatidas do nosso tempo.

Vivemos mais do que qualquer geração anterior. No Brasil, a população acima dos 60 anos cresce em ritmo acelerado, enquanto as cidades ainda parecem funcionar como se todos fossem jovens, produtivos e resistentes ao calor extremo, às enchentes, à poluição e à precariedade urbana.

Neste 5 de junho, Dia Mundial do Meio Ambiente, o tema de 2026 coloca a emergência climática no centro do debate, chamando atenção para os sinais urgentes que a Terra vem enviando e para as respostas que escolhemos dar. É uma convocação para repensarmos a forma como vivemos, produzimos, consumimos e planejamos o futuro.

E esse futuro possui uma característica inegável: será cada vez mais longevo.

A crise ambiental também é uma crise sobre o tempo. Vivemos na lógica do imediato: consumo rápido, descarte rápido, respostas rápidas, recompensas rápidas. Mas a sociedade que vive mais precisa aprender a desacelerar para se sustentar no longo prazo. Envelhecer exige tempo, planejamento, vínculos e permanência. Sustentabilidade também.

As duas maiores transformações deste século, o envelhecimento da população e a emergência climática, estão profundamente conectadas. E, por incrível que pareça, os maduros seguem frequentemente excluídos desses debates.

Acredito que uma das razões seja a crença equivocada de que pessoas acima de 60 anos não acompanham as transformações digitais e tecnológicas. Outra razão é a ideia de que inovação pertence aos mais jovens e os mais velhos permanecem presos ao passado. Mas talvez estejamos ignorando, justamente, uma das maiores potências da sociedade contemporânea: a inteligência intergeracional.

A sustentabilidade costuma ser discutida com base em três pilares: ambiental, social e econômico. Abordagens mais amplas incluem também os pilares cultural, ético, político e estético. Mas existe uma dimensão que é transversal a todos esses pilares: a intergeracionalidade. Nenhuma estratégia de desenvolvimento será verdadeiramente sustentável se não considerar que diferentes gerações convivem no mesmo planeta, compartilham os mesmos desafios e dividem responsabilidades pela construção do futuro.

Já parou para pensar que gerações mais vividas carregam repertório, experiência e memória coletiva? Que sabem, muitas vezes, o que é viver com menos desperdício, reutilizar, consertar, preservar e criar vínculos mais fortes? Que muitos ainda nasceram antes da proliferação do descartável?

Por outro lado, as gerações mais jovens trazem novas tecnologias, linguagens atuais e formas de mobilização. Quando estas experiências se encontram e pensam juntas, ampliamos nossa capacidade de inovação e aumentamos as chances de surgirem soluções mais criativas, humanas, inclusivas e duradouras para problemas complexos.

A diversidade etária, portanto, deve ser vista como uma aliada da sustentabilidade.

Precisamos de cidades mais verdes, arborizadas, caminháveis e acessíveis. Precisamos de cidades capazes de proteger seus moradores dos eventos climáticos extremos. Precisamos promover a autonomia, convivência e qualidade de vida ao longo de todo o processo de envelhecimento da população. Precisamos incluir pessoas 60+ nas decisões sobre o futuro climático, porque serão elas uma das mais afetadas pelos impactos ambientais das próximas décadas. Precisamos refletir sobre como diferentes gerações participam das decisões, compartilham conhecimento e constroem soluções em conjunto.

E há outro ponto fundamental: precisamos fomentar a inclusão digital. Em um mundo cada vez mais mediado pela tecnologia, garantir acesso e alfabetização digital para as pessoas 60+ é uma estratégia de sustentabilidade. Esta ação representa a reconstrução da cidadania, o combate ao idadismo e o fortalecimento da participação social dos longevos.

Se vamos viver mais, precisamos viver esse “mais” com maior qualidade de vida possível. Longevidade não é apenas conquistar mais anos de vida. É adicionar mais vida aos anos. E isso depende do ambiente em geral que estamos construindo hoje.

Reconectar gerações, cidades e natureza é uma das tarefas mais urgentes deste século. Afinal, cuidar do planeta também significa cuidar das pessoas que viverão nele.

O futuro sustentável será construído com tecnologia, energia limpa e redução das emissões, mas também dependerá da nossa capacidade de unir gerações em torno de um projeto comum.

Porque um planeta preparado para populações longevas é um planeta preparado para um futuro sustentável.

O que está em curso não é apenas uma mudança demográfica, mas uma reorganização progressiva da forma como a sociedade se estrutura.


As opiniões expressas neste artigo são de exclusiva responsabilidade do autor e não refletem, necessariamente, a posição do jornal.

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