
Com índices de aprovação perto dos 90% e tendo sido, em 2022, o deputado estadual mais votado do Rio de Janeiro, com 181.274 votos, o prefeito de Belford Roxo, Márcio Canella (União), decidiu deixar o cargo para se lançar candidato ao Senado Federal, em dobradinha com o governador Claudio Castro (PL).
Na semana passada, o prefeito reuniu o secretariado para comunicar que renunciará ao cargo em 5 de abril, prazo limite estabelecido pela legislação eleitoral, para disputar uma das duas vagas do Rio de Janeiro na corte federal. Ele chegou a cogitar uma candidatura ao governo do estado mas, após o lançamento do senador Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência da República, reavaliou sua estratégia e decidiu encarar a corrida ao Senado.
Segurança como vitrine política
A principal vitrine da gestão de Canella tem sido o enfrentamento ao crime organizado. O prefeito ganhou projeção ao promover a retirada de barricadas em áreas dominadas por facções e milícias, iniciativa que inspirou o programa estadual “Barricada Zero”, adotado pela gestão de Castro.
“Na minha cidade, quem manda sou eu. Acabou a historinha de traficante e miliciano dar ordem e instalar barricada. Vou pra cima”, costuma repetir o prefeito ao explicar os índices elevados de aprovação.
Além da segurança, a gestão apostou em medidas de forte apelo popular, como a Tarifa Zero nos ônibus municipais, a Ronda da Madrugada e obras de pavimentação, drenagem e revitalização de espaços públicos, com o objetivo de atrair empresas e gerar empregos.
Saída planejada e sucessão sob controle
Outro fator decisivo para a decisão, segundo o Portal Agenda do Poder, foi a confiança na vice-prefeita Mariana Malta (União), que deverá assumir o comando da cidade após a desincompatibilização. Segundo interlocutores, Canella e Mariana mantêm relação de estreita sintonia política e administrativa, o que reduz riscos de turbulência na sucessão.
A avaliação no entorno do prefeito é de que a continuidade da gestão preserva o principal ativo político de Canella: a percepção de controle e estabilidade em um município historicamente marcado por disputas locais e influência do crime organizado. Belford Roxo já foi considerado o “patinho feio” entre os treze municípios da Baixada tamanha a falta de saneamento e manutenção de ruas e praças.
Força eleitoral da Baixada
Eleito em 2024 com 155.299 votos, o equivalente a 62,88% dos votos válidos no primeiro turno, Canella obteve uma das vitórias mais expressivas da história recente de Belford Roxo. O resultado consolidou sua liderança local e enfraqueceu adversários tradicionais.
Com cerca de 483 mil habitantes, segundo o IBGE, Belford Roxo está entre os dez maiores colégios eleitorais do estado e se tornou peça-chave nas estratégias políticas da Região Metropolitana, que abrange cerca de 75% do eleitorado do estado.
Fundo eleitoral e articulações
No cálculo político do prefeito também pesa a estrutura partidária. A federação União Brasil–PP deverá dispor de cerca de R$ 100 milhões em fundo eleitoral no Rio de Janeiro, e uma fatia significativa tende a ser destinada à disputa pelo Senado, o que pode assegurar uma campanha robusta.
Suspeitas e controvérsias
Apesar da popularidade, a trajetória de Canella não está livre de controvérsias. O prefeito já foi alvo de suspeitas e acusações de ligação com grupos milicianos, tema recorrente em embates políticos locais e em questionamentos de adversários.
Os adversários o acusam de ter sido, quando vice-prefeito, a ligação entre o ex-prefeito de Belford Roxo, Waguinho (Republicanos) e o ex-policial militar Juracy Alves Prudêncio, apontado como chefe da milícia local. Prudêncio foi condenado em 2000 por homicídio e formação de quadrilha.
Em janeiro de 2025, assim que assumiu a prefeitura, Canella nomeou para as secretarias de Esporte e de Indústria e Comércio, os vereadores Fabinho Varandão (MDB) e Eduardo Araújo (PL), respectivamente. Ambos tiveram suas candidaturas impugnadas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) por ligações com grupos de milicianos que atuavam na Baixada Fluminense.
Canella nega qualquer envolvimento com organizações criminosas e atribui as acusações a tentativas dos adversários em desgastar sua imagem. A entrada oficial na disputa ao Senado deve ampliar o escrutínio sobre seu passado político e suas alianças (ele já foi vereador por Belford Roxo e deputado estadual por três mandatos), levando o debate local para o centro da cena estadual. Com aprovação alta e discurso duro na segurança, Márcio Canella aposta que a Baixada Fluminense pode ser seu trampolim para Brasília.