Depois de décadas assistindo à deterioração de parte de seu casario, a Rua do Teatro entrou numa nova etapa. Na quarta-feira (12), a Prefeitura do Rio entregou simbolicamente as chaves dos primeiros imóveis contemplados pelo Reviver Centro Patrimônio PRÓ-APAC, programa criado para recuperar edificações históricas degradadas combinando investimento privado e subsídio público às obras de restauração.
A cerimônia aconteceu em outro endereço histórico do Centro, o Real Gabinete Português de Leitura, e reuniu autoridades municipais e representantes das instituições e empresas que assumirão os imóveis. Participaram o secretário municipal de Cultura, Lucas Padilha; o secretário municipal de Desenvolvimento Urbano e Licenciamento, Gustavo Guerrante; o secretário de Desenvolvimento Econômico e presidente da CCPar, Osmar Lima; e a presidente do Instituto Rio Patrimônio da Humanidade, Laura Di Blasi, além das equipes envolvidas no programa.
Entre os novos responsáveis pelos imóveis estavam representantes da Venerável Ordem Terceira dos Mínimos de São Francisco de Paula, conduzidos pelo padre Álvaro Inácio da Silva, comissário do cardeal na administração da instituição; representantes do Real Gabinete, especialmente seu presidente, Francisco Gomes da Costa; e integrantes da House RJ, incorporadora representada na cerimônia por Cláudio André de Castro, um dos sócios da empresa que comprou o maior lote de casarões.
A entrega representa a passagem de uma política que até pouco tempo estava concentrada em levantamentos, decretos, editais e leilões para a etapa que realmente poderá transformar a paisagem: projeto, restauro, reconstrução e nova ocupação dos imóveis.
E, no caso da Rua do Teatro, não se trata apenas de salvar fachadas que ainda estão de pé. Alguns dos antigos imóveis já desapareceram completamente e seus terrenos acabaram transformados em estacionamentos, interrompendo a sequência de sobrados que durante gerações caracterizou a rua. A recuperação prevista pelo programa poderá, portanto, recompor também partes dessa paisagem perdida e devolver unidade arquitetônica a um dos trechos históricos mais importantes do Centro.
Incorporadora prepara cerca de 50 apartamentos em seis imóveis
O maior conjunto privado desta primeira etapa está nas mãos da House RJ, incorporadora que arrematou no leilão realizado em dezembro de 2025 os imóveis da Rua do Teatro 9, 11, 13, 15, 17 e 19.
O DIÁRIO DO RIO acompanhou o certame. O conjunto foi disputado com a Construtora Biapó e acabou arrematado pela House RJ por R$ 2,18 milhões, com previsão de aproximadamente R$ 3,346 milhões em subsídios destinados a contribuir para a recuperação patrimonial.

É exclusivamente nesse conjunto de seis imóveis que está sendo desenvolvido o projeto residencial de aproximadamente 50 unidades. Os demais imóveis entregues nesta etapa do Reviver Centro Patrimônio PRÓ-APAC pertencem a outros adquirentes e terão projetos próprios.
A House RJ já trabalha no projeto, que está sendo elaborado pelo arquiteto e urbanista Rogério Goldfeld Cardeman. A proposta atualmente em desenvolvimento prevê cerca de 50 apartamentos, além de diversas lojas comerciais no térreo e área de lazer para os futuros moradores. O prédio deve ter 5 andares mas preserva totalmente a fachada histórica, que, para quem caminha na calçada, será a única a ser vista.
O projeto deverá combinar a ocupação residencial contemporânea com a recuperação das fachadas históricas remanescentes e a recomposição da leitura arquitetônica dos imóveis que desapareceram. Em alguns pontos, onde hoje existem simplesmente terrenos utilizados como estacionamentos, a intenção é devolver à rua o volume construído que fazia parte de sua antiga formação.
A diferença é importante. Não se pretende criar apenas uma fachada cenográfica escondendo um imóvel sem função. A restauração será acompanhada de novos moradores, comércio no térreo e áreas de uso cotidiano, permitindo que o conjunto volte a participar efetivamente da vida urbana.
Se o projeto se concretizar conforme está sendo desenvolvido, serão dezenas de novos moradores vivendo a poucos passos do Largo de São Francisco de Paula, da Praça Tiradentes, da Rua Sete de Setembro e do próprio Real Gabinete Português de Leitura.
É uma ocupação particularmente significativa para um trecho do Centro que durante anos perdeu moradores, comércio e circulação cotidiana justamente enquanto seus imóveis históricos continuavam se deteriorando.
Durante a cerimônia, Gustavo Guerrante destacou a necessidade de aproximar preservação e desenvolvimento urbano, lembrando que “a preservação da memória e o desenvolvimento urbano podem caminhar juntos”.

Nesse sentido, a experiência da Rua do Teatro talvez represente um dos testes mais interessantes do Reviver Centro Patrimônio PRÓ-APAC: restaurar o passado sem retirar do imóvel a possibilidade de fazer parte do presente.
Real Gabinete e Ordem dos Mínimos também recuperarão imóveis históricos
O Real Gabinete Português de Leitura protagonizou uma das maiores disputas do leilão realizado no final de 2025.
A instituição arrematou o imóvel da Rua do Teatro 37, praticamente diante de sua própria sede. O sobrado havia sido inicialmente avaliado em R$ 988 mil, mas uma disputa entre interessados elevou o lance até aproximadamente R$ 2 milhões, valor pelo qual acabou adquirido pelo Real Gabinete.
A operação possui um evidente componente patrimonial. Não se trata apenas da recuperação de um imóvel isolado, mas da requalificação do próprio entorno imediato de uma das construções históricas mais conhecidas do Rio. O prédio está em condições precárias e estava tomado por invasores ilegais: pertencia a mais de 10 donos que moravam em diversos países da Europa e no Brasil, antes de ser leiloado.

Também participa desta primeira etapa a Venerável Ordem Terceira dos Mínimos de São Francisco de Paula, ligada à monumental Igreja de São Francisco de Paula e responsável por imóveis no entorno do Largo.
A participação da Ordem ocorre depois de uma série de discussões com o Município durante a implantação do programa, relacionadas à situação dos imóveis e à preservação do conjunto histórico que envolve a igreja. O resultado acabou incluindo a própria instituição religiosa entre os participantes da recuperação da área.
Na cerimônia de entrega das chaves, representantes da associação que tem São Francisco de Paula como padroeiro estiveram presentes ao lado dos demais adquirentes, sob a condução do padre Álvaro, comissário indicado pelo cardeal para administrar a Venerável Ordem. Recentemente a entidade restaurou a monumental imagem de São Francisco da igreja em um grande esforço para reconectar-se com suas origens. Também tem promovido concertos de música clássica e sacra no templo, que voltou a abrir aos sábados e vive lotado de turistas.
A primeira entrega do programa contempla imóveis da Rua do Teatro 9, 11, 13, 15, 17, 19 e 37, além dos números 19, 21 e 23 do Largo de São Francisco de Paula e do chamado Lote 1 da Rua Particular, formado pelos números 2, 4, 6, 8 e 10.
Os projetos podem receber subsídio municipal de até R$ 3.212 por metro quadrado para obras de restauração e requalificação, de acordo com as regras e etapas estabelecidas pelo programa.
Isso ajuda a enfrentar uma das maiores dificuldades da recuperação de imóveis históricos: o elevado custo de obras que precisam obedecer a exigências patrimoniais e muitas vezes envolvem estruturas profundamente deterioradas.
Um programa criado para tirar patrimônio do abandono
O Reviver Centro Patrimônio PRÓ-APAC começou a ganhar forma em 2025 dentro da estratégia da Prefeitura para recuperar imóveis históricos abandonados no Centro.
O então prefeito Eduardo Paes (PSD) apresentou naquele ano o modelo que permite ao Município atuar sobre edificações degradadas consideradas estratégicas, promovendo mecanismos de desapropriação e levando os imóveis a leilão para interessados dispostos a recuperá-los.
A lógica é diferente daquela em que o poder público simplesmente protege o imóvel e transfere integralmente ao proprietário o custo de sua recuperação. O PRÓ-APAC utiliza recursos municipais para subsidiar parte das intervenções, tentando tornar economicamente possíveis obras que durante décadas ficaram apenas no papel.
Em julho de 2025, a Prefeitura anunciou a primeira seleção de 16 imóveis, concentrados principalmente na Rua do Teatro, no Largo de São Francisco de Paula e em seu entorno.
O DIÁRIO DO RIO acompanhou desde então as diferentes etapas do processo, inclusive o leilão de dezembro, marcado por disputas entre interessados e questões judiciais envolvendo alguns lotes.
A cerimônia realizada agora no Real Gabinete mostra que o programa ultrapassou essa fase. Os primeiros imóveis já têm novos responsáveis e começam a entrar efetivamente na etapa de recuperação.
Segundo a Prefeitura, o levantamento feito na região central já identificou mais de 4 mil imóveis degradados, dimensão que mostra que a Rua do Teatro funciona como experiência inicial de uma política que poderá alcançar outras partes do Centro.
O programa também se insere num movimento mais amplo de reocupação da região. O Reviver Centro já possibilitou milhares de novas unidades residenciais, enquanto antigos edifícios comerciais, terrenos e imóveis históricos começam a receber projetos de moradia, hotelaria, comércio e serviços.
Para Osmar Lima, a recuperação desses prédios precisa caminhar junto à retomada econômica e residencial da área. Durante a entrega, ele destacou que “a revitalização do Centro precisa ser pensada de forma integrada”, reunindo moradia, cultura, comércio, serviços e novos negócios.
Essa integração é especialmente importante na Rua do Teatro.
Poucos trechos da região possuem uma concentração tão expressiva de referências históricas e culturais em tão pequena distância. O Real Gabinete Português de Leitura está ali. A Igreja de São Francisco de Paula está ao lado. A Praça Tiradentes fica a poucos passos. O eixo se conecta ainda à Rua Sete de Setembro, à Avenida Passos e a outras áreas históricas do Centro.
Apesar disso, durante muitos anos, vários imóveis daquele trecho permaneceram vazios, degradados ou simplesmente desapareceram. Onde havia sobrados, passaram a existir estacionamentos. Onde havia portas e vitrines, surgiram tapumes ou fachadas fechadas.
O projeto que agora começa a sair do papel poderá inverter essa lógica.
Nos imóveis da House RJ, a recomposição do conjunto histórico virá acompanhada de cerca de 50 apartamentos, lojas e área de lazer. No imóvel adquirido pelo Real Gabinete, a recuperação deverá fortalecer justamente o entorno de sua sede. Nos bens ligados à Venerável Ordem dos Mínimos, a intervenção poderá ajudar a recuperar a paisagem do Largo de São Francisco de Paula.
São projetos diferentes, conduzidos por adquirentes diferentes, mas reunidos pela mesma ideia: o patrimônio precisa voltar a ter função para conseguir permanecer vivo.
A Rua do Teatro talvez seja um dos lugares onde isso ficará mais visível. A reconstrução dos trechos hoje ocupados por estacionamentos, somada à recuperação dos sobrados ainda existentes, poderá devolver à via uma aparência histórica muito mais contínua. Ao mesmo tempo, novos moradores, lojas e atividades deverão produzir uma ocupação que a região perdeu ao longo das últimas décadas.
Depois de inventários, desapropriações, editais, processos e leilões, começam agora as obras que poderão efetivamente ser vistas da calçada.
Se o programa cumprir o que está sendo planejado, a Rua do Teatro não terá apenas algumas fachadas restauradas. Poderá recuperar a aparência de uma rua histórica e, ao mesmo tempo, ganhar uma ocupação completamente nova por trás delas.
Talvez esteja justamente aí a maior promessa do Reviver Centro Patrimônio PRÓ-APAC: fazer com que o patrimônio do Rio deixe de ser apenas aquilo que a cidade impede de demolir e volte a ser aquilo que ela efetivamente usa.