
O Centro do Rio, apesar de todos os investimentos públicos e privados que vem recebendo e do aumento do volume de pessoas que frequentam a região, ainda segue colecionando áreas que escancaram uma sensação terrível de abandono e falta de conservação. Um dos exemplos mais gritantes está na Praça da República, endereço dos casarões 75 e 76 que desabaram em março do ano passado e que, até hoje, integram um cenário de abandono que já virou parte da paisagem do entorno do Campo de Santana, área que ganhou uma fama pra lá de negativa, em que pese a beleza do parque histórico e os investimentos da Cury na construção do primeiro prédio residencial da Presidente Vargas em 70 anos. O imóvel, que teve sua manutenção negligenciada por anos a fio, pertence à Catedral Ortodoxa de São Nicolau, da Igreja Ortodoxa de Antioquia.
Enquanto o prédio 1140 da Vargas segue em ritmo acelerado de obras – sua fachada está pronta – quem circula pela região descreve onde houve o desabamento um terreno aberto, sem qualquer proteção efetiva e tomado por acúmulo de lixo, presença constante de pessoas em situação de rua – viciados inclusive – e infestação de ratos. Comerciantes reclamam que a área virou um verdadeiro bolsão de insegurança a poucos metros de um dos parques mais antigos e charmosos do Centro e do lado do quartel central do Corpo de Bombeiros. “Será que novas construtoras vão querer investir na área se não houver progresso na ambiência da região?“, pergunta Maria José Silva, moradora da rua Marcílio Dias, ali perto.
A equipe do DIÁRIO DO RIO esteve na região nesta semana e encontrou um verdadeiro cenário de guerra, que ainda apresenta risco de novos desabamentos, além do fedor e do entulho, quase que intocados. Nas ruínas dos prédios da Igreja Ortodoxa, havia chinelos, pertences pessoais e até sinais de fogo recente entre os escombros, evidenciando que a área vem sendo usada como abrigo.



Os dois imóveis já apresentavam problemas estruturais antes do colapso. A Defesa Civil, inclusive, já havia sido acionada. Boa parte do interior estava comprometido. Mesmo isolados, acabaram cedendo por completo no dia 20 de março do ano passado. A Secretaria de Conservação atuou de imediato para eliminar riscos e cercar o entorno, trabalho que, segundo a pasta, já foi esgotado e não seria mais de sua responsabilidade. A Catedral Ortodoxa, dona do imóvel, fica na rua Gomes Freire, 569, e tem como representante na cidade o Bispo Dom Theodore Gandhour.
Procurada pelo DDR, a Prefeitura do Rio informou que os proprietários já foram notificados e intimados pela Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano e Licenciamento. Afirmou ainda que a Subprefeitura do Centro realiza periodicamente ações de ordenamento em parceria com outros órgãos municipais e que, nessas operações, equipes sociais também atuam oferecendo acolhimento às pessoas em vulnerabilidade que ocupam a área. Há quem diga que notificar proprietários de imóveis que deixaram seus prédios desabarem por negligência e falta de interesse não será lá muito produtivo.


A alguns minutos dali, outra área histórica vive dilema parecido. A região da Praça XV, que ganhou o apelido de Pequena Lisboa com a ajuda de novos eventos e do charme arquitetônico, atrai cada vez mais visitantes aos fins de semana. Programações como a Feira de Antiguidades da Praça XV e atividades culturais na Rua do Mercado, Rua do Rosário e Rua do Carmo trouxeram de volta o burburinho para o pedaço. Mas basta virar a noite para o cenário mudar completamente. Com o esvaziamento que ocorre a partir das 21h, cresce o vandalismo, sobretudo em prédios tombados, que são constantemente pichados por vândalos ou que têm suas partes em metal arrancadas por viciados, instrumentalizados pelos ferros velhos ilegais que funcionam livremente nas ruas Frei Caneca, da Gamboa, e circunvizinhanças da Central.


Igrejas históricas têm suas fachadas pichadas, o Arco do Teles sofre com depredação frequente e monumentos públicos se tornam alvos recorrentes. São vândalos que colam cartazes, adesivos, arranham e picham as paredes, portas e cantarias tombadas pelo Iphan. Segundo a Secretaria de Conservação, 30% do orçamento da pasta é desperdiçado em reposições de peças furtadas de monumentos públicos e mobiliário urbano, correções de vandalismo e manutenção decorrente de depredações — uma drenagem de recursos que atrapalha qualquer política de revitalização de longo prazo. Recentemente, produtores de um “evento cultural” postaram no instagram, orgulhosos, a destruição das fachadas históricas com a colagem de cartazes divulgando uma festa na Gafieira Elite: a “Apocotropia”. Por uma única noite, mais de 100 cartazes foram colados em toda a parte.
Também os desabamentos dos imóveis da Travessa do Comércio 13 e 19 causaram terríveis transtornos à região, não só pelos tapumes e ruínas que enfeiam uma das áreas mais turísticas do Rio, como também pelo entulho, mendicância, ratos e baratas que os imóveis atraem, tendo em vista que seus proprietários não tomaram qualquer atitude concreta. O Arco do Teles resiste, mas a prefeitura, que havia prometido arrecadar estes imóveis, ainda não tomou nenhuma providência além do escoramento deles. No 13, morou Carmen Miranda. Aliás, há quem diga que um museu de Carmem Miranda ali seria muito mais visitado do que no meio do aterro onde ninguém passa a pé.
Os prédios da Rua do Mercado 7 e 11 têm fundos para o Arco do Teles. Estes fundos na verdade são restos das fachadas dos prédios originais 8, 10 e 12 da Travessa do Comércio, demolidos nos anos 60 e 70 para construção dos espigões comerciais, hoje grandes condomínios: são praticamente fachadas cenográficas, de fácil manutenção. Quem passa pelo Arco não notaria, não fossem as fachadas emporcalhadas, mal mantidas e sujas dos edifícios, que não parecem estar nem aí para o patrimônio nacional do qual são guardiães. Um dos condomínios chegou a instalar ridículos canos de PVC na fachada tombada pelo Iphan, que roubam a atenção de quem passa pelo bucólico arco, que faz parte do Conjunto Tombado Nacional da Praça XV. Como as fachadas não recebem manutenção alguma do Condomínio Engenheiro David Sessim (Mercado 11) e do Condomínio do Edifício Rua do Mercado 7, ficam eternamente caindo aos pedaços e causando má impressão às centenas de turistas que visitam a região todos os dias.
Dois casarões que desabaram há 13 anos no Largo de São Francisco da Prainha, no Centro do Rio, continuam em ruínas sem qualquer intervenção dos donos ou das autoridades. Os prédios, de dois andares, caíram na madrugada de 13 de outubro de 2012, mas até hoje os escombros permanecem no lugar — reflexo de décadas de abandono estruturado, negligência de proprietários e impunidade – em que pese a região tenha renascido e se tornado um grande polo de gastronomia e entretenimento entre os jovens, a metros da Pedra do Sal.
Um exemplo bem recente de danos – agora ao patrimônio público – é o monumento ao General Osório, inaugurado em 1894 na própria Praça XV e vítima constante de furtos. A espada da escultura foi levada há poucas semanas, somando-se a uma lista extensa de danos: balas de canhão removidas, placas de bronze arrancadas, partes do gradil desaparecidas, além de cabeças e patas dos cavalos que compõem a base do conjunto artístico. A Conservação afirma registrar ocorrências, mas relata ausência de retorno da Polícia Civil. A pasta avalia inclusive retirar a peça para restauro ou substituí-la por uma réplica em resina, sem valor comercial, medida que dependeria de orçamento adicional.