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De reduto petista a território bolsonarista, Rio vira palco de disputa entre Lula e Flávio

Imagem gerada por Inteligência Artificial

Nos arredores da Avenida Governador Leonel de Moura Brizola, uma das principais áreas de comércio popular de Duque de Caxias, não é difícil encontrar antigos eleitores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva que aderiram a Jair Bolsonaro nas últimas eleições. As informações são da Folha de São Paulo.

Vendedor de roupas no calçadão da cidade, André Paulo da Silva, de 48 anos, conta que votou em Lula apenas uma vez, na eleição de 2002. Apesar de fazer uma avaliação positiva daquele período, afirma que hoje seguirá a orientação política de Bolsonaro. “O primeiro mandato dele foi o melhor governo que houve, não tenho dúvidas. O real era valorizado. Mas a estratégia do Bolsa Família é manipuladora. Não tenho raiva do PT, tenho raiva do jeito como ele governa”, afirmou.

Natural da Paraíba, o comerciante relaciona a migração de nordestinos para o Sudeste à falta de desenvolvimento da região durante os governos petistas. “Se ele tivesse feito no Nordeste o que diz ter feito, seria uma região de primeiro mundo e não teríamos vindo para cá”, declarou André Paulo, que vive com a mulher e a filha em uma favela de Duque de Caxias.

Para ele, a eleição de um nome apoiado pelo ex-presidente pode tirar o país do que considera uma crise. “Em outubro, votarei em quem ele falar, seja Flávio, seja Michelle”, disse o comerciante.

Segundo maior colégio eleitoral do Estado do Rio, Duque de Caxias virou um dos símbolos da transformação do território fluminense. O estado, que durante anos ofereceu grandes vantagens ao PT, tornou-se um terreno difícil para Lula diante da pré-candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL).

Duque de Caxias passou de Lula a Bolsonaro

Em 2002, Duque de Caxias deu 86% dos votos válidos para Lula no segundo turno contra José Serra (PSDB). No país, o petista recebeu 61%. Quatro anos depois, Lula conquistou 81% dos votos válidos no município contra Geraldo Alckmin, então no PSDB. A votação nacional do presidente foi novamente de 61%.

A vantagem petista diminuiu nas eleições seguintes até desaparecer em 2018. Na primeira disputa de Jair Bolsonaro pela Presidência, Duque de Caxias deu 66% dos votos válidos ao candidato do PL. Em 2022, Bolsonaro voltou a vencer na cidade, desta vez com 53%.

A trajetória eleitoral do município acompanha a mudança registrada no restante do estado, mas com diferenças mais amplas entre os candidatos.

Ex-prefeito de Duque de Caxias e ex-deputado, Washington Reis (MDB) foi aliado de Lula e hoje apoia Flávio Bolsonaro. Para ele, a mudança começou com o enfraquecimento das principais lideranças políticas do Rio após a Operação Lava Jato. “A gente inaugurou um novo tempo depois da Lava Jato. O Rio de Janeiro tinha uma liderança política toda integrada com o governo, presidência da Alerj, prefeito da capital. Isso fortalecia qualquer candidatura. Depois ficou um barco à deriva. O Bolsonaro, por ser do estado, capturou esse ativo político que estava órfão”, afirmou.

A avaliação aponta três elementos citados por especialistas para explicar a virada eleitoral: a origem política de Bolsonaro no Rio, o vazio provocado pela prisão e pelo enfraquecimento de lideranças tradicionais e a aproximação do bolsonarismo com grupos políticos municipais. Os ex-governadores Sérgio Cabral e Luiz Fernando Pezão, que comandaram o estado com apoio de parte do campo político ligado ao PT, foram presos em investigações relacionadas à Lava Jato.

“O Rio sofreu política e economicamente com a Lava Jato, e esse conjunto afetou muito a esquerda, a centro-esquerda e os políticos tradicionais, abrindo margem para a extrema-direita”, avaliou a cientista política Mayra Goulart. Ela coordena o Laboratório de Eleições, Partidos e Política Comparada (Lappcom), ligado à Universidade Federal do Rio de Janeiro e à Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro.

PL absorveu políticos de grupos tradicionais

Um levantamento do Lappcom mostra que 70% dos vereadores eleitos pelo PL no Estado do Rio em 2024 já tinham alguma atuação política anterior.

Para Mayra Goulart, o dado indica que o crescimento do partido não ocorreu apenas com a entrada de novos nomes. Parte das lideranças tradicionais migrou para o campo bolsonarista. “Há uma dinâmica de cooptação de elites tradicionais pelo campo da extrema-direita. Eles enfatizam esse alinhamento com a direita, mas depois podem enfatizar outra coisa. A lógica é de controle territorial do poder”, explicou.

O prefeito de Maricá, Washington Quaquá (PT), também aponta a perda de alianças municipais e estaduais como uma das causas do enfraquecimento petista no Rio.

Vice-presidente nacional do partido, Quaquá lembra que a aproximação com Leonel Brizola, durante a década de 1990, e a aliança posterior com o então PMDB de Sérgio Cabral foram importantes para as vitórias de Lula e Dilma Rousseff no estado.

“O PT, enquanto foi um partido na década de 1980 que não fazia aliança, sempre teve 15% ou 20% do eleitorado do Rio. Só passou a ter maioria depois que fez a aliança com o brizolismo, que era mais forte na área popular. Depois manteve essas alianças mais amplas com o PMDB”, afirmou Quaquá.

Rio já deu a Lula vantagens maiores que a média nacional

Na primeira eleição presidencial após a redemocratização, em 1989, Lula recebeu 73% dos votos válidos no segundo turno no Estado do Rio. No país, porém, foi derrotado por Fernando Collor, que venceu por 53% a 47%.

Em sua primeira vitória presidencial, em 2002, Lula obteve 79% dos votos válidos no estado contra José Serra. No Brasil, o petista venceu com 61%.

Na eleição de 2006, Lula recebeu 70% dos votos fluminenses, nove pontos acima dos 61% alcançados no resultado nacional.

Dilma também encontrou no Rio uma vantagem superior à média brasileira. Em 2010, conquistou 60% dos votos válidos no estado e 56% no país. Quatro anos depois, teve 55% no Rio e 52% no resultado nacional.

A relação mudou de forma brusca em 2018. Fernando Haddad (PT) recebeu apenas 32% dos votos válidos no Rio, enquanto alcançou 45% no país.

Mesmo com a vitória nacional de Lula em 2022, o estado não voltou a funcionar como uma base para ampliar sua vantagem. O petista teve 43% dos votos válidos entre os eleitores fluminenses, contra 51% no resultado nacional.

Palanques estaduais do PT perderam força

Com a prisão ou o afastamento de antigos aliados, o PT passou a depender de candidaturas estaduais mais ligadas à esquerda.

Em 2018, a filósofa Márcia Tiburi (PT) recebeu 6% dos votos válidos na disputa pelo Governo do Rio. Em 2022, o ex-deputado Marcelo Freixo, então no PSB, alcançou 27% e perdeu ainda no primeiro turno para Cláudio Castro (PL).

Washington Quaquá avalia que, além de perder alianças, o PT adotou posições mais afastadas das prioridades de parte do eleitorado popular fluminense após o impeachment de Dilma Rousseff. “Com o impeachment da Dilma, o PT voltou a ser um partido que dialoga estritamente com o eleitorado de esquerda. Um partido que passou a ter um discurso mais identitário do que social”, declarou.

Segundo ele, o foco em debates de comportamento contribuiu para o afastamento de eleitores de baixa renda com posições conservadoras. “Como passou a pautar como prioridade da ação política a questão comportamental, afastou o eleitorado popular, que é conservador”, acrescentou o prefeito de Maricá.

Eleitorado evangélico fortaleceu o bolsonarismo

O crescimento do eleitorado evangélico e a aproximação de suas principais lideranças com o bolsonarismo também ajudam a explicar a mudança eleitoral. Dados do Censo 2022, realizado pelo IBGE, indicam que 32% da população fluminense com 10 anos ou mais se declara evangélica. O índice supera a média nacional, de 26,9%.

Para o cientista político Antônio Alckmin, os eleitores evangélicos do Rio recebem influência direta de lideranças religiosas que passaram a atuar de forma mais intensa na política. “A entrada das lideranças evangélicas na política vai aflorar mesmo a partir de 2014 e, principalmente, em 2018. A expansão evangélica tem lideranças aqui no Rio, como o bispo Edir Macedo, Marcelo Crivella e Silas Malafaia”, afirmou.

O especialista também cita a intervenção federal na segurança pública do Rio, comandada pelas Forças Armadas em 2018, como um elemento que fortaleceu o discurso bolsonarista. “O Rio de Janeiro tem a emergência do movimento evangélico, do bolsonarismo, do militarismo, de todos esses valores. É um combo”, declarou.

PT aposta em aliança com Eduardo Paes

Washington Quaquá acredita que Lula pode recuperar parte do eleitorado fluminense por meio da aliança com Eduardo Paes (PSD) e de uma campanha concentrada em temas sociais e econômicos.

O PT também aposta no desgaste dos palanques de Flávio Bolsonaro após a prisão de aliados do senador e nas auditorias realizadas pelo governador interino, o desembargador Ricardo Couto, sobre a administração de Cláudio Castro.

Washington Reis mantém uma posição diferente. Ele apoia Flávio Bolsonaro para a Presidência e Eduardo Paes para o Governo do Estado.

Na avaliação do ex-prefeito de Duque de Caxias, o desempenho da economia deve pesar mais do que a mobilização religiosa na escolha do eleitor fluminense. “A máquina tem muito poder para capturar voto. Tem que entregar. O povo está com custo de vida alto e com poder de compra baixo. Isso traz uma irritação ao eleitorado”, afirmou.

Vendedor de bolsas e mochilas na Avenida Governador Leonel de Moura Brizola, Abraão Denis, de 42 anos, também nasceu na Paraíba. Ele votou no PT em 2006 e 2022, mas atribui o crescimento bolsonarista em Duque de Caxias à influência de pequenos e médios empresários e ao perfil religioso da população. “Não entendo de política, mas a minha visão da rua é a de que o Bolsonaro aqui ganha porque o PT respeita pouco a Bíblia”, afirmou.

O comerciante também relaciona sua insatisfação à cobrança de impostos e ao aumento do custo de vida. “É difícil confiar em alguém, mas talvez o Bolsonaro desse mais certo. Uso essa área de comércio como exemplo: lojistas pagam muito imposto e vemos muitas lojas fechando. Dentro de casa é outro problema. Gasto ao menos R$ 80 só em uma ida ao supermercado para comprar produtos para um jantar simples com a família”, disse.

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