
Todos os governadores eleitos no Estado do Rio de Janeiro nos últimos 30 anos foram presos ou destituídos do cargo[1].
Cláudio Castro, o mais novo ex-governador do Rio, renunciou ao cargo na segunda-feira (23.03.2026) na véspera do julgamento no TSE que o condenou por envolvimento em um esquema de abuso de poder político e econômico nas eleições de 2022.
Castro não tinha vice desde meados de 2025 quando sua linha sucessória foi propositalmente desmontada. Thiago Pampolha, seu então colega de chapa, foi remanejado ao cargo de conselheiro no TCE/RJ.
O objetivo dessa movimentação é de conhecimento público e notório: o grupo do ex-governador Cláudio Castro retirou o vice da linha sucessória para facilitar os planos eleitorais do então presidente da ALERJ, Rodrigo Bacellar.
Bacellar foi eleito para presidir a ALERJ em 2025 com 100% dos votos. Pela primeira vez na história do Estado, uma chapa recebeu voto favorável de todos os 70 parlamentares[2].
Em 3 de dezembro, Bacellar foi preso, acusado de vazar informações sigilosas da Operação Zargun, que resultou na prisão do ex-deputado TH Joias, suspeito de ligação com o Comando Vermelho. Bacellar foi preso pela Polícia Federal dentro da Superintendência da PF no Rio, após ser convocado para uma reunião. Durante a operação, a PF apreendeu R$ 90 mil no carro do deputado. Acabou solto após o Ministro Alexandre de Moraes determinar substituição da detenção por medidas cautelares, entre elas, uso de tornozeleira eletrônica e o afastamento da presidência da ALERJ[3].
No dia 27.02.2026 o Jornal Nacional noticiou o indiciamento de Rodrigo Bacellar e de mais quatro por vazamento de dados para o Comando Vermelho. A operação policial apontou a existência de um ‘ESTADO PARALELO’ no Rio de Janeiro[4].
Bacellar foi apontado pela PF como a liderança do núcleo político de uma organização criminosa. Segundo a Polícia Federal, a principal força de Rodrigo Bacellar no esquema era a capacidade de interlocução e persuasão junto a integrantes dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário do Estado do Rio.
No comando dessa estrutura paralela, e já antecipando a possibilidade de se eleger governador do Estado, Bacellar prometeu interceder no Judiciário fluminense em nome de Sérgio Cabral[5], arrumou tempo para lavar dinheiro com frigoríficos em Campos dos Goytacazes[6] e organizou planilha que loteava o governo do Estado entre deputados da ALERJ[7].
Sobre a suposta intercessão que fez no Judiciário em nome de Cabral, recebeu a seguinte mensagem do ex-governador: “Irmão! Saiu de pauta o meu processo. Você é um querido!!!! Te amo, amigo!!!”
Com a renúncia/cassação de Castro, quem está no comando do Estado? Afinal, o vice Pampolha foi escanteado no ano passado para abrir caminho a Bacellar que já se sentia tanto governador do Rio de Janeiro que, na esteira de seus mentores, acabou preso e cassado antes mesmo de sentar no Palácio Guanabara.
Com a tripla vacância, o presidente do Tribunal de Justiça do Rio (TJRJ), Ricardo Couto, assume o cargo de forma provisória. Contudo, a confusão institucional persiste.
A paralisia decisória e o caos institucional gestaram um cenário incerto, em especial, no que diz respeito à definição das regras para a eleição de um governador tampão. No dia 25.03.2026, Ricardo Couto enviou um ofício ao Tribunal Superior Eleitoral para pedir esclarecimentos sobre o tipo de eleição que seria realizada no Estado[8].
Inicialmente, o TSE havia emitido Certidão de Julgamento que ordenava a realização de eleições com fulcro no art. 224 do Código Eleitoral:
O acórdão do TSE, ao determinar a realização de novas eleições para os cargos majoritários com fundamento no art. 224 do Código Eleitoral, impunha a observância integral dos §§ 3º e 4º do referido dispositivo. Como a vacância do cargo de governador decorre de causa eleitoral (cassação de diploma), aplicar-se-ia o art. 224, § 4º, e não o regime da Constituição Estadual para dupla vacância por causas não eleitorais. Restando mais de seis meses para o término do mandato (janeiro de 2027), a eleição deveria ser, então, direta, nos termos do art. 224, § 4º, II, do Código Eleitoral.
Contudo, o TSE retificou a Certidão de Julgamento após provocação e ofício do governador em exercício. Foi ajustada para indicar que a sucessão nos cargos majoritários deveria ocorrer por meio de eleições indiretas. Com essa alteração, o Tribunal afastou a aplicação do art. 224 do Código Eleitoral e fundamentou a determinação no art. 142, § 1º, da Constituição Estadual do Rio de Janeiro. Dessa forma, a ordem enviada com urgência ao TRE/RJ estabeleceu que a escolha dos novos ocupantes do governo fluminense fosse realizada pelo Poder Legislativo, mantendo-se, em paralelo, a retotalização imediata dos votos para o cargo de deputado estadual em razão da perda de mandato de Rodrigo Bacellar.
Na eleição indireta, o novo governador será escolhido pelos 70 deputados estaduais da ALERJ, em sessão extraordinária. Para vencer em primeiro turno, a chapa precisa obter maioria absoluta, ou seja, pelo menos 36 votos.
Recorde-se que essa é a mesma ALERJ que elegeu Bacellar por unanimidade histórica. A mesma casa que, segundo a apuração da Polícia Federal, hospeda o parasita de um ‘ESTADO PARALELO’.
Os principais nomes numa disputa indireta no bojo da ALERJ são Douglas Ruas e Nicola Miccione[9], dois secretários desligados do governo de Cláudio Castro a menos de uma semana. Nicola passou cerca de seis anos à frente da Casa Civil de Castro. Bacellar, antes de ser preso, planejava indicar Douglas Ruas para a sua futura Secretaria de Obras do Estado[10].
Ruas tem sua pretensão assentada sobre um alicerce de práticas que mimetizam os piores vícios da política fluminense, unindo o manejo nebuloso de verbas públicas à estética da violência policial.
Enquanto secretário de Gestão em São Gonçalo, operou o escoamento de R$ 250,5 milhões provenientes do extinto “Orçamento Secreto”, transformando o município no quinto maior beneficiário desse esquema de falta de transparência no país. Essa injeção de recursos, especialmente os R$ 17,2 milhões destinados à pavimentação por meio de emendas de Altineu Côrtes, é apontada por interlocutores da ALERJ como uma manobra para concentrar poder excessivo nas mãos de um único grupo político[11].
Acentua-se o perfil do pré-candidato por sua linhagem familiar: o atual prefeito de São Gonçalo, uma das cidades mais violentas do Estado, é Capitão Nelson, seu pai, e carrega um histórico de letalidade como integrante da patrulha “carruagem do além”, tendo sido agraciado com a famigerada “gratificação faroeste” — prêmio pecuniário que incentivava o extermínio em serviço. Além disso, o patriarca foi alvo de investigações na CPI das Milícias em 2008, citado como componente de grupo paramilitar, e enfrentou resistências éticas até mesmo para escoltar a magistrada Patrícia Acioli, dada a sua proximidade com policiais que eram alvos da juíza. Esse cenário de beligerância é atualizado pelo irmão de Douglas, o vereador Nelsinho, cuja segurança se envolveu recentemente em um atentado a tiros contra um sargento da Polícia Militar em uma briga de trânsito.
Em síntese, a decisão do TSE, ao retificar a Certidão de Julgamento para determinar a realização de eleições indiretas com fundamento no art. 142, § 1º, da Constituição Estadual do Rio de Janeiro, incorreu em erro jurídico grave e em frontal descumprimento da decisão vinculante proferida pelo Plenário do Supremo Tribunal Federal na ADI 5.525/DF. É que a vacância dos cargos de governador e vice-governador do Estado do Rio de Janeiro decorre de causa eleitoral — a cassação dos diplomas de Cláudio Bomfim de Castro e Silva e Rodrigo da Silva Bacellar, determinada pelo próprio TSE — hipótese para a qual o STF fixou, com eficácia vinculante e erga omnes, que a competência legislativa pertence à União, por força do art. 22, I, da Constituição Federal, e não aos entes federados. Portanto, a aplicação da Constituição Estadual para reger a forma de eleição em caso de vacância por causa eleitoral subverte a ratio decidendi da ADI 5.525/DF, usurpa a competência da União e viola o princípio democrático e a soberania popular, ao subtrair do eleitor fluminense o direito ao voto direto na escolha do governador.
[1] YAGO GODOY, Castro condenado: todos os governadores eleitos nos últimos 30 anos foram presos ou destituídos do cargo; relembre, O Globo, Rio de Janeiro, 24 mar. 2026. Disponível em: https://oglobo.globo.com/politica/noticia/2026/03/24/castro-condenado-todos-os-governadores-eleitos-nos-ultimos-30-anos-foram-presos-ou-destituidos-do-cargo-relembre.ghtml. Acesso em: 26 mar. 2026.
[2] BUANNA ROSA; GUSTAVO NATARIO; LEON CONTINENTINO, Rodrigo Bacellar é reeleito por unanimidade histórica presidente da Alerj para o biênio 2025-2026, Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 3 fev. 2025. Disponível em: https://www.alerj.rj.gov.br/Visualizar/Noticia/72850. Acesso em: 26 mar. 2026.
[3] ANDRÉ COELHO; GUILHERME PEIXOTO; G1; GLOBONEWS; TV GLOBO, Rodrigo Bacellar deixa prisão na PF após decisão do STF já com a tornozeleira eletrônica, G1, Rio de Janeiro, 9 dez. 2025. Disponível em: https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2025/12/09/rodrigo-bacellar-deixa-prisao-na-pf-apos-decisao-do-stf.ghtml. Acesso em: 26 mar. 2026.
[4] JORNAL NACIONAL, PF indicia Rodrigo Bacellar e mais 4 por vazamento de dados para o Comando Vermelho, G1, Rio de Janeiro, 27 fev. 2026. Disponível em: https://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2026/02/27/pf-indicia-rodrigo-bacellar-e-mais-4-por-vazamento-de-dados-para-o-comando-vermelho.ghtml. Acesso em: 26 mar. 2026.
[5] ROBSON BONIN, PF acha mensagens de Sérgio Cabral e Rodrigo Bacellar sobre favores no Judiciário do RJ, Veja, São Paulo, 25 mar. 2026. Disponível em: https://veja.abril.com.br/brasil/pf-acha-mensagens-de-sergio-cabral-e-rodrigo-bacellar-sobre-favores-no-judiciario-do-rj/. Acesso em: 26 mar. 2026.
[6] GABRIEL BARREIRA; ANDRÉ COELHO COSTA; RJ2, PF investiga Bacellar por suspeita de lavagem de dinheiro ligada a frigorífico em Campos dos Goytacazes, G1, Rio de Janeiro, 2 mar. 2026. Disponível em: https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2026/03/02/pf-investiga-bacellar-por-suspeita-de-lavagem-ligada-a-frigorifico-em-campos.ghtml. Acesso em: 26 mar. 2026.
[7] ROBSON BONIN, PF encontra planilha de Bacellar sobre loteamento do governo do Rio entre deputados da Alerj, Veja, São Paulo, 26 mar. 2026. Disponível em: https://veja.abril.com.br/brasil/pf-encontra-planilha-de-bacellar-sobre-loteamento-do-governo-do-rio-entre-deputados-da-alerj/. Acesso em: 26 mar. 2026.
ANDRÉ COELHO COSTA; GABRIEL BARREIRA; MARCO ANTÔNIO MARTINS; TV GLOBO; G1 RIO, Cargos, influências, áreas: planilha apreendida lista ‘o que têm’ deputados e ‘pedidos’ feitos a Bacellar, segundo a PF, G1, Rio de Janeiro, 27 fev. 2026. Disponível em: https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2026/02/27/planilha-pf-bacellar-deputados.ghtml. Acesso em: 26 mar. 2026.
[8] RAONI ALVES; GABRIEL BARREIRA; G1 RIO; RJ2, Governador em exercício pede que TSE confirme se eleição no RJ será direta ou indireta, G1, Rio de Janeiro, 25 mar. 2026. Disponível em: https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2026/03/25/ricardo-couto-coletiva-governador-do-rj-apos-renuncia-de-castro.ghtml. Acesso em: 26 mar. 2026.
[9] RAYSSA MOTTA, Eleição indireta no Rio: o entendimento da PGR que favorece grupo de Castro, Veja, São Paulo, 26 mar. 2026. Disponível em: https://veja.abril.com.br/politica/eleicao-indireta-no-rio-o-entendimento-da-pgr-que-favorece-grupo-de-castro/. Acesso em: 26 mar. 2026.
[10] LUIZ ERNESTO MAGALHÃES, Antes de ser preso, Bacellar já planejava montar a equipe; se fosse eleito governador, Douglas Ruas iria para a Secretaria de Obras, O Globo, Rio de Janeiro, 27 fev. 2026. Disponível em: https://oglobo.globo.com/rio/noticia/2026/02/27/antes-de-ser-preso-bacellar-ja-planejava-montar-a-equipe-se-fosse-eleito-governador-douglas-ruas-iria-para-a-secretaria-de-obras.ghtml. Acesso em: 26 mar. 2026.
[11] BERNARDO MELLO, Cotado ao governo do Rio, Douglas Ruas ascendeu entre injeção de emendas milionárias e ‘faroeste’ do passado familiar, O Globo, Rio de Janeiro, 25 jan. 2026. Disponível em: https://oglobo.globo.com/politica/noticia/2026/01/25/cotado-ao-governo-do-rio-douglas-ruas-ascendeu-entre-injecao-de-emendas-milionarias-e-faroeste-do-passado-familiar.ghtml. Acesso em: 26 mar. 2026.