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Caçadores da imagem perdida: por onde andará o Santo Antônio roubado há 40 anos de igreja histórica do Centro do Rio?

Há ausências que pesam mais do que presenças. Na Igreja de Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores, no coração histórico do Rio de Janeiro, uma delas atravessa décadas: a imagem de Santo Antônio, esculpida em madeira, integrada ao retábulo barroco, venerada por gerações — e desaparecida desde os anos 1980, num tempo em que o patrimônio sacro brasileiro ainda sangrava em silêncio, sem inventários, sem alarmes, sem a vigilância que hoje começa, lentamente, a se impor.

Durante muito tempo, o Santo existiu apenas na memória dos mais antigos. Um vulto lembrado vagamente, uma devoção interrompida, um nicho vazio que poucos sabiam explicar. Agora, porém, essa ausência ganhou contornos mais nítidos — literalmente. Uma fotografia antiga, finalmente identificada e preservada, devolve rosto, gesto e presença à imagem desaparecida. E, com isso, reacende uma busca que nunca foi abandonada, apenas aguardava o momento certo. Dá pra ver seus dedinhos levemente separados, seu queixo gordinho, e as eruditas dobras de suas vestes, entre outras marcas que o distinguem.

A partir dessa imagem, a Irmandade da Lapa dos Mercadores retoma com vigor aquilo que já se tornou uma missão histórica: localizar, identificar e recuperar bens sacros roubados ou ilegalmente dispersos pelo mercado de arte. Uma cruzada moderna, sem espadas, mas com documentos, arquivos, fotografias, denúncias e um profundo senso de responsabilidade com a história da cidade. No seu Instagram com 71 mil seguidores, a busca foi agora iniciada.

Não é uma empreitada ingênua. A Irmandade sabe bem contra o que luta — e também sabe que é possível vencer.

Nos últimos anos, o Diário do Rio acompanhou de perto episódios que escancararam a dimensão do problema. Peças sacras de igrejas históricas do Centro reapareceram em leilões em Copacabana, despertando a atenção da Polícia Federal. Em outro caso emblemático, cinco obras desaparecidas havia mais de meio século foram finalmente recuperadas e devolvidas a seu templo de origem. Houve ainda situações mais chocantes: igrejas tombadas que tiveram seus acervos vendidos aos pedaços, como se retábulos, imagens e alfaias fossem meros objetos decorativos, desconectados de sua função religiosa e de seu valor histórico.

Esses episódios, longe de serem exceções, revelam um padrão. Durante décadas, imagens sacras circularam livremente entre antiquários, colecionadores e casas de leilão, muitas vezes sem qualquer questionamento sobre sua procedência. A fragilidade dos registros e a ausência de inventários detalhados funcionaram como um convite aberto ao desaparecimento.

É justamente aí que a história do Santo Antônio da Lapa dos Mercadores ganha força simbólica. A fotografia agora revelada não é apenas um retrato antigo: é uma prova material de pertencimento, uma chave capaz de abrir portas, cruzar catálogos, confrontar acervos e interromper vendas. É a diferença entre a saudade e a possibilidade real de retorno.

A busca por esse Santo se soma a outras — imagens, alfaias, fragmentos de retábulos, peças litúrgicas — todas arrancadas de seu contexto original ao longo do século XX. Juntas, elas compõem uma narrativa dolorosa: a de um Rio que perdeu partes de si para o mercado de arte, muitas vezes sob o manto da boa-fé, outras vezes sob o silêncio cúmplice da desinformação.

Mas a história recente mostra que esse ciclo pode — e deve — ser interrompido.

A experiência acumulada pela Irmandade, aliada à atuação de órgãos como a Polícia Federal, o Ministério Público e o IPHAN, demonstra que bens sacros roubados não se perdem no tempo. Não há usucapião da fé, nem prescrição da memória. Quando identificados, esses objetos retornam. Quando documentados, deixam de ser mercadoria e voltam a ser aquilo que sempre foram: testemunhos vivos da história, da devoção e da cidade.

Por isso, a cruzada da Lapa dos Mercadores não se limita à recuperação do passado. Ela aponta para o futuro. A Irmandade defende hoje aquilo que deveria ser política de Estado e prática corrente em todas as igrejas históricas: inventários completos, fotográficos, públicos e atualizados. Não como burocracia, mas como escudo. Não como papel, mas como proteção.

Cada imagem catalogada é uma imagem mais difícil de roubar. Cada detalhe registrado é um obstáculo ao esquecimento. Cada fotografia arquivada é uma chance real de reencontro.

O Santo Antônio desaparecido da Lapa talvez esteja hoje em uma sala elegante, em uma coleção silenciosa ou à espera de um novo leilão. Talvez esteja escondido, talvez exposto. O que muda agora é que ele tem rosto, tem história, tem dono e tem quem o procure.

E talvez não seja exagero lembrar que Santo Antônio, no Rio de Janeiro, nunca foi apenas um santo de altar. Foi também soldado, oficial e protetor da cidade. Durante séculos, figurou nos livros da administração colonial como tenente-coronel honorário, recebendo soldo regular dos cofres públicos por sua missão simbólica de defender o Rio contra invasões, tormentas e desgraças — um arranjo tão carioca quanto engenhoso, em que fé e Estado caminhavam lado a lado, sem constrangimento. Se naquela época o Santo recebia pagamento para guardar a cidade, hoje parece cobrar de outra forma: exigindo memória, zelo e responsabilidade. A busca pela imagem desaparecida da Lapa dos Mercadores, nesse sentido, soa quase como uma convocação antiga que ressurge. Como se o velho protetor do Rio, agora ausente de seu nicho, lembrasse que continua atento — e que não costuma abandonar quem, afinal, não o abandona primeiro.

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