
O aluguel de curto prazo no Rio de Janeiro deixou de ser um complemento de renda tímido para virar um negócio profissionalizado. Com a força de plataformas como Airbnb e Booking, surgiram empresas especializadas em gestão de propriedades, a exemplo da carioca Omar do Rio, que administra centenas de imóveis voltados exclusivamente para turistas e viajantes.
Esse crescimento não é pequeno. Dados do Secovi Rio mostram que o segmento avança cerca de 20% ao ano e já ocupa um espaço relevante no mapa do turismo da cidade. O avanço rápido, porém, também acendeu o alerta da indústria hoteleira e alimentou o debate sobre o impacto do modelo nos preços dos aluguéis residenciais.
O boom em números
Um levantamento do Secovi Rio (Sindicato da Habitação) ajuda a dimensionar o fenômeno:
- Oferta: em março de 2025, o Rio tinha 25 mil imóveis de temporada disponíveis;
- Crescimento: alta de 18,1% em relação ao ano anterior;
- Impacto econômico: segundo o Airbnb, a plataforma gerou R$ 2,9 bilhões em renda adicional para negócios locais na cidade, incluindo restaurantes, comércio e transporte.
Na prática, o aluguel por temporada virou uma engrenagem da economia urbana, movimentando desde pequenos proprietários até empresas de limpeza, manutenção e gestão profissional de imóveis.
A batalha chega à Câmara Municipal
O aumento da oferta e a falta de regras específicas colocaram o tema na pauta da Câmara Municipal do Rio. Um projeto de lei busca definir parâmetros para a atividade, e a discussão expôs dois blocos bem definidos:
De um lado, o setor hoteleiro, representado pelo HotéisRIO, cobra regras mais rígidas. Alega concorrência com tributação desigual, riscos para a convivência em condomínios residenciais e a necessidade de garantir padrões mínimos de qualidade.
“Se o proprietário não toma cuidado, o turista sai com uma experiência ruim. Tem que ter regulação”, afirma Alfredo Lopes, presidente do HotéisRIO.
Do outro lado, plataformas e gestores de imóveis, organizados em entidades como a ABLT, defendem que o aluguel por temporada já é disciplinado pela Lei do Inquilinato, em nível federal. Para esse grupo, eventuais proibições e restrições municipais esbarrariam no direito de propriedade e poderiam sufocar uma modalidade que, segundo eles, democratiza o turismo, ajuda a absorver a demanda em grandes eventos – como Réveillon e Carnaval – e distribui renda em diferentes bairros.
Pressão sobre o aluguel residencial
A disputa não fica restrita ao embate entre hotéis e plataformas. Um dos pontos mais sensíveis é o impacto para quem mora de forma fixa em regiões turísticas do Rio.
Bairros como Copacabana e Ipanema concentram boa parte dos imóveis anunciados para temporada. A hotelaria e especialistas em mercado imobiliário argumentam que a conversão de apartamentos residenciais em unidades para turistas reduz a oferta de moradia de longo prazo e ajuda a pressionar os valores dos aluguéis tradicionais.
Números do FGV Ibre mostram que a inflação do aluguel no Rio, medida pelo IVAR, acumulou alta de 8,45% em 12 meses até outubro de 2025 — bem acima da média nacional, de 5,58%, e de cidades como São Paulo. O estudo não aponta um único fator determinante, mas a alta demanda turística e a rentabilidade maior do aluguel de curta duração entram no radar como um dos elementos que ajudam a empurrar preços para cima.