Pedro Henrique Miranda Fonseca
Nomeado Ministro Plenipotenciário e enviado especial ao Brasil para tratar da questão dos limites, partiu de Buenos Aires em 24 de fevereiro de 1883 e chegou ao Rio de Janeiro em 3 de março, retornando em 1889.
Devido à epidemia de febre amarela que grassava na cidade, dirigiu-se para Petrópolis, onde foi apresentado ao Imperador Dom Pedro II. Achou-o do tipo alemão, alto, algo corpulento, de barba branca comprida, de andar lento, aspecto simpático, sem parecer pretensioso, se bem que, no fundo do seu caráter, era autoritário e zeloso de que se guardassem os foros que a etiqueta impunha. Disse-lhe o Imperador que já o conhecia por seus livros e mostrou saber muitas coisas sobre o Rio da Prata e os seus homens públicos. Usava frequentemente um fraque negro — um vitoriano nos trópicos — com um cordão de ouro na botoeira. Quanto à Imperatriz, achou-a baixa, coxa, friamente amável, sem nada de formosura, porém com ar que transmitia a sua estirpe real. Em relação ao casal d’Eu, achou a Princesa Isabel de trato simples, amável, comunicativa e com uma bondade que seduzia e atraía, e o marido muito afável, lhano, sem altivez e um pouco surdo, o que impedia uma conversa mais animada. A vida simples da família imperial deixava de lado toda a ostentação da Monarquia. Era como qualquer família burguesa.
Como outros visitantes, encantou-se com a magnífica beleza da baía de Guanabara e com a formosa praia de Botafogo. Achou o Catete esplêndido. Para a Tijuca, com sua exuberante floresta tropical, não tinha palavras exatas que pudessem exprimir a sua admiração. Ficou deslumbrado com a vegetação luxuriante, com um ar sempre perfumado e com uma variedade de borboletas de várias cores que bordejavam pelas inúmeras flores.
Estabeleceu-se na rua das Laranjeiras, com vista para o Corcovado. Nunca se cansou de admirar a natureza deslumbrante, que lhe causou inesquecível impressão. Inebriou-se também com a vista do Corcovado, a ponto de não se recordar de nada mais encantador que as paisagens que se descortinam daquela altura.
Foi recebido oficialmente pelo Imperador no dia 17 de março de 1883, sábado, às 7h30, no Palácio de São Cristóvão, que achou de proporções monumentais, rodeado por um parque esplêndido, com cascatas pitorescas, ruas arborizadas, bosques e lagos. Nada revelava ser ali residência de um monarca.

O seu cargo franqueou-lhe o acesso à alta sociedade. Frequentou o Paço Isabel e a residência do casal Haritoff — Maurice Haritoff e Ana Clara Breves de Morais Costa Haritoff —, ambos em Laranjeiras. O primeiro, segundo ele, era de arquitetura simples, rodeado de jardins e de frondoso arboreto. Recebia uma vez por semana, à noite, quando se reunia a sociedade mais requintada e brilhante do Rio de Janeiro, com concertos interessantes, nos quais a Princesa tocava piano e várias damas cantavam, havendo também danças das quais os donos da casa participavam. O segundo era “um verdadeiro palácio”, ao qual não poupou elogios: grandioso, belo, rico, artístico, extraordinário, com um jardim exuberante que lembrava um bosque, salões grandes, ricamente decorados com objetos de arte de bom gosto, pinturas, porcelanas, tudo muito refinado. Entre as pinturas, destacava-se uma tela retratando madame Haritoff, executada em 1879 pelo pintor alemão Gustav Carl Ludwig Richter (1823–1884). As recepções contavam com um delicioso buffet capitaneado por um funcionário caracterizado à russa e com música executada brilhantemente por uma numerosa orquestra. Destacou também os bailes do Cassino Fluminense, que aconteciam quatro vezes por ano e eram muito concorridos. Outras residências que se sobressaíam por sua imponência eram: o Palacete de Nova Friburgo — atual Museu da República —, no Catete; o Palácio São Cornélio, na Glória; e o Palácio do Barão de São Clemente, no Flamengo.
A rua do Ouvidor lhe lembrou a rua de las Sierpes, de Sevilha, sendo a do Ouvidor, segundo ele, mais concorrida. Era um centro de comércio e lojas de luxo, destino de cavalheiros e damas, onde circulavam as notícias políticas e crônicas sociais; seus abundantes e bons cafés serviam de tertúlias para os desocupados. Tinha também ótimos restaurantes. Um verdadeiro clube ao ar livre, ali se reuniam velhos e moços antes de irem para os seus empregos; outros, procurando emprego ou um padrinho para obterem alguma sinecura. Era animadíssima nas primeiras horas da manhã e da noite, quando nela transitavam as damas que queriam se exibir; os políticos em busca de novidades; e os flâneurs para passar o tempo. Os bondes conduziam gente de todas as nações. Rua concorridíssima e, com certeza, nela se encontrava a pessoa que se buscava, se tivesse alguma posição social ou política. Era uma verdadeira síntese do Rio de Janeiro.
O único registro que fez sobre a escravidão foi a presença de negras vendedoras de frutas e guloseimas e o fato de andarem sempre descalças.
Os teatros eram muito concorridos no verão, principalmente o Politeama Fluminense, o Santana e o Pedro II.
Para o argentino, os lugares dignos de serem visitados eram: o Jardim Botânico; o Morro da Glória, com a sua famosa igreja; o Morro de Santa Teresa, que achou luminoso e muito bonito; o Passeio Público, então à beira-mar, com o seu precioso jardim e o seu incomparável terraço, de onde, à noite, se admirava a fosforescência das ondas suaves; e o Campo de Santana, com sua grandiosa paisagem de plantas e flores tropicais, tendo ao fundo as silhuetas das montanhas.
Dentre os monumentos da cidade, destacou o dedicado a Dom Pedro I, na Praça Tiradentes.
Como intelectual que era, cultivou a amizade de literatos e cientistas que achou amáveis e ilustrados, dentre eles: Ladislau Neto, Severiano da Fonseca, Franklin Távora, Conselheiro João Manuel Pereira da Silva, Franklin Doria e Amaral Valente.
Em linhas gerais, podemos resumir o Rio de Janeiro do final do século XIX, segundo Vicente Gregório Quesada, como uma cidade linda, com uma baía esplêndida, que oferecia passeios magníficos, com cena teatral animada, vida intelectual pujante, com destaque para os saraus da Princesa Isabel e do casal Haritoff, aos quais, como embaixador, teve acesso, enfim, uma cidade que oferecia passeios para regozijar os ânimos e uma sociedade culta para alimentar o espírito.
FONTE: QUESADA, Vicente Gregório – Mis memórias diplomáticas: Mission ante el Gobierno del Brasil, 2 volumes, Buenos Aires, Imprenta de Coni Hermanos, 1907/08.