O cenário é de rara beleza. Um fiorde de um mar azul safira serpenteia por trinta quilômetros terra adentro, rodeado de escarpadas montanhas. Ao fundo deste vale marinho está Kotor, uma cidade cujas origens remontam à cidade grega de Kathar, de 200 antes de Cristo. O Imperador Júlio César deu especial atenção à região, quando combateu os piratas que desde seus esconderijos abrigados assaltavam os comerciantes romanos que cruzavam o Mediterrâneo. O que vemos hoje é uma cidade medieval amuralhada, descendente arquitetônica do Reino de Montenegro, que foi quase milagrosamente preservada ao longo de sua turbulenta história.
Kotor, encravada entre os impérios de Istambul e de Viena, sobreviveu o início da era moderna como um enclave da República de Veneza, com o nome de Cattaro. O hoje popular destino turístico foi local de abraço e local de disputa, sempre na fronteira da cobiça do poder. Se por um lado a cidade sempre esteve aberta ao contato pelo mar, também ali estavam as fortalezas e os altos montes que a protegiam com ferro e fogo. Kotor respira o encontro, ora amistoso, ora dramático.
Nosso anfitrião encarna este legado, entre as igrejas românicas e as estreitas vias de pórticos esculpidos em pedra e marcados pelo tempo. O Dr. Gojko Celebic é descendente direto de uma das antigas linhagens reais montenegrinas, além de embaixador e ex-ministro da cultura. É considerado também por muitos como o maior escritor vivo em língua sérvia, com dezenas de obras das mais diversas publicadas ao longo de sua trajetória literária.
O pequeno país se reinventa. E quer ir além do turismo que deseja suas belezas, seus vinhos e frutos do mar no cenário medieval. Em 1826, aponta Celebic, o célebre escritor alemão Johann Wolfgang von Goethe cunhou o termo Weltliteratur, ou literatura do mundo. E, não à toa, a cidade de Kotor foi escolhida para sediar o primeiro Festival de Geo-Literatura, convergindo as narrativas das terras e dos povos exatamente duzentos anos depois de Goethe.
Montenegro abriu suas portas e suas instituições para que escritores e pensadores poliglotas de países como Grécia, Itália, República Checa, Sérvia, Holanda, Brasil etc. viessem compartilhar suas histórias e identidades. O Festival de Geo-Literatura traz o conceito de terra como origem, pertencimento e propósito, que se contrapõe, filosoficamente, ao conceito de território, materializado nas voláteis fronteiras administrativas. Aqui surge um eixo simbólico que busca emancipar-se do eixo político.
Ante a homogeneidade de uma tecno-agenda global, abre-se aqui um palco de diversidade que desafia os atuais slogans. Os caldos culturais desbordam, genuinamente distintos, em desafio ao cabresto algorítmico. Imagine o contraste do legado bizantino apresentado pelo nosso acadêmico grego com a aventura tupi-guarani e jesuítica que aqui vim trazer, agora destinada à publicação em idioma sérvio.
Há um manifesto pelo Brasil também, uma ode ao resgate de nossas raízes culturais por um dos nossos mais originais pensadores, que saiu de Tocantins para o mundo. E ele também assistiu a uma das maiores latinistas da Europa, uma doutora judia de Praga, que estuda na biblioteca do Vaticano e que conhece mais de anjos e demônios que a vasta maioria de nós, reles mortais.
Destes encontros em Kotor sairão livros, traduções, embates filosóficos e brindes. Construíram-se pontes entre as terras com fundamentos de essência ancestral. Há quem afirme que é assim que se fabricam, organicamente, as ferramentas da cultura. Hoje elas estão na Geo-Literatura e amanhã, quem sabe, poderão inspirar e operar em outras esferas. Nos diálogos entre os diversos, o mais forte consenso parece ser que vivemos numa humanidade cada vez mais tutelada. E tutelada por uma pós-modernidade que não entrega o que promete.
O Brasil, felizmente, está representado aqui. E, cariocamente, é relatado em primeira mão ao DIÁRIO DO RIO, com sua vocação de conectar, desde a Guanabara, com a vanguarda d’além mar.
