quinta-feira, 15 de janeiro de 2026 - 12:52

  • Home
  • Rio de Janeiro
  • Bola de canhão da invasão francesa ao Rio reaparece em leilão e é vendida por apenas R$ 2.205

Bola de canhão da invasão francesa ao Rio reaparece em leilão e é vendida por apenas R$ 2.205

A história do Rio de Janeiro tem dessas ironias que o tempo enterra e, vez ou outra, devolve à superfície como quem pisca para quem sabe olhar. Em Campinas, a centenas de quilômetros da Baía de Guanabara onde o destino do Brasil colonial quase mudou, uma casa de leilões colocou à venda — e viu ser arrematada por apenas R$ 2.100, valor que sobe para R$ 2.205 com a taxa legal de 5% — uma autêntica bola de canhão francesa usada na invasão de 1711, comandada pelo corsário René Duguay-Trouin a mando de Luís XIV, o Rei Sol. A peça foi arrematada dia 3/12.

Marcada, pesada e silenciosamente acusadora, a peça exibe gravado o nome “FRANCE”, o que a transforma em testemunho direto de que aqueles piratas que incendiaram o Rio não eram aventureiros soltos, mas agentes oficiais do Estado francês. Poucos objetos sobrevividos à guerra colonial têm esse grau de identificação, o que torna ainda mais curioso — e simbólico — que tenha sido vendida por um preço tão modesto.

Screenshot

Segundo o registro da Dargent Leilões, a bala foi encontrada na década de 1950 durante uma escavação próxima ao Mosteiro de São Bento, pelo geólogo Antonio Carlos Muniz, do Instituto Agronômico de Campinas. É comovente imaginar que o projétil que um dia aterrorizou monges, soldados e moradores tenha permanecido enterrado por séculos, até ressurgir para o mercado como quem pede para voltar à narrativa da cidade. O achado arqueológico, até mesmo pela foto, impressiona pela sua história tão rica e intrinsecamente ligada ao Rio.

De ferro fundido, com 17 cm de diâmetro e 14,93 kg, a bola pertence ao tipo exato de munição utilizada na ofensiva de 1711, quando 17 navios de guerra franceses, surgidos de surpresa na noite de 11 de setembro, invadiram a baía sob névoa, vento favorável e pânico generalizado. O Forte de Villegagnon foi explodido, a Ilha das Cobras caiu no dia seguinte, e tropas desembarcaram no Saco dos Alferes e na Praia Formosa enquanto a população fugia para o interior. O Rio, então uma cidade de 12 mil almas, foi submetido, saqueado e chantageado: Duguay-Trouin exigiu resgate de dois milhões de libras, ameaçando incendiar tudo caso não fosse pago.

Ver hoje um fragmento desse episódio histórico — inteiro, pesado, autêntico, timbrado — sendo adquirido por R$ 2.205 causa um certo sobressalto. É o preço de um eletrodoméstico, de um jantar mais sofisticado, de uma moldura bem feita. E, no entanto, trata-se de um artefato militar que fez parte da única vez em que a capital brasileira de então foi formalmente conquistada e ocupada por uma potência estrangeira. Uma venda emblemática, e sem dúvida inesperada.

Em uma cidade que costuma perder, reencontrar e esquecer suas relíquias, esse ressurgimento discreto num leilão paulista tem algo de poético. A bala de canhão que um dia sacudiu o alto de São Bento agora repousa, domada, no acervo de um comprador anônimo — e sua sobrevivência nos lembra, mais uma vez, que a história do Rio está espalhada por aí, escondida em gavetas, quintais, escavações e, às vezes, em catálogos de leilão que poucos leem.

Uma bala de canhão mais célebre foi protagonista do chamado “Milagre da Rua do Ouvidor”, e recebe milhares de visitantes todos os meses na sacristia da histórica Igreja de Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores, na rua do Ouvidor, onde repousa ao lado da imagem milagrosa da Fé que foi por ela atingida durante a revolta da armada de 1893, tombou de 25 metros de altura e quebrou apenas 2 dedinhos. Na época, os irmãos da tricentenária Irmandade dos Mercadores, depois de ter a torre da sua igreja destruída, recolheram a bala de canhão – dita primeira bala perdida do Rio – e a colocaram em exposição.

Resta imaginar o que mais ainda dorme sob o solo da Guanabara, esperando a próxima pá, o próximo acaso — ou o próximo colecionador atento.

Receba notícias no WhatsApp e e-mail

Clique aqui para acessar a Fonte da Notícia

VEJA MAIS

Secretaria de Defesa dos Animais resgata 14 gatos em apto insalubre na Praça Seca

Titular da SMPDA, Luiz Ramos Filho, pede que as pessoas adotem animais da Fazenda Modelo…

Morre Arlindo de Souza, conhecido como “Popeye Brasileiro”

Aos 55 anos, morreu o olindense Arlindo de Souza, conhecido como Popeye Brasileiro. Arlindo ficou…

Casa & Video consegue proteção de 60 dias contra credores no Rio e se aproxima de recuperação judicial

Foto: Reprodução da internet O grupo que controla as varejistas Casa & Video e Le…

Ir para o conteúdo