
Desde a mitologia grega, a memória nunca foi tratada como algo irrelevante: ela estruturava o mundo. Mnemósine, a titânide da memória, era aquela que, ao unir-se a Zeus por nove noites consecutivas, dava origem às nove Musas — Calíope, Clio, Euterpe, Tália, Melpômene, Terpsícore, Erato, Polímnia e Urânia — guardiãs da poesia épica e da história, da música e da dança, da tragédia e da comédia, da ciência dos astros e da palavra ritual. Nada era fortuito nessa genealogia. Toda forma de arte, todo saber organizado, toda narrativa histórica nascia da memória — mas nunca fora da órbita do poder.
As Musas eram cultuadas no Mouseion, a Casa das Musas: espaços sagrados de consagração do saber, da palavra e da lembrança, que reuniam culto, estudo, preservação e produção intelectual. O Mouseion não era vitrine nem depósito neutro, mas instituição viva, lugar de ordenação simbólica do mundo — embrião remoto dos museus, das bibliotecas, dos arquivos e das academias modernas. Desde a sua origem, portanto, a memória não era apenas lembrança: era instituição, era escolha, era hierarquia. Preservar nunca significou guardar tudo, mas decidir o que merece atravessar o tempo — e, por consequência, o que será condenado ao esquecimento.
Por isso, toda política da memória carrega em si uma violência original. Definir o que será lembrado implica, inevitavelmente, determinar o que será apagado. A história humana é pródiga em exemplos de narrativas silenciadas pelos vencedores, de passados reescritos, de heranças incômodas lançadas à margem. Não por acaso, regimes autoritários sempre compreenderam a memória como tecnologia de poder: dominar o passado é uma forma eficiente de governar o presente e estreitar o horizonte do futuro, moldando valores, afetos e pertencimentos no terreno mais sensível da política — aquele que atua sobre consciências, imaginários e desejos, os célebres “corações e mentes” do já esgarçado jargão gramsciano.
Essa constatação não pertence apenas ao mundo antigo. Ela atravessa séculos e chega intacta ao presente. E é a partir dela que se deve observar o Brasil contemporâneo, suas políticas culturais, suas escolhas institucionais e, sobretudo, suas disputas em torno daquilo que será lembrado — e daquilo que, mais uma vez, corre o risco de ser esquecido, num ano de 2026 que promete protagonizar disputas intensas nas urnas, nos parlamentos e nas ruas.
É sob essa chave — memória como poder, e não como ornamento — que se devem analisar as políticas culturais atualmente em curso no Brasil. A questão central não é apenas regulatória, fiscal ou distributiva. Ela é, antes de tudo, civilizatória: estamos construindo instrumentos capazes de sustentar uma memória coletiva, com densidade histórica, diversidade estética e continuidade no tempo, ou estamos apenas administrando fluxos de mercado e apagando incêndios conjunturais?
Quando políticas culturais se limitam a corrigir assimetrias imediatas, sem articular um projeto de longo prazo para formação de repertório, fortalecimento institucional, preservação de acervos e estímulo à imaginação coletiva, elas acabam por estreitar o horizonte. Não se trata apenas de garantir espaço para a produção nacional em museus, filmes, plataformas ou publicações, mas de perguntar que país queremos que se reconheça nessas imagens — e se esse reconhecimento será capaz de sobreviver às próximas décadas. Sem isso, a política cultural vira técnica de gestão; e a memória, ativo descartável.
Nesse vazio de projeto, a memória tende a se fragmentar. Em vez de um campo comum de disputa simbólica — tenso, contraditório, plural — ela se converte em um mosaico de retalhos identitários que raramente dialogam entre si. Cada grupo luta legitimamente por visibilidade, mas o resultado agregado é um horizonte esfarelado, incapaz de produzir sentido compartilhado ou mobilização duradoura.
O efeito político dessa fragmentação é perverso: enquanto segmentos subalternos disputam entre si pequenas parcelas de reconhecimento, o poder estrutural permanece intacto, confortável, imune. A memória deixa de ser instrumento de transformação e passa a funcionar, inadvertidamente, como mecanismo de conservação. O conflito existe, mas é horizontal; o antagonismo real — econômico, institucional, geopolítico — permanece fora de foco.
Esse cenário ajuda a explicar por que o sonho político — a capacidade de imaginar futuros coletivos — foi, em grande medida, sequestrado por setores da extrema direita. Ao contrário do campo progressista, excessivamente defensivo e fragmentado, esses grupos compreenderam algo fundamental: sem imaginação, não há poder duradouro. E ocuparam esse espaço com axiomas, narrativas mitificadas e emocionalmente eficazes.
Paradoxalmente, enquanto isso ocorre internamente, o Brasil segue consumindo — quase sem mediação crítica — imaginários produzidos por matrizes culturais norte-americanas e europeias. Não se trata apenas de influência cultural, mas de um novo modelo de neocolonialismo simbólico, no qual abrimos mão de construir uma memória nacional compartilhada em nome de disputas internas cada vez mais autocentradas. O resultado é um país que perde a capacidade de narrar a si mesmo — e, portanto, de disputar seu lugar no mundo.
Cada memória excessivamente fragmentada, cada gesto de “farinha pouca, meu pirão primeiro” — crítica que também se aplica aos grandes editais, cada vez mais empenhados em reforçar uma competição tola e autofágica entre segmentos das minorias sociais —, cada política cultural formulada por quem nunca pisou numa periferia brasileira ou desconhece a materialidade da vida comum, contribui para a manutenção de estruturas de poder que atravessam mais de quinhentos anos. Não por ingenuidade, mas por conveniência.
Aqui reside o ponto mais incômodo: a fragmentação da memória interessa aos de sempre. Enquanto disputamos migalhas simbólicas, o centro do poder permanece intocado. Enquanto transformamos a política cultural em campo de ressentimentos cruzados, abrimos mão de disputar projeto, Estado, orçamento, soberania e futuro. A memória, quando reduzida a pedaços inconciliáveis, deixa de ser força histórica e se converte em instrumento de paralisia.
Defender uma memória coletiva, nacional — no melhor e mais exigente sentido do termo — não é negar diferenças, mas criar um chão comum a partir do qual elas possam, de fato, disputar o futuro. Porque, no fim, a memória continua sendo o que sempre foi desde o Mouseion: filha do poder e mãe da disputa. E abandonar esse campo não é neutralidade — é rendição. É entregar, mais uma vez, o comando da história aos de sempre, enquanto discutimos os fragmentos.