quarta-feira, 20 de maio de 2026 - 6:36

Brasil, um país à deriva: a crise da liderança

Foto: @rafaelribeirorio I CBF

O Brasil está classificado para a Copa do Mundo. Sob a liderança de Carlo Ancelotti, um italiano calmo, técnico e discreto, a seleção reencontrou não apenas o caminho das vitórias, mas algo mais raro: um padrão de jogo. Em poucas partidas, o Brasil mostrou organização, intensidade, criatividade e, acima de tudo, confiança. Um time que defende junto, ataca com leveza e escuta seu comandante. Algo que não se via há tempos.

A chegada de Ancelotti, com sua experiência e liderança serena, contrasta de maneira quase brutal com a sequência recente de treinadores brasileiros — Tite, Diniz, Dorival e Ramon Menezes. Nenhum deles é despreparado. Ao contrário: são estudiosos, conhecedores do jogo. Mas fracassaram: resultados medíocres e times apáticos. Não por falta de técnica, talvez, mas por ausência de liderança autêntica. A crise da seleção é, em verdade, um retrato de algo maior: a crise da liderança brasileira.

Vivemos um tempo estranho. O Brasil parece um barco à deriva, sem leme, sem bússola, sem comandante. A política virou um jogo de sobrevivência. Os que ocupam o poder, em vez de inspirar confiança, despertam total desconfiança. De um lado, temos um presidente que retorna ao cargo após ser preso por corrupção, liberto não por absolvição, mas por decisões jurídicas que desfazem condenações sem negar os fatos. Do outro, líderes opositores atolados em investigações sobre uma trama de golpe que, se houve, não teve nem força nem clareza. Uma divisão entre um grupo caracterizado pela corrupção e governos com muitos gastos e impostos e de outro lado o grupo que não é acusado de corrupção, mas sim de não aceitar as urnas e por isso uma suposta e delirante narrativa de lança verde amarela.

Ambos os polos têm algo em comum: a mediocridade moral e a fluidez dos princípios. São líderes que abandonam aliados quando o custo político aperta, que adaptam seus discursos como quem troca de roupa. A polarização, longe de oferecer visões de país, nos mergulha numa guerra de torcidas. Ninguém ouve. Todos gritam. E nessa gritaria, não há projeto de nação, apenas slogans populistas.

O Congresso, por sua vez, não lidera: se acomoda. Representa interesses paroquiais, bancadas financiadas, clãs familiares que se reproduzem como pragas. O velho coronelismo das capitanias hereditárias agora veste terno e usa redes sociais. A fórmula segue a mesma: os fins justificam os meios. O poder justifica qualquer aliança. Os líderes traem os acordos e se submetem ao judiciário com covardia vergonhosa. Incrível como se omitem de pautar ações de defesa dos congressistas e dos brasileiros.

O Judiciário, que deveria guardar a Constituição, parece cada vez mais fascinado pelo palco. Cria normas onde a lei não alcança, interpreta à luz das próprias vaidades, julga com o código criativo em uma mão e a conveniência oportunista na outra. O Estado se desfaz em tribunais midiáticos, onde se condena opinião, piadas, interpretação de conversa de bar. As futuras gerações vão escrever essa história como um tempo de abusos.

Nos militares, a esperança da reserva moral cedeu ao pragmatismo. O “braço forte, mão amiga” hoje parece tímido, confuso, talvez cooptado. A farda virou figurante de um enredo que já não honra a pátria.   Os artistas, intelectuais e acadêmicos? Os jornalistas? Encolhidos. Ou vendidos. Ou silenciados. Muitos trocaram a autonomia crítica por aplausos fáceis e verbas públicas. Os que resistem são minoria — e muitas vezes marginalizados. A educação, que deveria formar líderes do amanhã, está sucateada, fragmentada, politizada até o osso. O professor virou sobrevivente. A sala de aula virou palco ideológico ou algumas poucas ainda são trincheira moral.

E os esportes, a mídia, a música? Também se curvam à lógica do mercado, da lacração ou da omissão. Os que poderiam ser vozes de consciência se tornaram ecos do algoritmo. Falta coragem, falta grandeza, falta alma.

E o povo? O povo sente. Sabe que algo está errado. Percebe o vazio. Falta alguém que inspire, que aponte o Norte, que una sem calar, que guie sem manipular. Um líder de verdade. Não um gestor de planilha, não um marqueteiro de rede social. Alguém que assuma o peso da responsabilidade. Que olhe nos olhos. Que saiba dizer “não sei” com humildade, e “vamos por aqui” com firmeza.

O Brasil está exatamente como a seleção estava: perdido, desacreditado, sem esperança. Tem todo o potencial para ser a melhor seleção do mundo (ou o melhor pais). Mas sem líderes, fica à deriva.  É preciso que pessoas altruístas e inteligentes, possam assumir com paciência e perseverança, destravar esse sistema maldito instalado e aos poucos dar nova confiança ao povo.
Foi isso que fez Ancelotti. Com sobriedade, com visão, com autoridade sem gritaria. Com resultados. Ele mostrou que liderança não é mágica nem milagre: é coerência, exemplo e direção.

Talvez essa seja a oração que devamos fazer hoje: que Deus envie bons líderes, como um Moisés moderno, que atravesse o deserto sem se deslumbrar com os palácios do faraó. Que fale a verdade, que enfrente o erro, que seja ponte em vez de muro. Alguém que lidere não para dominar, mas para servir.

Porque o Brasil é grande demais para viver com líderes tão pequenos. E um povo tão generoso não merece vagar no escuro sem quem lhe acenda a luz.

E que venha logo esse novo tempo, 2026 está aí, como uma oportunidade para trocar modelos populistas por uma proposta de coesão. Projetos que façam nossa nação brilhar e crescer com mais justiça social. E o time canarinho também tenha um ano vencedor.

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