Antônio Sá
Fiscal de Rendas aposentado do Município do Rio de Janeiro, Ex-Subsecretário de Assuntos Legislativos e Parlamentares do Município do Rio de Janeiro Bacharel em Direito e Economia.
Este artigo tem como objetivo destacar a relevância internacional dos quadrinhos brasileiros por meio de sua presença em um dos mais importantes eventos europeus dedicados à nona arte: o Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora, em Portugal. A partir da participação de artistas consagrados, o texto também propõe uma reflexão sobre o lugar da produção brasileira no cenário global, contextualizando-a em meio às diferentes tradições culturais que nomeiam, produzem e consomem quadrinhos ao redor do mundo. É, portanto, um convite à valorização da arte sequencial brasileira dentro de um circuito internacional cada vez mais atento à diversidade de vozes e estilos.
A Arte Brasileira Ganha Destaque no Maior Festival de Quadrinhos de Portugal
O Amadora BD 2025, o mais importante festival de quadrinhos de Portugal, acontece de 23 de outubro a 2 de novembro de 2025, em três espaços culturais da cidade da Amadora:
- Núcleo Central – Parque da Liberdade
- Galeria Municipal Artur Bual
- Bedeteca da Amadora (Biblioteca Fernando Piteira Santos)
Nesta 36ª edição, o Brasil terá presença de gala com uma exposição individual de Fábio Moon & Gabriel Bá, consagrados internacionalmente por obras autorais e colaborações com editoras de renome mundial.
Saiba mais sobre esse Festival no seguinte sítio:
https://amadorabd.com
A Origem do Nome “Banda Desenhada” e a Diversidade Cultural dos Quadrinhos
O nome oficial do evento é Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora, ou, em português europeu, simplesmente Amadora BD. O termo “BD” é uma abreviação muito utilizada em Portugal para se referir ao que, no Brasil, chamamos de quadrinhos ou histórias em quadrinhos.
A expressão “banda desenhada” é a forma tradicional com que os portugueses nomeiam essa arte sequencial. O termo surgiu como uma forma de descrever a justaposição de desenhos em sequência — ou seja, “bandas” de imagens que contam uma história. É uma nomenclatura próxima à utilizada na França e na Bélgica francófona, onde os quadrinhos são chamados de “bande dessinée” (literalmente, “faixa desenhada”).
Essa influência francófona é particularmente marcante no mundo lusófono, e o Amadora BD — criado em 1990 — sempre manteve esse nome em reconhecimento à tradição europeia da arte dos quadrinhos.
Como os quadrinhos são chamados ao redor do mundo:
- Brasil: quadrinhos ou histórias em quadrinhos (HQ)
- Portugal: banda desenhada (BD)
- França e Bélgica: bande dessinée
- Japão: mangá
- Coreia do Sul: manhwa
- China: manhua
- Estados Unidos: comics
- Itália: fumetti
- Alemanha: comics ou bildergeschichten
- Espanha: tebeo
- Argentina/México: historietas
Essa diversidade de nomes mostra como a linguagem dos quadrinhos é universal, ainda que cada cultura a interprete, leia e nomeie de forma única. E é justamente essa riqueza cultural que se celebra no Amadora BD — um festival que, mesmo com nome em português, fala todas as línguas do mundo dos quadrinhos.
Programação do Festival e a Participação Brasileira de 2025
Núcleo Central (Parque da Liberdade):
- 14 exposições, incluindo a de Fábio Moon & Gabriel Bá, além de Paco Roca e Luís Louro
- Mostras comemorativas de grandes ícones: Zé Povinho (150 anos), Spirit (85 anos), Peanuts (75 anos) e Liga da Justiça (65 anos)
- Sessões de autógrafos e a “Hora da BD” de segunda a quinta-feira, das 18h às 20h, com descontos em livros
- Espaço gamer e experiências interativas com realidade virtual, cosplay e jogos
Galeria Municipal Artur Bual:
- Exposições retrospectivas com foco em artistas portugueses contemporâneos
Bedeteca da Amadora:
- Destaque para o álbum Amor, de Filipa Beleza, vencedor do Prémio Revelação 2024
Concursos e prêmios:
- Concurso escolar com o tema “Sorri, és um Super-Herói!”
- Concurso para jovens autores de 12 a 30 anos com o tema “O Humor na Banda Desenhada”
- Entrega dos Prémios de Banda Desenhada da Amadora (PBDA), com premiação de 5 mil euros à melhor obra nacional
Fábio Moon & Gabriel Bá: Os Gêmeos que Encantam Portugal
Fábio Moon e Gabriel Bá, irmãos gêmeos paulistanos nascidos em 5 de junho de 1976, são dois dos nomes mais respeitados dos quadrinhos brasileiros.
Trajetória e reconhecimento internacional:
Começaram com o fanzine 10 Pãezinhos e rapidamente chamaram atenção da crítica e do público com projetos autorais e colaborações internacionais.
Obras de maior destaque:
- Daytripper — Vertigo, 2010 — Eisner de Melhor Minissérie, 2011
- Dois Irmãos — adaptação do romance de Milton Hatoum — Eisner, Harvey e HQ Mix
- The Umbrella Academy — série criada por Gerard Way, ilustrada por Gabriel Bá — sucesso mundial na Netflix
- Colaborações em Casanova, B.P.R.D., PIXU e outras obras aclamadas
No Amadora BD 2025:
Sua participação será celebrada com exposição individual no Núcleo Central do Festival, confirmando o lugar da dupla entre os grandes artistas globais da nona arte.
Relembrando os Brasileiros Premiados em Anos Anteriores
Marcello Quintanilha – Vencedor em 2016 e presença em 2023
Autor de Tungstênio, Talco de Vidro, Hinário Nacional e Escuta, Formosa Márcia, Quintanilha é um nome de destaque no realismo gráfico e narrativo.
Marcelo D’Salete – Destaque no Amadora BD 2024
Criador de Cumbe, Angola Janga e Mukanda Tiodora, D’Salete é referência em narrativas de resistência negra e venceu o Eisner com Run for It.
Quando Portugal Abraça os Quadrinhos do Brasil
A presença de Fábio Moon & Gabriel Bá no Amadora BD 2025 confirma o que o público europeu já sabe há anos: os quadrinhos brasileiros vivem um momento de ouro.
Os irmãos gêmeos trazem para Portugal o talento narrativo que os levou dos fanzines paulistanos aos prêmios mais prestigiados do mundo. E, embora Quintanilha e D’Salete não estejam nesta edição, suas passagens anteriores consolidaram o caminho para que o Brasil seja sempre um nome forte na programação do festival.
Seja com histórias de vida e morte, com a resistência dos quilombos ou com o cotidiano de uma enfermeira em uma favela carioca, o quadrinho brasileiro pulsa, emociona, questiona — e, agora, brilha de novo na Amadora.
É a arte brasileira, com sotaque, memória e coragem, conquistando espaço e respeito no coração de Portugal.
