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Araras-canindés voltam a sobrevoar o Rio após mais de 200 anos de extinção local

Foto: Flavia Zagury/Refauna – Divulgação

Há mais de 200 anos, as araras-canindés (Ara Ararauna) voavam livres no céu do Rio de Janeiro, carregando as cores da bandeira do Brasil pela Mata Atlântica, bioma que abriga mais de 145 milhões de brasileiros. Agora, três araras-canindés retornam para onde sempre foi o seu lar. Irão viver livres e cumprir um papel fundamental: ajudar na restauração ecológica da Mata Atlântica do Rio de Janeiro. Fernanda, Fátima e Sueli, que chegaram ao Parque Nacional da Tijuca em junho de 2025, ganharam a liberdade no último dia 7 de janeiro.

A iniciativa é realizada pelo Refauna, uma Organização da Sociedade Civil (OSC) brasileira, com o apoio do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e de diversos parceiros. O envolvimento de todos esses atores representa um trabalho em conjunto que focou, nos últimos sete meses, na aclimatação e na adaptação como processos fundamentais para viabilizar esta reintrodução. Desde junho, quando chegaram no Parque Nacional da Tijuca trazidas do Parque Três Pescadores (Aparecida, SP), elas permaneceram em um recinto apropriado, reconhecendo o ambiente que foi a casa de seus ancestrais.

Nesse período, passaram por um treinamento gradual, porém intenso, para desenvolver musculatura e aprimorar as habilidades de voo. Aprenderam a evitar a presença humana e iniciaram uma transição alimentar para reconhecer os frutos nativos da floresta onde vão viver. Também foram monitoradas a interação social e as condições físicas de cada animal.

Desde o início, a chegada e a soltura desses animais são resultado de um trabalho coordenado que envolveu exames sanitários constantes, seleção comportamental e extremo cuidado com o bem-estar de cada indivíduo. É por causa do foco na saúde desses animais que uma quarta arara, batizada de Selton, que chegou no Parque em 2025 junto com as demais e passou por esse ritual, ainda vai aguardar mais um pouco para voar em liberdade. Ele está passando por uma troca de penas e, enquanto esse ciclo não se completa, existe o risco dele não conseguir realizar voos com segurança.

As araras foram liberadas com anilhas, microchips e colares de identificação e serão monitoradas pela equipe do Refauna. Essa estratégia já foi testada e usada em outros projetos de monitoramento, como o do Instituto Arara-Azul. O monitoramento em vida livre se dará também a partir dos relatos e informações enviadas pela sociedade. A participação ativa de pessoas coletando e disponibilizando dados é conhecida como Ciência Cidadã, e pode ser exercida por qualquer um que tenha interesse em contribuir. Isso pode ser feito por meio do envio de informações para o Instagram do Refauna ou para o WhatsApp  (21 96974-4752) que visa facilitar o contato direto com moradores do entorno do parque.

Outro instrumento para o monitoramento participativo é o SISS-Geo, um aplicativo gratuito de registro da fauna silvestre, desenvolvido pela Fiocruz. Nele, é possível enviar fotos e informações quando uma das araras for avistada, mesmo sem sinal de internet: o aplicativo armazena a imagem e a coordenada GPS e envia o dado automaticamente assim que a conexão for reestabelecida. No caso das araras, essa abordagem cidadã é amplificada por permitir uma cobertura geográfica que nenhuma equipe de pesquisadores conseguiria sozinha e por garantir um fluxo contínuo de dados, possibilitando que gestores de parques e biólogos tomem decisões baseadas no que está acontecendo no momento.

Além disso, os pesquisadores do Refauna já começaram a interlocução com observadores de aves no Rio e estudam realizar cursos de formação com guias que atuam dentro do Parque Nacional da Tijuca, como forma de promover a educação ambiental. É importante reforçar que, caso a equipe de pesquisadores do Refauna identifique qualquer risco à saúde ou à adaptação das aves, está prevista a possibilidade de recaptura para manejo, tratamento ou ajustes no processo de reintrodução.

Fernanda, Fátima e Sueli são pioneiras, mas não serão as únicas. Selton deverá receber, ainda em 2026, a companhia de mais dois ou três casais da mesma espécie. Atualmente, esses animais estão passando por exames sanitários e pela aprovação de toda a documentação necessária, etapas que vem evoluindo positivamente, de acordo com o Refauna. A expectativa é que a reintrodução dessa segunda leva de araras possibilite também a reprodução, o que vai permitir a consolidação do retorno dessas aves. A iniciativa prevê uma ampliação gradual do projeto, com a meta de alcançar a reintrodução de 50 araras-canindés ao longo de cinco anos.

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