
A Polícia Federal revelou que o ex-governador do Rio Sérgio Cabral solicitou ao deputado estadual Rodrigo Bacellar (União Brasil), então presidente licenciado da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj), que atuasse para adiar o julgamento de um processo na Justiça Estadual. As mensagens, trocadas em maio de 2025, foram encontradas no celular de Bacellar no âmbito de investigação que resultou no seu indiciamento pela PF nesta sexta-feira (27).
Para os investigadores, o teor da conversa sugere uma tentativa de uso da influência política do chefe do Legislativo estadual para interferir na pauta do Judiciário, um movimento que, se comprovado, configuraria grave afronta ao princípio da separação entre os Poderes.
Pedido para “retirar de pauta”
De acordo com a PF, a conversa ocorreu no dia 22 de maio de 2025, quando Cabral lembrou Bacellar de um julgamento previsto na 6ª Câmara de Direito Público do Tribunal de Justiça do Rio.
“Não esquece do meu julgamento na Sexta Câmara. Desculpa te perturbar com isso. Mas será terça. Só pedir para retirar de pauta”, escreveu o ex-governador.
Bacellar respondeu: “Te falo”. Cinco dias depois, Cabral voltou a procurá-lo: “Irmão! Saiu de pauta o meu processo. […] Você é um querido!!!! Te amo, amigo!!!”.
Logo depois, Cabral revela que, apesar da retirada inicial, acabou derrotado no julgamento na 6ª Câmara e que recorrerá da condenação por improbidade administrativa.
A retirada do processo da pauta, logo após a troca de mensagens, é tratada pela PF como elemento central da apuração. A corporação busca identificar se houve contato direto ou indireto de Bacellar com integrantes do Judiciário para viabilizar o adiamento.
Suspeita de interferência institucional
Embora parlamentares não tenham atribuição formal sobre decisões judiciais ou organização de pautas de julgamento, investigadores avaliam que o cargo de presidente da Alerj confere peso político capaz de influenciar, ainda que informalmente, agentes do sistema de Justiça.
A eventual articulação para adiar um julgamento reforça a hipótese de interferência do Legislativo no Judiciário, situação que compromete a autonomia entre os Poderes e pode caracterizar abuso de influência, dependendo do desdobramento das investigações.
Especialistas ouvidos reservadamente por investigadores destacam que a simples tentativa de intermediação já é considerada grave sob o ponto de vista institucional, sobretudo quando envolve agentes públicos com histórico de condenações e processos por corrupção.
Histórico de escândalos
Sérgio Cabral foi condenado em diversos processos decorrentes da Operação Lava-Jato no Rio, acusado de chefiar um esquema de corrupção que desviou recursos de grandes contratos públicos durante seu governo, entre 2007 e 2014. Ele chegou a ser preso e acumulou penas que ultrapassaram 300 anos, posteriormente revistas em instâncias superiores.
Rodrigo Bacellar, por sua vez, foi preso em dezembro de 2025 na Operação Unha e Carne, da Polícia Federal, sob suspeita de participação em esquema de vazamento de informações sigilosas para o Comando Vermelho. Ele deixou a prisão poucos dias depois por decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) e segue respondendo às investigações.
No mesmo inquérito foram indiciados ainda o ex-deputado estadual conhecido como TH Joias e outras três pessoas.
As informações constam de relatório da Polícia Federal revelado pela revista Veja. O inquérito segue sob sigilo parcial e pode resultar em novas denúncias nos próximos meses.