Quem passa hoje pela Rua da Quitanda dificilmente imagina que, muito (muito!) antes dos tapumes que hoje guardam a construção do futuro condomínio da construtora Canopus no quarteirão entre a Sete de Setembro e a rua da Assembléia, no número 23 da rua, aquele endereço no Centro do Rio já abrigava uma empresa que figurava entre as mais importantes distribuidoras de produtos farmacêuticos do Brasil.
A descoberta surgiu durante a pesquisa realizada pelo DIÁRIO DO RIO sobre a trajetória da Casa NIOAC, que vendeu por quase 100 anos malas e armas no local. Ao recuar algumas décadas nos almanaques comerciais, anúncios de jornais e publicações especializadas, um nome começou a aparecer repetidamente: Casa Huber.
Pouco lembrada atualmente, a empresa foi uma das grandes importadoras de drogas, produtos químicos e especialidades farmacêuticas da então capital da República. Mais do que uma simples farmácia, funcionava como elo entre laboratórios europeus, médicos, drogarias e consumidores brasileiros, abastecendo estabelecimentos de diversas regiões do país.
E havia uma curiosidade inesperada: durante parte de sua história, a Casa Huber manteve operações em dois endereços históricos do Centro do Rio — a Rua da Quitanda, 23, e a Rua Sete de Setembro, 61 e 63. Este último imóvel pertence até hoje à Irmandade de Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores, proprietária de diversos prédios históricos na região desde o período colonial.
Muito além de uma farmácia
Os anúncios publicados nas primeiras décadas do século XX mostram que a Casa Huber era muito diferente das farmácias tradicionais de balcão.
Dirigida por Rodolpho Hess & Cia., a empresa anunciava a importação direta de drogas, reagentes químicos, especialidades farmacêuticas, instrumentos e acessórios para farmácias. Mantinha escritório, setor atacadista, varejo e depósitos próprios.
Em uma época em que praticamente todos os medicamentos de maior prestígio vinham da Europa, a Casa Huber transformou-se em uma das principais portas de entrada desses produtos no mercado brasileiro.
Muitos laboratórios estrangeiros indicavam expressamente a empresa como representante, distribuidora ou depositária de seus medicamentos no Rio de Janeiro. Em jornais publicados de norte a sul do país, era comum encontrar anúncios informando que determinado remédio poderia ser adquirido na Casa Huber, na capital federal.
Mais do que vender medicamentos ao consumidor final, a empresa abastecia outras farmácias, drogarias e casas comerciais.
Uma empresa com dois endereços
Os almanaques comerciais revelam um aspecto particularmente interessante.
Ao contrário do que se poderia imaginar, a mudança da Rua Sete de Setembro para a Rua da Quitanda não parece ter ocorrido de forma imediata.
Durante determinado período, a Casa Huber aparece funcionando simultaneamente nos dois locais.
A sede da Rua Sete de Setembro, nos números 61 e 63, concentrava parte importante das operações comerciais. Já a Rua da Quitanda, 23 — imóvel que décadas depois seria ocupado pela Casa NIOAC — também integrava a estrutura da empresa.
Essa descoberta permite reconstruir uma etapa praticamente esquecida da história daquele sobrado.
Muito antes das malas, artigos de couro e equipamentos esportivos vendidos pela NIOAC, suas vitrines provavelmente exibiam frascos de laboratório, produtos químicos, medicamentos importados e especialidades farmacêuticas recém-chegadas da Europa.
O corredor farmacêutico do Centro
Outro aspecto curioso revelado pela pesquisa é que a Casa Huber não estava isolada.
Naquele trecho da Rua Sete de Setembro funcionavam diversos estabelecimentos ligados ao comércio farmacêutico.
Entre eles estava a lendária Drogaria V. Silva, lembrada até hoje por muitos cariocas e considerada uma das grandes referências do setor durante boa parte do século XX.
A proximidade física entre essas empresas ajuda a compreender a dinâmica comercial do antigo Centro do Rio.
Assim como hoje determinadas ruas concentram joalherias, lojas de informática ou escritórios especializados, aquele trecho da cidade formava uma verdadeira central de importação, distribuição e comércio de medicamentos.
Era ali que médicos, farmacêuticos e comerciantes encontravam boa parte das novidades terapêuticas que chegavam ao Brasil.
Publicidade que hoje parece inacreditável
Folhear os anúncios da Casa Huber é também viajar por um período em que a publicidade farmacêutica seguia regras muito diferentes das atuais.
Os jornais anunciavam, sem qualquer constrangimento, medicamentos que prometiam curar sífilis, tuberculose, anemia, doenças do fígado, problemas femininos, verminoses, queda de cabelo, doenças da pele e até males classificados como “secretos”.
Os textos eram recheados de testemunhos de pacientes, cartas de agradecimento e promessas de eficácia praticamente absoluta.
Hoje, boa parte dessas propagandas seria proibida pela legislação sanitária.
Na época, porém, representavam uma importante ferramenta de divulgação científica e comercial, aproximando médicos, pacientes e distribuidores.
A Casa Huber aparecia frequentemente como depositária ou representante oficial desses produtos, emprestando sua reputação comercial às marcas que distribuía.
Um cartaz vindo de Paris
Entre os documentos localizados durante a pesquisa há uma peça que ilustra bem o prestígio alcançado pela empresa.
Trata-se de um raro cartaz publicitário produzido pelo artista francês Marcel Lebrun, destinado à Drogaria Casa Huber de Rodolpho Hess & Cia.
A existência de uma obra produzida na França para promover uma empresa carioca revela o grau de internacionalização daquele comércio e reforça os vínculos mantidos com fornecedores europeus.
Outra curiosidade encontrada foi a fotografia de um automóvel do início do século XX ostentando a identificação da Casa Huber, registrada na Suíça e associada aos acessórios para farmácias comercializados pela empresa.
São indícios de uma rede comercial muito mais ampla do que normalmente se imagina quando se fala do antigo comércio do Centro do Rio.
Uma descoberta que reescreve a história do imóvel
A reportagem publicada recentemente pelo DIÁRIO DO RIO mostrou como a Casa NIOAC atravessou quase um século na Rua da Quitanda antes de dar lugar ao empreendimento residencial que será lançado pela Canopus.
A pesquisa agora permite avançar ainda mais no tempo.
Antes da NIOAC, existiu naquele mesmo endereço uma sofisticada casa importadora de produtos farmacêuticos, ligada ao comércio internacional e instalada também em um imóvel pertencente à Irmandade de Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores.
É um daqueles casos em que uma investigação sobre um prédio acaba revelando sucessivas camadas da história da cidade.
Cada estabelecimento deixa suas marcas, transforma os espaços e dialoga com uma época diferente do Rio de Janeiro.
A Casa Huber desapareceu, assim como desapareceram muitos dos medicamentos que vendia e das técnicas comerciais que utilizava.
Mas seus anúncios, almanaques, fotografias e registros documentais permitem reconstruir a trajetória de uma empresa que participou silenciosamente da modernização da farmácia brasileira e que, por décadas, fez do Centro do Rio um dos grandes polos nacionais de importação e distribuição de produtos farmacêuticos.
Ao revelar essa história, o antigo sobrado da Rua da Quitanda deixa de ser apenas o endereço da Casa NIOAC. Ele passa a contar uma narrativa muito mais longa, iniciada ainda nas primeiras décadas do século XX, quando frascos de laboratório, reagentes químicos e medicamentos importados ocupavam o mesmo espaço onde, anos mais tarde, cariocas comprariam malas para viajar pelo mundo.
