
A prisão do presidente da Alerj, Rodrigo Bacellar (União Brasil), decretada pelo ministro Alexandre de Moraes, abriu uma disputa imediata no Legislativo fluminense. Lideranças de três partidos ouvidas pelo GLOBO avaliam que o plenário tende a revogar a prisão, mas divergem sobre o futuro político de Bacellar caso deixe a cadeia. A principal dúvida é se ele poderá reassumir a presidência da Casa — e um precedente de 2017 indica que não.
A decisão de Moraes determinou apenas o afastamento da presidência, sem mencionar perda de mandato. Ainda assim, há na Assembleia quem considere que a cadeira deve ser ocupada pelo vice-presidente, Guilherme Delaroli (PL), aliado de Bacellar. Ontem, na ausência do presidente, Delaroli comandou a sessão e evitou qualquer menção ao assunto.
O prazo para que a Casa seja oficialmente notificada termina hoje. Depois disso, o regimento concede 48 horas para Bacellar apresentar defesa à Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), que tem mais um dia para emitir parecer. Em seguida, o plenário decide, por votação aberta, se mantém ou derruba a prisão.
O líder do PSB, deputado Carlos Minc, defende uma nova eleição caso a detenção seja confirmada. “A Assembleia tem que chamar nova eleição de presidente se a prisão for mantida”, afirmou. Para ele, soltar Bacellar às vésperas do julgamento do caso Ceperj pode ampliar o desgaste: “Isso pode ter influência contrária aos acusados no julgamento”.
O precedente Picciani
A discussão sobre sucessão remete a novembro de 2017, quando o TRF-2 afastou o então presidente da Alerj, Jorge Picciani, durante a Operação Cadeia Velha. Na época, o entendimento foi de que não havia vacância — apenas afastamento — e o posto passou automaticamente ao primeiro vice, Wagner Montes. Com a licença de Montes, assumiu o segundo vice, André Ceciliano, que permaneceu no comando até 2018, sem nova eleição.
A lógica adotada à época pode ser replicada agora. Reservadamente, dirigentes de dois partidos enxergam caminho para que Delaroli se torne presidente em exercício até o fim do mandato, mesmo que Bacellar seja solto.
Queda de braço no PL
Nos bastidores, porém, há quem considere que Delaroli “não tem perfil” para se manter à frente da Alerj. O PL já trabalha para emplacar outro nome: o atual secretário estadual de Cidades, Douglas Ruas, licenciado do mandato de deputado estadual.
Ruas é próximo do deputado federal Altineu Côrtes, presidente do PL no Rio, e tem influência em São Gonçalo, governado por seu pai. Delaroli, por sua vez, tem sua base em Itaboraí, administrada por seu irmão. A briga interna é vista como peça-chave no redesenho do poder da Assembleia.
O impacto na sucessão de Cláudio Castro
Para caciques da Casa, a prisão de Bacellar mexe diretamente nos planos do governador Cláudio Castro (PL). Se quiser concorrer ao Senado, Castro precisa deixar o cargo até abril de 2026, o que obriga a Alerj a eleger um governador-tampão para conduzir o estado até o fim do mandato.
Antes da prisão, aliados temiam que Bacellar, rompido com Castro, controlasse o processo. Com a possibilidade de um sucessor alinhado ao governador assumir a presidência, esse cenário muda.
Hoje, a preferência de Castro para o posto temporário é o secretário de Casa Civil, Nicola Miccione, nome de confiança do Palácio Guanabara e que mantém diálogo aberto com o prefeito Eduardo Paes, provável candidato ao governo em 2026.
Ruas, favorito do PL para presidir a Alerj numa eventual sucessão, também tem boa relação com Paes, o que pode facilitar um pacto de não agressão entre governo estadual e prefeitura.