
Hoje, dia 12 de outubro, celebramos Nossa Senhora Aparecida — Padroeira do Brasil — e, ao mesmo tempo, recordamos que há 94 anos era inaugurado o Cristo Redentor, no Rio de Janeiro. Que data simbólica, em que dois monumentos tão distintos — um pequenino em barro cozido e outro monumental em concreto — se encontram no mesmo calendário para nos lembrar a força da fé, da memória e da sacralidade.
A história da devoção a Nossa Senhora Aparecida começa em 1717, no vale do Rio Paraíba do Sul, no interior de São Paulo. Três pescadores — Domingos Garcia, João Alves e Felipe Pedroso —, procurando peixes num dia infrutífero, recolheram do rio uma imagem de Nossa Senhora da Imaculada Conceição dividida em partes: primeiro o corpo e depois a cabeça. Ao recolocar a escultura no rio e lançarem as redes, a pesca miraculosamente se encheu de peixes. Esse episódio ficou célebre como o “milagre da pesca”.
A imagem é feita de barro cozido e mede cerca de 40 cm de altura. Estima-se que, ao ser encontrada, já havia perdido sua policromia original — muito possivelmente desgastada pelo tempo em que esteve submersa. A coloração escurecida que vemos hoje é resultado de séculos de exposição à fuligem, às velas, às manipulações e ao envelhecimento natural.
Ao longo dos anos, a devoção aumentou. Inicialmente, a imagem foi alojada em uma capela modesta no Porto de Itaguaçu (Guaratinguetá), depois em estrutura mais ampla, e, finalmente, no século XIX, erigiu-se a “Basílica Velha”, ainda existente. No século XX, com a intensificação das peregrinações, foram construídas instalações maiores, até chegar à basílica atual — monumental, capaz de abrigar milhões de fiéis.
O Santuário Nacional de Aparecida — atualmente administrado pelos Missionários Redentoristas — reúne capelas, espaços de acolhida, adro externo monumental, tribunas, dezenas de obras artísticas sacras, muitas delas executadas pelo celebrado pintor Cláudio Pastro, um dos maiores nomes da arte sacra nos séculos XX e XXI, além de museu, espaço de memória, centro de documentação, salas audiovisuais e infraestrutura para peregrinos.
Um capítulo dramático na história da imagem ocorreu em 16 de maio de 1978, quando um homem invadiu o nicho durante uma missa na Basílica Velha e derrubou a imagem, que se quebrou em mais de 200 fragmentos. A restauração foi feita pela artista plástica Maria Helena Chartuni, chefe do Departamento de Restauro do MASP, que, em cerca de 33 dias de trabalho intenso, procedeu à colagem e reconstituição das partes — inclusive recriando fragmentos perdidos do rosto com base em espelhos e moldes. Após o restauro, em 19 de agosto de 1978, a imagem retornou a Aparecida em cortejo do Corpo de Bombeiros que mobilizou uma multidão.
O Santuário também investe em uma museografia moderna — com painéis interativos, recursos audiovisuais e registro documental — para narrar a trajetória devocional e cultural de Aparecida, que, como dissemos anteriormente, iconograficamente corresponde a Nossa Senhora da Conceição, a principal invocação mariana dos tempos coloniais, proclamada padroeira de Portugal em 1646.
Enquanto Nossa Senhora Aparecida mostra que até pequenas imagens podem gerar grandes devoções, o Cristo Redentor é o expoente máximo de um símbolo nacional projetado em grande escala. A ideia de erguer um monumento religioso sobre o Corcovado já existia no século XIX. O projeto, que inicialmente esbarrou em limitações técnicas e financeiras, ganhou vigor no início do século XX, especialmente com as festividades planejadas para o centenário da Independência, em 1922.
O arquiteto brasileiro Heitor da Silva Costa foi o responsável pelo projeto estrutural e contou com colaborações internacionais: o escultor francês Paul Landowski projetou a figura de Cristo, e o rosto foi esculpido pelo romeno Gheorghe Leonida. A estrutura é feita em concreto armado — para garantir resistência às intempéries e ventos — e sua superfície externa é revestida de placas de pedra-sabão. A construção estendeu-se entre 1922 e 1931. A inauguração solene ocorreu em 12 de outubro de 1931 — data escolhida propositalmente por coincidir com o dia de Nossa Senhora Aparecida.
Quanto às suas dimensões: o Cristo em si mede cerca de 30 metros de altura, e com o pedestal atinge 38 metros. A envergadura dos braços é de cerca de 28 metros de ponta a ponta. Pesa aproximadamente 1.145 toneladas e está situado a cerca de 710 metros de altitude sobre o nível do mar. Desde então, o Cristo Redentor foi ganhando status de ícone internacional do Brasil — um cartão-postal simbólico, elemento de soft power que carrega em sua silhueta uma mensagem de acolhimento, paz e identidade nacional. A administração do monumento é feita pela Arquidiocese do Rio de Janeiro, enquanto o terreno de acesso (o platô do Corcovado) fica sob responsabilidade do Parque Nacional da Tijuca, órgão federal vinculado ao ICMBio.
Quando confrontamos a pequenez barroca da imagem de Aparecida com a monumentalidade do Cristo no Corcovado, percebemos que há algo mais profundo além do contraste de escala: ambos são vestígios vivos da fé, narrativas materiais da devoção e marcos de identidade cultural e espiritual.
A pequena imagem de terracota — embora diminuta em tamanho — é grande em significado, pois testemunha séculos de devoção popular, milagres atribuídos e a persistência de um povo. Sua conservação, restauro e museografia demonstram que o valor principal não está em sua dimensão física, mas em sua memória, em seu poder simbólico e afetivo.
Já o Cristo Redentor, apesar de monumental, vive do valor simbólico: sua imponência é um veículo de transcendência, evocando o abraço de Cristo sobre a cidade do Rio e, por extensão, sobre o Brasil e a América Latina. Ele não é apenas uma escultura, mas um monumento que fala — de fé, de brasilidade e de acolhimento.
Por isso, celebrar esses dois patrimônios hoje é reconhecer que o patrimônio mais valioso de um povo não está no volume de concreto ou barro, mas na sacralidade que ele carrega, no vínculo com a memória coletiva e no respeito que lhe é dedicado.
Que neste 12 de outubro sejamos todos guardiões da memória desses dois símbolos — Nossa Senhora Aparecida e o Cristo Redentor. Que sua principal qualidade seja preservada sempre: a sacralidade. Qualquer intervenção ou atitude que os banalize, descaracterize ou deseje transformá-los em meros objetos turísticos deve ser denunciada e combatida. Porque um patrimônio sem sentido simbólico, sem ressonância espiritual e afetiva, acaba por se reduzir a argila, pedra e cimento — vazio de vida.