Quando se fala em aurora boreal, a imagem que vem à mente é a de cortinas verdes e avermelhadas dançando sobre os céus da Noruega, Islândia, Canadá ou Alasca. Pouquíssimos imaginam que um fenômeno semelhante já teria sido observado também no Rio de Janeiro — e justamente quando a cidade era a capital do Império do Brasil.
Na noite de 15 de fevereiro de 1875, moradores da Corte testemunharam um espetáculo incomum no céu. Do alto do Imperial Observatório, instalado no então existente Morro do Castelo, o astrônomo francês Emmanuel Liais acompanhou durante horas um conjunto de grandes faixas luminosas que atravessavam o firmamento. Quase século e meio depois, pesquisadores brasileiros, japoneses, indianos e norte-americanos revisitaram seu relato e concluíram que ele pode descrever uma raríssima aurora esporádica, observada em uma latitude onde esse tipo de fenômeno praticamente não ocorre.
Embora o título desta reportagem utilize a expressão “aurora boreal”, por ser o nome pelo qual esse espetáculo é conhecido pelo grande público, a denominação técnica para um fenômeno observado no hemisfério sul seria aurora austral. Mais especificamente, o estudo científico sugere que o caso do Rio deve ter sido uma aurora esporádica — um tipo extremamente raro de aurora que pode surgir muito longe das regiões polares, mesmo sem a ocorrência de grandes tempestades geomagnéticas.
Um dos maiores cientistas do Império
O autor da observação estava longe de ser um curioso.
Emmanuel Liais (1826–1900) era um dos astrônomos mais respeitados do século XIX. Integrante do Observatório de Paris, ganhou projeção internacional por seus trabalhos em astronomia, física e observação de eclipses antes de ser convidado por Dom Pedro II para assumir a direção do Imperial Observatório do Rio de Janeiro. No Brasil, além de modernizar a instituição, realizou importantes pesquisas astronômicas, descobriu cometas, publicou obras científicas de referência e ajudou a consolidar o prestígio internacional da ciência produzida durante o Império.
Sua credibilidade é um dos aspectos mais importantes dessa história. Anos antes de chegar ao Rio, Liais já havia observado e estudado auroras na Europa, dominava as técnicas mais avançadas de espectroscopia da época e conhecia como poucos os fenômenos luminosos da atmosfera. Por isso, quando descreveu o céu carioca como semelhante ao de uma aurora, não fazia uma comparação baseada na imaginação, mas na experiência direta de quem já havia presenciado esse espetáculo em altas latitudes. Foi justamente esse conjunto de fatores que levou os pesquisadores modernos a considerar seu relato um documento científico de enorme valor histórico.
Quando o céu da Corte surpreendeu o gênio da astronomia
Às 19h45 da noite de 15 de fevereiro de 1875, Emmanuel Liais percebeu que algo extraordinário começava a acontecer sobre o céu da capital do Império. Do terraço do Imperial Observatório, no alto do Morro do Castelo, viu surgir grandes faixas esbranquiçadas que se estendiam de sul para norte, formando uma espécie de véu luminoso sobre a cidade. Astrônomo experiente e conhecedor das auroras observadas na Europa, compreendeu imediatamente que estava diante de um fenômeno absolutamente incomum para uma cidade situada tão longe das regiões polares.
À medida que a noite avançava, o espetáculo tornou-se ainda mais impressionante. As grandes faixas luminosas começaram a oscilar de intensidade e a deslocar-se lentamente pelo céu, reproduzindo um comportamento típico das auroras observadas nas regiões polares. Não era uma luz fixa, mas um fenômeno vivo, em constante transformação.
Pouco depois, Liais registrou um detalhe decisivo: as faixas passaram a apresentar uma discreta coloração avermelhada na parte inferior e um tom esverdeado na superior — exatamente as cores mais frequentemente associadas às auroras. Convencido de que estava diante de algo extraordinário, recorreu ao espectroscópio, um dos instrumentos científicos mais modernos da época, para analisar a natureza daquela luminosidade e registrar o fenômeno com o maior rigor possível.
Na época, interpretou as linhas espectrais observadas segundo os conhecimentos científicos disponíveis no século XIX. Embora essa explicação específica tenha sido posteriormente superada pela ciência moderna, o registro espectroscópico permanece como um dos elementos que mais chamaram a atenção dos pesquisadores atuais.
Um astrônomo escrevendo história em tempo real
Um dos detalhes mais curiosos da narrativa é que Liais não esperou o fenômeno terminar para comunicar sua descoberta.
Ainda durante a observação, interrompeu seu trabalho por alguns minutos para enviar uma nota ao Jornal do Commercio, informando que um acontecimento extraordinário estava em curso sobre o céu da cidade. Graças a essa iniciativa, a descrição produzida naquela mesma noite atravessou quase um século e meio e chegou até os pesquisadores que, em 2020, reexaminaram o caso à luz dos conhecimentos atuais da física espacial
Depois retornou imediatamente ao observatório e continuou acompanhando o fenômeno.
As luzes enfraqueceram por volta das nove da noite, reapareceram cerca de uma hora depois e voltaram novamente durante a madrugada, permanecendo visíveis até pouco antes do amanhecer.
Quase 150 anos de esquecimento
Apesar da importância do relato, o episódio acabou praticamente desaparecendo da memória científica.
Somente em 2020 um grupo internacional de pesquisadores decidiu reexaminar toda a documentação histórica preservada na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional.
O estudo confrontou a descrição de Liais com conhecimentos modernos sobre física solar, atividade geomagnética, espectroscopia e dinâmica das auroras.
A conclusão foi cautelosa, mas extremamente significativa: diversos elementos presentes no relato são compatíveis com uma aurora esporádica, um fenômeno excepcionalmente raro em regiões de baixa latitude magnética como o Rio de Janeiro.
Os autores ressaltam que não é possível afirmar o caso com certeza absoluta — afinal, não existem fotografias nem medições instrumentais modernas. No entanto, destacam que a combinação entre a forma das faixas luminosas, seu movimento, as cores descritas, a observação espectroscópica e a experiência prévia de Emmanuel Liais torna essa hipótese altamente plausível.
Mais do que solucionar uma curiosidade histórica, o estudo devolveu ao Rio de Janeiro um capítulo praticamente esquecido de sua própria história científica. Um fenômeno observado do alto do Morro do Castelo por um astrônomo do Império, registrado na imprensa da época e preservado por quase um século e meio na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional voltou a chamar a atenção da comunidade científica internacional, demonstrando como documentos históricos podem ganhar novo significado quando reinterpretados à luz do conhecimento contemporâneo.
Um espetáculo praticamente impossível
Auroras costumam ocorrer nas proximidades dos polos terrestres, onde partículas vindas do Sol interagem com o campo magnético da Terra.
O Rio de Janeiro, por sua posição geográfica, está muito distante dessas regiões.
É justamente por isso que o episódio desperta tanto interesse entre os especialistas. Caso a interpretação esteja correta, o fenômeno observado em 1875 representa um dos mais extraordinários registros históricos de aurora em baixíssima latitude já documentados no mundo.
Um céu perdido sobre um morro desaparecido
Há ainda um elemento particularmente simbólico para os cariocas.
Toda essa observação foi realizada a partir do Imperial Observatório do Rio de Janeiro, então instalado no alto do Morro do Castelo, uma das colinas fundadoras da cidade, posteriormente demolido. Criado por decreto de Dom Pedro I, em 1827, e posteriormente transformado por Dom Pedro II em um dos mais importantes centros científicos da América do Sul, o observatório não se dedicava apenas à astronomia. Era responsável pela determinação da hora oficial da Corte, pela elaboração das efemérides astronômicas, por observações meteorológicas, estudos geodésicos e pesquisas fundamentais para a navegação e a cartografia do Império.
Foi desse centro de excelência científica que Emmanuel Liais acompanhou, durante horas, um dos fenômenos celestes mais intrigantes já registrados no Brasil. Décadas depois, entre 1920 e 1922, o Morro do Castelo seria demolido durante as grandes reformas urbanas do Rio de Janeiro, obrigando a transferência da instituição para São Cristóvão. O Imperial Observatório daria origem ao atual Observatório Nacional, que continua sendo uma das mais importantes instituições científicas brasileiras. Assim, a observação que hoje desperta o interesse de astrônomos do mundo inteiro nasceu em um lugar que desapareceu da paisagem carioca, mas permanece vivo na história da ciência nacional.