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“Bronca Real”: raridade da história do Rio reaparece em leilão em São Paulo

Um dos documentos mais curiosos e raros da história administrativa do Rio de Janeiro vai reaparecer, não em nossa cidade, mas em São Paulo. Trata-se de uma carta de reprimenda da Rainha Dona Maria I, lavrada em 2 de setembro de 1799, dirigida ao então administrador do correio da Capital, Antonio Rodrigues da Silva, e hoje pertencente ao acervo da tradicional Fazenda Santa Thereza, no interior paulista. A peça fará parte da segunda etapa do leilão do acervo da propriedade — evento que ocorre nos dias 2, 3 e 4 de dezembro de 2025, promovido pela D’Argent Leilões, de Campinas.

O documento chega ao século XXI acompanhado de uma imponente moldura em madeira entalhada, brunhida a ouro e adornada com as armas portuguesas. Mais do que um ornamento, a moldura se converte quase numa extensão da própria história: símbolo de um período em que o Rio de Janeiro era o centro administrativo do Império Português no Atlântico Sul.

Uma bronca real que atravessou 226 anos e conta um pedaço do Rio colonial

Segundo o texto transcrito pelos organizadores do leilão, a carta foi assinada, por impossibilidade da soberana, pelo então poderoso Conde de Rezende, Vice-Rei do Brasil. Nele, a Rainha manda comunicar, com severidade, as falhas de administração no correio da cidade — órgão fundamental no Rio do fim do século XVIII, responsável pela circulação de ordens régias, correspondências oficiais e comunicações estratégicas entre as capitanias.

O trecho central é categórico. A Rainha declara que, devido a “má administração” e omissões na escrituração, seria necessário impor um novo método de registro e arrecadação. O texto ordena que todos os oficiais passem a observar, “inviolavelmente o método estabelecido”, sob pena de castigos e repreensões.

Para os estudiosos, trata-se de uma das raríssimas peças administrativas relacionadas à estrutura do Estado português no Rio antes da chegada da Corte, em 1808. O episódio, narrado no catálogo, indica que Antonio Rodrigues chegou a ser acusado de desvios de recursos e de falhas contábeis — denúncia que alcançou o próprio Príncipe Regente (futuro Dom João VI).

A carta, escrita pelo Conde de Rezende em nome da Rainha / Foto: Divulgação D’Argent

Por que essa carta interessa tanto ao Rio?

Porque ela retrata o funcionamento do cotidiano administrativo da cidade numa época de profundas transformações. Estamos falando de:

  • Um Rio de Janeiro ainda colonial, mas já centro político do Brasil português;
  • Um serviço de correios essencial para a comunicação entre as capitanias;
  • O pulso de uma burocracia que preparava, sem o saber, o terreno para a vinda da Corte e para a modernização acelerada da cidade;
  • E, claro, o estilo severo da administração régia nos anos finais do reinado de Dona Maria I, conhecida como “a piedosa” até a chegada da república, quando recebe a alcunha de “a louca”.

O documento é, portanto, um fragmento direto e autêntico da formação do Rio como capital política e administrativa.

O acervo da Fazenda Santa Thereza e sua ligação com o Império

A carta integra o extenso acervo da Fazenda Santa Thereza, propriedade histórica ligada a tradicionais famílias paulistas e mineiras — entre elas os Monteiro de Barros, Machado Portella, Mello Franco, Silva Prado e Gonçalves de Morais.

Fundada no auge do ciclo do café, a fazenda atravessou momentos decisivos da história do país: a proclamação da República, as crises da lavoura, a Revolução Constitucionalista e a decadência do complexo cafeeiro. Seu acervo reúne desde mobiliário do século XIX até documentos imperiais, como o retrato do próprio Dom Pedro II, homenageado no leilão pelo bicentenário de seu nascimento.

Uma chance rara para colecionadores e instituições cariocas

Peças desse tipo, diretamente relacionadas ao Rio de Janeiro do século XVIII, raramente aparecem no mercado — e quando surgem, são rapidamente absorvidas por coleções públicas ou privadas.

A carta de Dona Maria I é, ao mesmo tempo:

  • documento oficial,
  • peça de história colonial,
  • e testemunho direto de como funcionava a cidade que, poucos anos depois, se tornaria a sede da monarquia luso-brasileira.

Para museus, institutos de pesquisa, colecionadores de manuscritos coloniais e apaixonados pela história do Rio, trata-se de uma oportunidade singular.

Serviço — Leilão do Acervo da Fazenda Santa Thereza

  • Data: 2, 3 e 4 de dezembro de 2025, às 19h
  • Local: São Paulo (mas também on-line na plataforma leiloes.br )
  • Realização: D’Argent Leilões
  • Catálogo: mais de 490 itens, incluindo peças imperiais, mobiliário histórico e documentos raros
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