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Conjunto de jantar que pertenceu a marquês de Niterói pode ser vendido a 2 milhões

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Imagine abrir o armário da sala de jantar e descobrir que aqueles pratos coloridos que você achava bonitos valem mais do que um apartamento em Ipanema. Pois é exatamente isso que está acontecendo no mundo dos antiquários: um monumental serviço de porcelana da Companhia das Índias — ricamente decorado no coloridíssimo padrão “Folha de Tabaco” — acaba de surgir para venda na casa de leilões Dag Saboya, e seu valor estimado beira os R$ 2 milhões.

Mas a história que acompanha essas peças é ainda mais surpreendente do que o preço. O conjunto de 110 itens, entre pratos, sopeiras, terrinas, travessas e potiches com tampas de prata, teria pertencido ao Marquês de Vila Real da Praia Grande, Caetano Pinto de Miranda Montenegro — primeiro ministro da justiça do Brasil e Intendente do Ouro no Rio de Janeiro. A criação da Vila Real da Praia Grande, em 1819, foi o passo oficial que deu status de cidade a pequena aldeia que viria a chamar-se Niterói, marco no início do desenvolvimento urbano da cidade. O marquês era homem conservador, fidalgo, daqueles que ainda “empoava” o cabelo quando ninguém mais o fazia no país.

As louças do Marquês que empoava o cabelo vai a leilão partindo de 1,8 milhão / Foto:wikipedia

Ou seja: a porcelana que agora vai ao martelo esteve, muito provavelmente, sobre a mesa do mais importante expoente colonial do que se tornou – até a unificação do Estado do Rio com a Guanabara – a única capital estadual do país localizada na margem oposta de sua metrópole. Um personagem que quase ninguém lembra — mas que ajudou a moldar o Brasil como o conhecemos hoje: governou Pernambuco, Mato Grosso e iria governar Angola caso os pernambucanos não tivessem clamado pra que ficasse por lá, além de ter sido o responsável por todo o ouro aqui no Rio de Janeiro.

A explosão de cores que virou objeto de desejo

O serviço de porcelana é uma daquelas obras que parecem vivas: hibiscos volumosos, esquilos delicados, fênix de plumagem iridescente, folhagens orientais e uma composição que mistura o sudeste asiático às ilhas do Pacífico. Cada peça é um pequeno espetáculo de policromia. O padrão “folha de tabaco” é um dos mais valiosos no exclusivo mundo dos colecionadores da louça da companhia das índias, rivalizando com o igualmente célebre “serviço dos pavões” de Dom João VI e com o igualmente colorido “folha de chá”. Todos estes já foram elegantemente replicados pela fábrica portuguesa Vista Alegre, com grande sucesso. Mas aqui temos o “real deal”.

Produzido durante o reinado do Imperador Qianlong (século XVIII), período em que a porcelana chinesa atingiu apogeu técnico e estético, o conjunto segue o consagrado padrão Folha de Tabaco, um dos mais exuberantes da Companhia das Índias e historicamente apreciado pelas elites luso-brasileiras. Estes serviços viajaram o mundo até chegar na Europa e depois ao Brasil, numa época em que a logística de transporte era profundamente difícil. Quebrável, exclusiva, caríssima já na época, a porcelana era uma jóia. O que restou é chegou aos dias de hoje em geral são pratos esparsos que nossas avós penduravam na parede. Raríssimos os conjuntos grandes o suficiente para serem usados efetivamente para jantar.

São 27 pratos rasos, 9 fundos, sopeiras monumentais com seus “presentoirs”, terrinas, travessas ovais e recortadas, potiches de diferentes tamanhos com tampas em prata, saleiros, vasos tipo corneta, molheiras, bules, xícaras, canecas, pequenos bowls e até um castiçal. Uma profusão que remete às grandes mesas aristocráticas do período.

Parte do conjunto de jantar em Folha de Tabaco / Foto: Divulgação

Quando a mesa explica a história do Brasil

O Brasil imperial e pré-imperial viveu uma verdadeira paixão pelas porcelanas orientais — como já mostraram, em outras ocasiões, peças que pertenceram à Família Real Portuguesa, entre elas o célebre Serviço dos Pavões, que recentemente voltou ao noticiário ao ir a leilão com valores igualmente impressionantes. Um antiquário na Capital Paulista está vendendo um conjunto no padrão – chamado genericamente de “Família Rosa” – por estratosféricos 4,5 milhões de reais: um par de manteigueiras foi vendido a cerca de 12 mil na semana passada pelo leiloeiro Horácio Ernani, no Rio.

Assim como no caso das louças de D. João VI, estas peças carregam mais do que beleza: são testemunhos materiais de um modo de viver. No Rio de Janeiro — e especialmente na Guanabara — serviços da Companhia das Índias eram símbolos de autoridade, refinamento e inserção no mundo globalizado do século XVIII. Num mundo em que o luxo fútil está em decadência, o luxo com história e significado volta a ganhar adeptos: quem pode, valoriza ser dono de um pedacinho da história.

O conjunto que entr agora em leilão segue essa tradição. Ele não apenas traduz o gosto estético de sua época, como também devolve à memória fluminense uma figura central que muitos desconhecem: Caetano Pinto, administrador habilidoso, governador, intendente do ouro no Rio e, mais tarde, Marquês da cidade que viria a se chamar Niterói.

Ou seja: esta porcelana não pertence apenas ao mundo do colecionismo — ela pertence à história do Rio.

Quando o passado ressurge — e disputa cada lance

Ver um serviço aristocrático dessa escala aparecer quase intacto, com 110 peças completas, é algo raro mesmo em leilões internacionais. No Brasil, então, é praticamente inédito.

Por isso, o interesse do público tem sido tão grande: não é preciso ser erudito para se encantar. Basta olhar as fotos e perceber que ali há algo especial — uma obra de mesa que é, ao mesmo tempo, arte, exotismo asiático, história colonial e memória fluminense.

O leiloeiro, conhecido por trazer ao mercado brasileiro peças de grande importância histórica, apresenta o conjunto como uma “obra-prima de mesa aristocrática, símbolo de status, refinamento e arte atemporal”. E não é exagero.

Trata-se de um daqueles raros momentos em que um objeto privado lança luz sobre um capítulo esquecido da nossa própria formação.

Uma disputa que promete levantar poeira

É provável que colecionadores do Rio de Janeiro e de todo o país se mobilizem — até por uma questão afetiva. Afinal, quantas vezes surge, à venda, um serviço monumental ligado ao homem que literalmente deu o pontapé inicial a Niterói como a conhecemos? A chance de comprar vários pratos de um mesmo padrão, com mais de 300 anos, sem ser um a um, é muito pequena. A maioria dos colecionadores de porcelana da Companhia das Índias compra ítem a ítem, um por um, no decorrer de décadas. Quantas vezes reaparece um conjunto que é uma relíquia material que concretiza a ligação entre a Guanabara e o universo sofisticado da porcelana oriental?

Seja quem for o arrematante, uma coisa é certa: algumas mesas têm mais história do que muito museu. E, neste caso, quase dois milhões de reais explicam apenas parte do fascínio.

Nota Histórica: Embora a história de Niterói tenha começado no século XVI, quando Arariboia recebeu as terras da margem leste da Guanabara e nelas estabeleceu o núcleo indígena que é considerado o embrião da cidade, a configuração urbana e administrativa que conhecemos hoje só ganharia forma em 11 de agosto de 1819. Foi nessa data que D. João VI criou, por alvará, a Vila Real da Praia Grande, unindo freguesias, instalando juízes, câmara e estrutura de governo.

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