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A trajetória do executivo que desafiou gigantes: como Ulisses Silva construiu a Leve Saúde e redesenhou o mercado sênior no Rio

Ulisses Silva – CEO Leve Saúde (Foto: Divulgação)

Aos 59 anos, no auge de uma carreira executiva que misturava telecomunicações, turnarounds e gestão em um grande fundo de investimentos, Ulisses Silva tomou uma decisão que muitos consideraram imprudente: empreender. Não se tratava de uma startup de tecnologia em moda, mas de um plano de saúde. E no Rio de Janeiro. E a poucos dias do lockdown global de 2020. Cinco anos depois, a empresa que nasceu nesse caldeirão de incertezas, a Leve Saúde, fecha 2025 com números que forçam o mercado a repensar dogmas: R$ 720 milhões em faturamento, cerca de 100 mil vidas, uma sinistralidade de 58% (contra quase 80% do setor) e a ousada meta de se tornar, em sete anos, a maior e melhor operadora do estado.

A história de Ulisses é um mapa de navegação que costura experiências aparentemente desconexas. Começou no Rio, em 1999, no processo de privatização da Telebrás que viria a se tornar Telemar, onde aprendeu os fundamentos de gestão e operações. Em 2006, migrou para a saúde, seguindo um fluxo de executivos de telecom. Passou por Medial (futura Amil) e pela Intermédica, até assumir, em 2014, como CEO do Assim Saúde, onde conduziu um turnaround bem-sucedido. O ápice corporativo veio em 2017, no fundo Pátria, cuidando de operações de saúde. Era o momento perfeito para colher os frutos e desacelerar. Ele fez o oposto.

“Sempre tive o desejo de construir algo próprio”, diz Ulisses, em entrevista exclusiva ao DIÁRIO DO RIO. “Acreditava que o auge da carreira executiva deveria ser o ponto de partida para devolver conhecimento à sociedade.”

A semente do negócio brotou em uma visita à Kaiser Permanente – considerado um dos maiores sistemas de saúde integrados e sem fins lucrativos dos EUA – no fim de 2019. Ele viu de perto um modelo verticalizado, tecnológico e preventivo. Ao cruzar essa visão com um estudo da Accenture – que mostrava a dificuldade de pessoas acima de 45 anos, principalmente MEIs e pequenas PJs, de conseguirem planos de saúde –, nasceu o business plan da Leve.

Rede própria e compra do Hospital Israelita Albert Sabin

Enquanto concorrentes focavam em pessoas físicas acima de 59 anos ou em grandes contratos empresariais, a Leve mirou a lacuna: profissionais a partir de 45 anos, muitos autônomos ou donos de microempresas, invisíveis para o mercado tradicional. Ofereceu planos para PF, MEI e pequenas PJs. “Foi um diferencial relevante desde o início”, afirma. Outro movimento estratégico foi remunerar corretores para vender planos a clientes acima de 60 anos, uma prática então negligenciada, que revolucionou o canal no Rio.

O modelo se apoia em três pilares declarados: tecnologia, atenção primária e rede própria. Mas é na execução que a Leve impõe seu ritmo. Enquanto outros anunciam conceitos, a operadora já tem 13 clínicas próprias (meta de 20 até o fim de 2026) e está em fase final de aquisição do Hospital Israelita Albert Sabin, no Maracanã, em recuperação judicial. O objetivo é que mais de 85% das consultas ocorram dentro da rede própria, com prontuário 100% digital e integrado, controlado pelo paciente.

Números que impressionam

Os números impressionantes – crescimento de mais de 70% no faturamento em 2025, margem bruta de 33% (o dobro da média nacional) – não são frutos do acaso. O segredo, segundo Ulisses, é uma gestão aplicada desde o primeiro dia “baseada em métricas rigorosas, acompanhamento diário e práticas internacionais”. Mas o coração desse desempenho bate na prevenção. A área dedicada a isso é uma das maiores da companhia, atrás apenas da área médica. Os programas vão de acompanhamento de gestantes, saúde mental e doenças crônicas a um novo programa de emagrecimento saudável.

A estratégia de atuar antes da doença vai além das clínicas. Iniciativas como a Arena Leve – que oferece aulas gratuitas de atividades físicas em bairros do Rio, com mais de 70 mil inscrições – reforçam o compromisso com o bem-estar na base. É uma aposta de que cuidar da saúde é mais eficiente e humano do que apenas tratar a doença. A sinistralidade, mantida em torno de 60%, é uma obsessão cultural. “Deixou de ser uma crença.”

Isso permite um posicionamento ousado: não ser o mais barato, mas o de melhor custo-benefício. “Oferecemos mais serviços e cobertura do que concorrentes mais caros”, diz. O ticket médio é de R$ 800, com planos de alta cobertura respondendo por 45% das vendas. A base se concentra na Zona Oeste e Tijuca, de classe B, e estima-se que recentemente de 20 a 25% migraram de operadoras como a Unimed e Amil, em busca de alívio nos custos.

Nubank da Saúde: dados e tecnologia

Aqui, a trajetória de Ulisses em telecomunicações ecoa com força. A área de dados foi construída desde o “dia zero” em parceria com a Zeta Health, com foco em IA muito antes do boom recente. “Não é uma iniciativa reativa ao hype”, ressalta. O sistema sugere diagnósticos aos médicos durante a consulta, baseado no histórico. Em breve, o paciente receberá um resumo estruturado no app. Em eventos do setor, a Leve já é comparada ao “Nubank da saúde”.

O aplicativo, que será relançado no primeiro trimestre de 2026, é a cereja do bolo: reunirá não apenas exames, mas o prontuário médico completo. A jornada do cliente é desenhada para ser “leve”: check-in em totem, sem filas ou repetição de dados. Para um público majoritariamente 60+, a simplicidade é chave. O WhatsApp é a porta de entrada; o app, usado por mais de 80% da base para agendamentos, foi pensado para ser intuitivo até para os menos familiarizados com tecnologia.

Os desafios do crescimento acelerado: capital, giro e foco

A velocidade, porém, tem seu preço. O crescimento agressivo esbarra em dois desafios fundamentais: o alto custo de aquisição de clientes (CAC), que exige pagar a comissão ao corretor antes da rentabilidade do contrato, demandando um capital de giro relevante; e os investimentos pesados em verticalização, que consomem capital, escala e know-how.

“Enquanto algumas operadoras levaram uma década para atingir 30 mil vidas, nós chegamos a esse patamar em pouco mais de dois anos”, contextualiza Ulisses. Para navegar por essa pressão, a empresa mantém o foco estratégico inalterado: não atua, por enquanto, com grandes contratos coletivos empresariais, priorizando o controle do sinistro por meio da expansão da rede própria. É uma aposta na qualidade sobre o volume indiscriminado.

Com cerca de 850 colaboradores hoje – número que deve saltar para 1.400 com a incorporação do hospital –, a Leve é movida por um time executivo de primeira linha, com trajetória em grandes operadoras. Incentivos de longo prazo alinham seus interesses ao crescimento sustentável. Essa busca por solidez se reflete na relação com os médicos. A remuneração segue as práticas de mercado, mas o diferencial está na pontualidade e previsibilidade dos pagamentos, tratadas como valores centrais. É uma reputação que a empresa cultiva cuidadosamente, entendendo que a confiança do corpo clínico é um ativo intangível poderoso.

A visão de futuro: do Rio para o Brasil

O futuro imediato tem dois endereços: a consolidação no Rio e a expansão para Curitiba, a partir de março de 2026, um teste crucial para replicar o modelo. No Rio, o plano é agressivo: unidades de pronto atendimento na Barra, Campo Grande, Niterói, Baixada e Centro em três anos, e um hospital na Barra.

Ao final da conversa, a convicção do fundador ecoa como uma promessa: “No Rio de Janeiro, nós seremos a maior empresa. Isso eu tenho certeza. Em 7 anos seremos o principal plano de saúde do Estado”. E, sobre o próprio futuro, completa: “Eu nunca vou parar. Nesses últimos 5 anos da Leve, tive uma evolução pessoal e profissional muito grande. Isso só me dá mais energia para seguir empreendendo”.

Mais do que uma operadora, Ulisses Silva construiu uma máquina de execução que desafia a inércia de um setor maduro. Seu plano de saúde “com DNA carioca” não é só um negócio. É a materialização de uma trajetória que escolheu o ponto mais alto da carreira não para descansar, mas para decolar – apostando que saúde de qualidade pode, sim, ser um serviço leve, tecnológico e, acima de tudo, preventivo.

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