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Polícia Federal mira Márcio Canella e Marcus Amim em nova fase da Operação Unha e Carne

Canella e Douglas Ruas – Divulgação

A Polícia Federal deflagrou, nesta terça-feira (7), a 6ª fase da Operação Unha e Carne, que investiga conexões entre agentes públicos e grupos criminosos no Rio de Janeiro. A nova etapa mira uma rede de postos de combustíveis no Grande Rio suspeita de movimentar R$ 7,6 bilhões em um esquema de lavagem de dinheiro, com possível anuência de políticos. As informações são do g1.

Entre os alvos de busca e apreensão estão Márcio Canella, ex-prefeito de Belford Roxo e pré-candidato ao Senado pelo União Brasil, e o delegado Marcus Vinícius Amim, ex-secretário estadual de Polícia Civil. Outros policiais civis da ativa também são investigados.

Ao todo, os agentes cumprem 19 mandados de busca e apreensão nos municípios de Niterói, São Gonçalo, Itaboraí e Resende, além da capital fluminense. A Justiça também determinou o sequestro de bens e valores e a suspensão das atividades econômicas de empresas ligadas ao grupo investigado.

As apurações tiveram início a partir de um relatório de inteligência enviado à PF pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras, o Coaf. Segundo o documento, o grupo investigado movimentou R$ 7,6 bilhões nos últimos seis anos.

“Além do crime de organização criminosa, os investigados poderão responder por contratação direta ilegal e lavagem de dinheiro, além de outros que poderão surgir no decorrer das investigações”, informou a Polícia Federal.

Márcio Canella e Marcus Amim aparecem entre os alvos

Márcio Canella foi eleito vereador de Belford Roxo em 2012. Depois, chegou à Alerj, onde exerceu três mandatos como deputado estadual. Entre 2017 e 2019, licenciou-se da Assembleia para ocupar o cargo de vice-prefeito na gestão de Waguinho, em Belford Roxo.

A relação política entre os dois se rompeu após as eleições presidenciais de 2022. Naquele ano, Canella apoiou o ex-presidente Jair Bolsonaro, enquanto Waguinho ficou ao lado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Em 2024, Canella foi eleito prefeito de Belford Roxo. Seu principal adversário foi Matheus do Waguinho, sobrinho de Waguinho. Em abril de 2026, o ex-prefeito renunciou ao cargo para disputar uma vaga ao Senado. Com a saída dele, a então vice-prefeita Mariana Malta assumiu a prefeitura.

O delegado Marcus Vinícius Amim comandou a Polícia Civil do Rio entre outubro de 2023 e agosto de 2024. Sua nomeação só foi possível após a aprovação de um projeto de lei na Alerj, que permitiu que delegados com menos de 15 anos de carreira assumissem a chefia da Secretaria de Polícia Civil.

Em 2018, quando ainda era deputado estadual, Márcio Canella propôs a concessão da Medalha Tiradentes, principal honraria da Alerj, ao delegado Amim.

Miliciano Jura também é investigado

Outro alvo da operação é o ex-PM e miliciano Juracy Alves Prudêncio, conhecido como Jura. Ele foi citado no relatório final da CPI das Milícias da Alerj, em 2008, como chefe de um grupo paramilitar que atuava em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense.

No ano seguinte, Jura foi condenado e preso sob acusação de homicídio e associação criminosa.

Postos abasteceram campanha de Cláudio Castro em 2022

A nova fase da Operação Unha e Carne também se conecta a investigações sobre contratos e relações políticas envolvendo empresários do setor de combustíveis.

Durante a campanha à reeleição do então governador Cláudio Castro, em 2022, postos de combustíveis ligados ao empresário Trabach abasteceram a maior parte da frota usada pelo candidato ao governo do estado.

A prestação de contas apresentada ao Tribunal Superior Eleitoral mostra que a campanha gastou R$ 478 mil na compra de cerca de 70 mil litros de diesel. Dez dos 12 postos fornecedores pertenciam ao empresário. Os pagamentos foram feitos em 12 transferências de R$ 39,9 mil.

Depois da posse de Castro, empresas ligadas a Trabach passaram a firmar contratos com o governo do estado. O empresário também já foi investigado pelo Ministério Público do Rio por suspeita de integrar uma organização criminosa. Na época, sua defesa era feita pelo então advogado Rodrigo Bacellar.

Operação começou com suspeita de vazamento ao Comando Vermelho

A Operação Unha e Carne teve cinco fases anteriores desde dezembro de 2025. No início, a investigação apurava um suposto vazamento de informações sigilosas de ações policiais contra o Comando Vermelho.

Segundo a PF, dados sensíveis teriam sido compartilhados de forma ilegal, prejudicando operações e beneficiando investigados ligados à facção criminosa.

A primeira fase teve como alvo o então presidente da Alerj, Rodrigo Bacellar, hoje cassado e preso. De acordo com a Polícia Federal, Bacellar teria vazado informações da Operação Zargun, deflagrada em setembro contra o Comando Vermelho.

O principal beneficiado seria o ex-deputado Thiego Raimundo de Oliveira Santos, o TH Joias, apontado como articulador político da facção. Ainda segundo a investigação, o vazamento teria permitido a destruição ou ocultação de provas.

Bacellar chegou a ser preso preventivamente por decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, mas foi solto dias depois, após decisão do plenário da Alerj, com medidas cautelares, como o uso de tornozeleira eletrônica.

Desembargador, deputado e pastor também entraram na mira

Na segunda fase da operação, ainda em dezembro de 2025, a PF prendeu preventivamente o desembargador federal Macário Ramos Júdice Neto, do Tribunal Regional Federal da 2ª Região. A suspeita dos investigadores é de que o vazamento teria partido do Judiciário federal.

A terceira fase foi deflagrada em 27 de março de 2026. Nessa etapa, Rodrigo Bacellar foi preso novamente, desta vez em casa, em Teresópolis, na Região Serrana. A nova prisão foi determinada por Alexandre de Moraes após a cassação do mandato do político pelo TSE, no caso conhecido como escândalo da Ceperj, e após denúncia formal apresentada pela Procuradoria-Geral da República.

Na quarta fase, em 5 de maio de 2026, o deputado estadual Thiago Rangel, do Avante, foi preso. Ele é suspeito de comandar um esquema de fraudes em procedimentos de compra de materiais e contratação de serviços, como obras de reforma, no âmbito da Secretaria Estadual de Educação do Rio de Janeiro.

A quinta fase, deflagrada na quinta-feira passada (2), prendeu o pastor Márcio Poncio, investigado por ligação com a chamada Máfia do Cigarro. Também foram cumpridos mandados de prisão contra o bicheiro Adilson Oliveira Coutinho Filho, o Adilsinho, e contra Rodrigo Bacellar, que já estavam presos.

Segundo a Polícia Federal, planilhas apreendidas em endereços ligados a Adilsinho indicariam registros de supostos pagamentos indevidos, doações eleitorais e contabilidade associada à lavagem de dinheiro.

“As listas chamaram a atenção dos investigadores por apontarem possíveis repasses diretos de valores a agentes políticos do Estado do Rio de Janeiro”, afirmou a Polícia Federal.

A operação ocorre no contexto da decisão do Supremo Tribunal Federal na ADPF 635, conhecida como ADPF das Favelas, que determinou, entre outras medidas, que a Polícia Federal investigasse possíveis relações entre agentes públicos e facções criminosas no Rio de Janeiro.

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