Há histórias que somente poderiam acontecer em Piraí. Depois de deixar o Palácio Guanabara, enfrentar a prisão, o ostracismo e uma longa sucessão de batalhas judiciais, Luiz Fernando Pezão voltou à cidade natal e reconstruiu sua carreira política. Eleito em 2024 com 58,58% dos votos válidos, reassumiu, em janeiro do ano seguinte, a Prefeitura que já havia comandado por dois mandatos.
Agora, outro personagem inseparável da trajetória do ex-governador também ensaia sua própria volta por cima: o torresmo.
Durante décadas, o tradicional e crocante petisco foi tratado quase como um criminoso habitual da alimentação brasileira. Gorduroso, calórico, salgado e normalmente acompanhado por cerveja, ganhou fama de inimigo do coração, da balança e de qualquer exame de sangue minimamente respeitável.
Mas estudos recentes passaram a examinar o alimento com um pouco mais de nuance. A conclusão não é que o torresmo tenha virado remédio, suplemento ou alimento liberado para consumo sem limites. O que as pesquisas indicam é algo mais modesto — e talvez mais surpreendente: consumido ocasionalmente, em porções controladas e dentro de uma alimentação equilibrada, ele pode não ser o monstro nutricional que se imaginava.
Para Pezão, a notícia chega com sabor de justiça histórica. Poucos políticos fluminenses estão tão ligados ao torresmo quanto o atual prefeito de Piraí.
O botequim de Pezão
A história dessa relação foi contada em 2024 pelo jornalista Juarez Becoza, em reportagem publicada no Tempo Real sobre o Rei do Torresmo, estabelecimento de Geraldo Teixeira, o Seu Geraldo.
O bar chegou a ser uma das atrações mais conhecidas da cidade. O torresmo servido ali é feito com barriga de porco, tem uma camada generosa de carne e chega à mesa pururucado na própria banha, normalmente acompanhado por limão, cerveja, cachaça e uma quantidade considerável de guardanapos.
A ligação de Pezão com o lugar começou muito antes de ele chegar ao Governo do Estado. “Frequento o Geraldo desde os tempos de vereador, nos anos 80. Nem conhecia a Maria Lúcia e já comia esse torresmo”, contou o ex-governador, referindo-se à esposa, Maria Lúcia Pezão, também conhecida como boa de garfo e de copo.
Com o passar do tempo, o estabelecimento tornou-se uma espécie de gabinete político informal. Pezão realizou ali reuniões, encontros com correligionários, conversas de campanha e confraternizações com prefeitos. A intimidade era tanta que o lugar passou a ser chamado por muitos moradores de “Botequim do Pezão”.
Até o presidente Luiz Inácio Lula da Silva esteve no local durante seu segundo mandato.
O torresmo de Seu Geraldo deixou, assim, de ser apenas um petisco de Piraí. Levado por Pezão a reuniões, campanhas e encontros políticos, transformou-se numa espécie de cartão de visitas da cidade — popular, interiorano, farto e sem nenhuma preocupação em parecer sofisticado.
A pandemia quase interrompeu essa história. Em 2021, Seu Geraldo e a esposa, Dona Irene, adoeceram gravemente. Sem clientes e enfrentando dificuldades financeiras, o proprietário fechou o bar que mantinha no Centro de Piraí.
O fim do estabelecimento também atingiu emocionalmente Seu Geraldo, que, longe das mesas, dos fregueses e das panelas, entrou em depressão. A retomada começou quando um irmão lhe ofereceu um pequeno espaço junto a um restaurante na estrada para Barra do Piraí.
Ali, em instalações mais modestas, o Rei do Torresmo voltou a funcionar. E Pezão voltou a fazer o que sempre fizera: levar amigos, visitantes e aliados para comer o petisco.
À época da reportagem, quando ainda era pré-candidato à Prefeitura, ele chegou a prometer, entre risos, incluir no programa de governo a volta do Rei do Torresmo ao Centro da cidade.
Dois anos depois, Pezão está novamente prefeito. O bar sobreviveu. E até a reputação do torresmo começa a mudar.
O que diz a ciência
Um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade de Valladolid, na Espanha, acompanhou cerca de 40 mulheres submetidas a uma experiência alimentar durante 98 dias.
Duas vezes por semana, as participantes consumiram 150 gramas do chamado Torrezno de Soria, especialidade espanhola semelhante ao torresmo, preparada com carne e pele de porco e frita em azeite extravirgem. Parte das mulheres consumiu o alimento acompanhado por 200 gramas de vegetais.
Os pesquisadores avaliaram peso, composição corporal, pressão arterial e níveis de colesterol e triglicerídeos. O trabalho, publicado na revista científica Food Science & Nutrition, concluiu que a inclusão controlada do torresmo numa alimentação de padrão mediterrâneo, especialmente quando combinado com fibras e vegetais, não provocou a catástrofe metabólica que se poderia esperar.
Ao contrário, foram observadas melhoras em alguns fatores associados à síndrome metabólica entre mulheres saudáveis com sobrepeso.
O estudo ganhou repercussão no Brasil depois de ser abordado pela The Conversation e republicado pela revista Galileu. Outros textos destacaram que o torresmo contém proteínas e colágeno e praticamente não possui carboidratos, o que explica sua popularidade entre seguidores de dietas de baixo consumo de açúcar e farinha.
Nada disso, porém, significa que o petisco esteja liberado para consumo diário ou que possa substituir uma alimentação variada. A pesquisa teve uma amostra pequena, formada somente por mulheres, e analisou uma preparação bastante específica, frita em azeite extravirgem e inserida numa dieta controlada.
Também não se pode confundir o torresmo do estudo com qualquer versão industrializada ou preparada em gordura reaproveitada, carregada de sal e servida em porções gigantescas.
A principal lição é outra: os efeitos de um alimento dependem da quantidade, da forma de preparo, da frequência de consumo e de tudo aquilo que o acompanha.
Em outras palavras, comer alguns pedaços de torresmo junto a uma refeição equilibrada não é a mesma coisa que devorar uma travessa inteira entre sucessivas garrafas de cerveja.
Uma sentença mais branda
O torresmo, portanto, ainda não foi plenamente absolvido. No máximo, conseguiu um habeas corpus nutricional.
Pode circular, mas sob condições: nada de reincidência diária, exageros ou a pretensão de substituir legumes, frutas e outros alimentos. De preferência, deve aparecer acompanhado por vegetais, moderação e algum respeito pelos limites do próprio organismo.
Para Piraí, já é uma vitória.
Primeiro, Pezão voltou à Prefeitura. Depois, Seu Geraldo voltou a fritar seus torresmos. Agora, o próprio petisco que os uniu durante quase quatro décadas começa a sair do banco dos réus.
Na cidade onde até o que parecia definitivamente frito consegue dar a volta por cima, talvez não pudesse ser diferente.