A deputada estadual Martha Rocha (PDT), candidata a deputada federal, defendeu uma política de segurança pública concentrada na investigação, na prisão dos criminosos e no bloqueio dos recursos financeiros de facções e milícias. Durante entrevista ao DIÁRIO DO RIO, a delegada criticou o discurso que associa o combate à criminalidade à morte dos suspeitos e afirmou que o Estado precisa desarticular a estrutura econômica das organizações.
Primeira mulher a comandar a Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro, Martha argumentou que as facções funcionam como empresas e dependem de recursos para comprar armas, pagar integrantes, corromper agentes públicos e ampliar o domínio territorial.
Para a candidata, o trabalho policial deve identificar os responsáveis pelos crimes, acompanhar a movimentação financeira, bloquear bens e reunir provas capazes de manter os integrantes das organizações presos.

Investigação, inteligência e bloqueio de bens
Martha defendeu mais investimentos em tecnologia, inteligência e investigação policial. Segundo ela, o enfrentamento ao crime organizado não pode ficar restrito às operações ostensivas realizadas dentro das comunidades.
A deputada ressaltou que armas e drogas atravessam fronteiras estaduais e internacionais antes de chegar ao Rio. Por isso, considera necessária a criação de protocolos de integração entre as polícias estaduais, a Polícia Federal, a Polícia Rodoviária Federal e os órgãos responsáveis pelo controle financeiro.
Outro ponto defendido é o compartilhamento mais rápido de informações sobre pessoas, empresas, contas bancárias e bens utilizados pelas organizações criminosas.
Martha também propôs a adoção de metas nacionais para a elucidação de homicídios. Na avaliação da candidata, a ausência de indicadores claros e comparáveis dificulta a cobrança por resultados e permite que grande parte dos assassinatos permaneça sem solução.
A delegada afirmou que sua principal arma ao longo da carreira policial sempre foi uma boa caneta esferográfica azul, em referência ao trabalho de investigação, à elaboração de inquéritos e à produção das provas necessárias para responsabilizar os criminosos.
Segurança deixou de ser política de Estado
Durante a entrevista, Martha criticou as sucessivas mudanças no comando das polícias durante o Governo Cláudio Castro. Para a deputada, a segurança pública deixou de ser tratada como uma política permanente e passou a depender de acordos e interesses de cada administração.
Segundo ela, a troca frequente dos chefes das corporações impede a continuidade dos projetos, altera prioridades e interfere no planejamento de longo prazo.
A candidata defendeu a implantação de metas, indicadores e programas que permaneçam em funcionamento mesmo quando houver mudança de governador ou de secretário. Também propôs corregedorias policiais com maior autonomia para investigar desvios cometidos por integrantes das próprias corporações.
Martha argumentou que o combate ao crime exige policiais valorizados, equipamentos adequados e estabilidade administrativa. Para ela, mudanças na estrutura das instituições não devem ser feitas para atender a circunstâncias políticas ou interesses individuais.
Críticas a Cláudio Castro
A deputada também fez críticas diretas ao governador Cláudio Castro. Martha mencionou episódios nos quais, segundo ela, aeronaves oficiais teriam sido utilizadas em deslocamentos de caráter particular ou de lazer.
Para a candidata, viagens sem relação direta com as funções do cargo deveriam ser pagas pelo próprio governador, e não pelo Estado.
Martha também criticou o não pagamento integral da recomposição salarial prometida aos servidores estaduais e mudanças realizadas na legislação das polícias. Segundo ela, alterações na estrutura das corporações precisam ser debatidas com os profissionais e justificadas por critérios técnicos.
A deputada afirmou que o papel do parlamentar não se limita à apresentação de projetos. Para ela, deputados também precisam fiscalizar a aplicação do orçamento, os contratos, as viagens oficiais e as decisões administrativas do Executivo.
Denúncias de corrupção na Alerj
Ao falar sobre corrupção, Martha destacou sua atuação na fiscalização de parlamentares e órgãos do Governo do Estado.
A delegada mencionou denúncias apresentadas contra o então deputado estadual Thiago Rangel, envolvendo suspeitas de irregularidades na Fundação Leão XIII e na área de Educação em Campos dos Goytacazes.
Segundo Martha, pessoas envolvidas em crimes contra a administração pública não devem ocupar cadeiras no Parlamento. Ela defendeu que as denúncias sejam investigadas pelos órgãos competentes e que os responsáveis sejam punidos quando houver comprovação dos delitos.
A parlamentar também criticou votações realizadas de forma apressada na Assembleia Legislativa. Um dos episódios mencionados foi uma convocação para a escolha da Mesa Diretora da Casa, articulada por Douglas Ruas (PL). Martha afirmou que se absteve por considerar que o procedimento não respeitou adequadamente o Regimento Interno.
Críticas às emendas Pix
Martha Rocha também criticou as chamadas emendas Pix, mecanismo que permite a transferência direta de recursos da União para estados e municípios.
Na avaliação da candidata, a falta de detalhamento sobre a utilização do dinheiro reduz a transparência e dificulta o acompanhamento pela população e pelos órgãos de fiscalização.
Ela também se posicionou contra o chamado orçamento secreto e defendeu que as emendas parlamentares identifiquem o autor, o destino dos recursos, o objeto financiado e os resultados esperados.
Para Martha, o orçamento público precisa ser planejado de acordo com as prioridades da população, sem ficar excessivamente condicionado a negociações individuais entre parlamentares e governos.
Venda da Cedae foi um mau negócio, diz Martha
Outro tema abordado foi a concessão dos serviços de abastecimento de água e saneamento anteriormente operados pela Cedae. Martha afirmou que a operação não trouxe os resultados esperados para o Estado nem para a população.
A candidata defendeu uma fiscalização mais rigorosa dos contratos e das metas estabelecidas para as empresas responsáveis pelos serviços.
Segundo ela, o mesmo controle deve ser aplicado às concessionárias de transportes, incluindo a SuperVia e as operadoras das barcas. Martha argumentou que o poder público não pode se limitar a conceder os serviços, devendo acompanhar investimentos, qualidade do atendimento, tarifas e cumprimento das obrigações contratuais.
A parlamentar também defendeu os royalties do petróleo destinados ao Rio de Janeiro. Para ela, os recursos representam uma compensação pelos impactos ambientais e econômicos da atividade e não podem ser tratados como um privilégio concedido ao estado.
Integração de dados contra o feminicídio
Na área de proteção às mulheres, Martha defendeu uma atuação preventiva para identificar vítimas que correm maior risco de feminicídio.
A proposta envolve o cruzamento de informações dos hospitais, delegacias, medidas protetivas, serviços de assistência social e demais órgãos da rede de atendimento.
Segundo a deputada, muitas mulheres assassinadas já haviam procurado o poder público ou apresentado sinais anteriores de violência. A integração dos dados permitiria acompanhar os casos mais graves e agir antes que as agressões evoluíssem para o feminicídio.
Martha também defendeu a ampliação dos equipamentos de acolhimento e o fortalecimento da autonomia financeira das vítimas. Para ela, a dependência econômica é um dos principais fatores que dificultam o rompimento do ciclo de violência.
Piso nacional para profissionais do SUAS
A valorização dos profissionais da assistência social aparece entre as propostas que Martha pretende levar para a Câmara dos Deputados.
A candidata defendeu a criação de um piso salarial nacional para os trabalhadores do Sistema Único de Assistência Social, o SUAS.
Segundo a parlamentar, assistentes sociais, psicólogos, educadores e outros profissionais atendem famílias em situações de extrema vulnerabilidade, mas ainda enfrentam baixos salários, vínculos precários e falta de estrutura.
Martha argumentou que a assistência social precisa receber tratamento semelhante ao dado à saúde e à educação, com financiamento permanente e responsabilidades definidas para os governos federal, estaduais e municipais.
Educação integral contra o recrutamento pelo crime
A delegada apontou a educação em tempo integral como uma das principais ferramentas para impedir o recrutamento de crianças e adolescentes pelas organizações criminosas.
Martha defendeu a recuperação do modelo dos Centros Integrados de Educação Pública, os CIEPs, idealizados durante o Governo Leonel Brizola com a participação do antropólogo e educador Darcy Ribeiro.
Para a candidata, a escola deve oferecer ensino, alimentação, atividades esportivas, cultura e acompanhamento social durante todo o dia.
A deputada argumentou que crianças e adolescentes sem acesso a oportunidades ficam mais expostos ao aliciamento por traficantes e milicianos. Por isso, considera que educação, assistência social e segurança pública precisam funcionar de maneira integrada.
Brizola e Darcy Ribeiro foram citados por Martha como duas das principais referências de sua atuação política no PDT.
Trajetória na Polícia Civil
Martha Rocha possui mais de quatro décadas de vida pública. Delegada de carreira, tornou-se a primeira mulher a ocupar o cargo de chefe da Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro.
Depois de deixar o comando da corporação, ingressou na política e foi eleita deputada estadual. Na Alerj, concentrou parte de sua atuação nas áreas de segurança pública, defesa das mulheres, assistência social e fiscalização do Executivo.
Agora candidata à Câmara dos Deputados, Martha afirma que pretende levar para Brasília propostas de integração nacional das forças policiais, combate à lavagem de dinheiro, valorização dos profissionais do SUAS e fortalecimento da educação em tempo integral.
A delegada também defendeu uma atuação conjunta da bancada federal fluminense para proteger os interesses do estado e garantir recursos para segurança, infraestrutura e serviços públicos.