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Decreto para atender entidade expõe voluntarismo de Eduardo Paes em caso de desapropriação em Botafogo

Foto: Reprodução/GoogleMaps

O poder delegado pelos cidadãos tem limites

É uma pena ver um governante tratar o poder que lhe foi delegado como se fosse prerrogativa pessoal, legislando por decreto e tomando decisões relevantes sem a devida análise técnica, sem diálogo com a sociedade e sem respeito ao interesse coletivo.

O prefeito não governa em nome próprio.

O poder que exerce não lhe pertence — foi delegado pelos cidadãos para a defesa do interesse público, da coletividade e da cidade como um todo.

Quando um decreto nasce para atender ao pedido específico de uma entidade isolada, sem consulta pública, sem estudo técnico transparente e sem análise prévia dos impactos urbanos, sociais e econômicos, deixa de ser decisão administrativa responsável e passa a ser ato de puro voluntarismo, eleitoral ou não.


O caso de Botafogo: decreto primeiro, análise depois

No caso da desapropriação do imóvel da Rua Barão de Itambi, em Botafogo, o próprio prefeito Eduardo Paes admitiu que:

  • o decreto atendeu a um pedido da Fundação Getulio Vargas (FGV);
  • a medida foi tomada antes da análise detalhada do projeto;
  • e que pode ser revista, a depender do que ainda será avaliado.

Ou seja, o poder de desapropriar — uma das ferramentas mais sensíveis do Estado — foi utilizado sem que houvesse previamente uma avaliação técnica consolidada, sem consulta à população afetada e sem ponderar adequadamente a função social já exercida pelo imóvel.

Veja essa história inacreditável, no sítio abaixo:

“Eduardo Paes diz que desapropriação de supermercado em Botafogo atende pedido da FGV e pode ser revista”
https://diariodorio.com/eduardo-paes-diz-que-desapropriacao-de-supermercado-em-botafogo-atende-pedido-da-fgv-e-pode-ser-revista/#google_vignette


Interesse público não se presume — se demonstra

Desapropriação não é favor institucional, nem instrumento para atender pleitos pontuais, por mais respeitável que seja a entidade interessada.

Ela exige, obrigatoriamente:

  • motivação técnica clara;
  • demonstração inequívoca de interesse público;
  • análise dos impactos urbanos, econômicos e sociais;
  • transparência e diálogo com a população afetada.

Nada disso pode ser substituído por um simples argumento genérico e pessoal de que algo “pode ser bom para a cidade”.


Quando o decreto beneficia uma entidade, e não a coletividade

O que preocupa neste episódio não é a FGV — instituição reconhecida e relevante —, mas o método.

O prefeito utilizou um decreto — instrumento extremo do poder público — para beneficiar, de forma direta, uma entidade específica, sem antes avaliar:

  • a existência de atividades econômicas em funcionamento no local;
  • o impacto sobre serviços essenciais à vizinhança;
  • a surpresa dos proprietários e operadores do imóvel;
  • a ausência completa de consulta pública.

Isso não é governar para a coletividade.

Isso é confundir interesse público com interesse institucional isolado.


Felizmente, a reação da sociedade impôs limites

É importante registrar:

  • a crítica dos moradores, dos comerciantes, da imprensa e do Vereador Pedro “Cri-Cri” Duarte cumpriu seu papel democrático.

A reação pública obrigou o prefeito a:

  • admitir a fragilidade da decisão;
  • reconhecer que foi “mal-informado”;
  • e declarar que o decreto pode ser revisto.

Isso demonstra que, felizmente, o poder não é absoluto e que o controle social ainda funciona quando a sociedade se mobiliza.


O cargo não pertence ao governante

Um prefeito precisa ter sempre claro que:

  • o cargo não é dele;
  • o poder não é pessoal;
  • o decreto não é instrumento de vontade individual.

Governar é decidir com técnica, com diálogo e com respeito à coletividade, e não atender pedidos específicos antes de avaliar suas consequências.

Quando o Estado age para beneficiar uma entidade isolada, sem ouvir a cidade, erra o caminho.

E quando é obrigado a recuar, fica evidente que o problema nunca foi o interesse público — foi o voluntarismo.


Um precedente preocupante

Esse episódio é preocupante porque cria um precedente perigoso.

Se um decreto pode ser editado para atender a interesses individuais ou institucionais específicos, sem análise técnica prévia e sem consulta pública, é legítimo questionar quantos outros atos semelhantes podem ter sido praticados — ou ainda poderão ser — sem a mesma reação da população ou sem a denúncia de vereador.

Mais do que isso, o episódio suscita uma reflexão inevitável: se esse tipo de decisão voluntarista é adotado no exercício da Prefeitura, imagine o alcance e o impacto desse mesmo método aplicado a um cargo ainda mais poderoso, como o de Governador do Estado do Rio de Janeiro, caso Eduardo Paes venha a ser eleito.

Quanto maior o poder concentrado, maiores devem ser os freios, a cautela e o compromisso com o interesse coletivo.

A democracia não pode depender do acaso, da sorte ou da mobilização pontual para conter decisões equivocadas.

O exercício do poder exige critérios, transparência e responsabilidade permanente, justamente para evitar que decretos administrativos passem despercebidos quando não há barulho, indignação pública ou vigilância política imediata.


Eduardo Paes: Imperador ou Prefeito?

República no papel, império na prática

Quando o “Estado sou eu” substitui a legalidade, a impessoalidade e o interesse público

O que se lê naquela matéria do Diário do Rio é algo inacreditável. A narrativa não parece tratar de um Estado democrático de direito, nem de um governo republicano, muito menos de uma administração pública submetida a regras, limites e controles institucionais.

A história soa como coisa de um governo imperial, em que decisões relevantes sobre a cidade, sobre o direito de propriedade e sobre a vida econômica local surgem como se fossem atos pessoais, discricionários, quase graciosos — à moda de um imperador absolutista, no estilo de Luís XIV, o Rei Sol, e não de um chefe do Poder Executivo eleito em uma República.

Não por acaso, a situação remete à célebre frase que simboliza o absolutismo monárquico:

“L’État, c’est moi.”
(“O Estado sou eu.”)

Ainda que historiadores debatam se essa frase foi efetivamente dita nesses termos, ela se consolidou como síntese de uma forma de governar em que o Estado se confunde com a vontade pessoal do governante, em que instituições, regras e controles são secundários, e em que decisões públicas passam a depender do arbítrio individual.

Não é assim que se governa um município, um Estado ou um país democrático.

Não é assim que se decide sobre desapropriações.

E definitivamente não é assim que se respeitam a legalidade, a impessoalidade e o interesse público.

As opiniões expressas neste artigo são de exclusiva responsabilidade do autor e não refletem, necessariamente, a posição do jornal.

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