quinta-feira, 16 de abril de 2026 - 2:19

A vez e a voz do Morro

Rafaello Ramundo, Produtor cultural, fundador e diretor de Criação da Novo Traço

Desde o lançamento do livro “Cidade Partida”, do grande Zuenir Ventura, o Rio de Janeiro vive e respira este insight genial do título da obra. O termo que dá nome ao livro é hoje um perfeito resumo do que é nossa cidade. E com efeito: já fomos mar e montanha, hoje somos asfalto e favela. Sei que o genial autor, também de “1968 – O ano que não terminou”, não quis simplificar deste jeito o termo que ele mesmo criou. Mas hoje temos de reconhecer: a favela, para o asfalto, é um problema e, para os seus moradores, é solução. Como fazer dela a solução para todos, para toda a cidade?

Tentativas de integração não faltaram — como o premiado Favela-Bairro, de 1993, e a iniciativa das Unidades de Polícia Pacificadora (2008). Em todas as iniciativas, há — não sem razão — como força motriz uma certa vontade de transformação da favela, seja por razões estético-urbanas, seja por razões de segurança pública. É como se o asfalto e a favela fossem cônjuges que volta e meia se desentendem, e apenas o primeiro dissesse “toma jeito” para a segunda. Um erro que insistimos em cometer. Pedimos a transformação, mas não queremos ser a mudança que propomos para o mundo.

Só que essas são transformações sempre propostas por quem está no asfalto — e cada vez mais vejo que é a hora de ouvir a voz do morro (obrigado, Zé Kéti), entender que a transformação para melhor vai partir de seus próprios moradores, dos que lá nasceram. Não se trata apenas de o asfalto subir ou de o morro descer: trata-se de criar mais e mais canais de interação e conexão entre as culturas dos dois universos. Até que sejam um só.

Quando fundei a Novo Traço em 2008, eu já pensava na criação desses canais, no fluxo de informação, cultura e linguagem que torna o Rio uma cidade única. Quem conhece a Novo Traço sabe que não somos apenas uma produtora de eventos culturais — mais que isso, queremos gerar e participar de momentos inesquecíveis. A Novo Traço cria sensações de pertencimento para quem vai a nossos shows — mas nós temos a sensação de pertencermos ao Rio e ao Brasil, um sentimento cada vez mais nítido. E neste ano tivemos mais um motivo para aumentar essa emoção, com o Jazz Proibidão, nosso evento que mistura tendências e desperta novos formatos, tudo capitaneado pelo genial jazzista Josiel Konrad, ele próprio uma mistura de tudo: nasceu na Baixada, é evangélico, mora em Santa Teresa e estudou em Quintino. Se mandássemos uma cápsula para o espaço infinito a fim de mostrar para civilizações desconhecidas o que é o Rio de Janeiro, eu juro que escolheria colocar lá dentro um vinil (sim, vinil) do Josiel Konrad.

Na noite desta sexta-feira (17 de outubro) estaremos todos lá na Arena Samol, no Morro da Providência, para ver Josiel tocar e mostrar sua arte. Teremos a felicidade de ter ao lado moradores do morro e do asfalto. Teremos diversas outras atrações dentro do Festival Jazz Proibidão. Se a cidade um dia partiu, Josiel está tentando colar os cacos. O som que ele faz não deixa dúvidas quanto a isso. E ver tudo acontecer no Morro da Providência é algo histórico, também pelo fato de ser a primeira favela do Rio. O Jazz Proibidão subiu o morro. Subiu? Ou sempre esteve lá? Sim, porque no jazz americano tivemos tantos de origem pobre, humilde — tal como Louis Armstrong, que esteve em um reformatório, Ella Fitzgerald, que morou em orfanatos depois que o pai abandonou sua família —, e tantos outros. O jazz é a expressão dessa luta por espaço em uma sociedade marcada pela exclusão.

E quem diria que, no fim das contas, a resposta para o dilema proposto por Zuenir Ventura estaria… na música? Tenho certeza de que ele próprio concordaria. A transformação da favela pode acontecer, sim, desde que toda a cidade se transforme junto. Entreguemos esta tarefa aos que fazem a cultura — a História mostra que sempre deu certo. Vamos, portanto, ouvir a História — e o Jazz Proibidão!

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