
Com um figurino todo preto, adornado por brilhos, o cantor e compositor Diogo Nogueira chegou na tarde de terça-feira ao Teatro Rival, na Cinelândia, no Centro do Rio, para anunciar oficialmente sua nova turnê, Infinito Samba. O local não foi escolhido por acaso: foi ali que o artista se apresentou pela primeira vez e agora retorna para celebrar 20 anos de carreira, ao lado da imprensa, da jornalista Flávia Oliveira e do historiador Luiz Antônio Simas.
A turnê marca uma nova fase do sambista e vai percorrer o país a partir do próximo ano, logo após o Carnaval, com a proposta de “unir a ancestralidade da música brasileira com um olhar inovador para o futuro”, como define o próprio Diogo.
Dirigida por Rafael Dragaud, ex-TV Globo e atual diretor da turnê Tempo Rei, de Gilberto Gil, a série de shows começa e termina no Rio de Janeiro. A estreia está marcada para 1º de março, na Farmasi Arena, na Barra da Tijuca, e o encerramento acontece em 20 de junho, no Parque Madureira, com apresentação gratuita e gravação de um audiovisual.
“A essência do samba está no Parque Madureira. É um lugar onde estão o Império Serrano, a Serrinha e a Portela. Fica ao lado de Rocha Miranda, onde minha família e eu fomos criados. A gente volta ao Rio para fazer o show no Parque Madureira de graça, para o povo do samba”, comenta.
O cantor afirma ainda que a força do samba está no subúrbio do Rio de Janeiro e que esse público merece acesso a uma produção à altura da importância do gênero. “Acho que eles merecem a dignidade de um samba sofisticado, com o terreiro dentro dele, com a batucada do tambor, mas também com uma orquestra, fazendo essa junção do samba com o erudito. Acredito que o samba merece estar nesse lugar. Quero dar isso como um presente, um direito deles. Eles que me movem, eles que me escutam, são a raiz do samba”, completa.

Neto de João Batista Nogueira, advogado e sambista que conviveu com nomes como Pixinguinha, Noel Rosa e Donga, Diogo cresceu em um ambiente onde o samba fazia parte da vida cotidiana. Entre as músicas escolhidas para a turnê estão sucessos do próprio artista e releituras de clássicos de João Nogueira, Clara Nunes e Roberto Carlos, além de cinco canções inéditas, como adiantou ao Diário do Rio.
Orquestra, dança e samba de gafieira
O espetáculo foi concebido para integrar música, figurino e elementos cênicos. Em cena, Diogo reúne sua banda, bailarinos de samba de gafieira e a Orquestra MPB Jazz, totalizando 35 músicos. A proposta é criar uma sonoridade “enfezada” e encorpada, que homenageie o samba de forma elegante e potente, reunindo diferentes linguagens em um mesmo espetáculo.
Apaixonado pelo samba de gafieira, o cantor ressalta a importância de manter viva a tradição da dança na turnê e apresentou uma prévia do que o público pode esperar, com a participação de um casal de bailarinos durante o anúncio. “Sou um apaixonado pelo samba de gafieira, ele permite que você solte o corpo e dance. E a dança faz parte do samba, né? A coisa do molejo, da sedução. Estará presente também”, afirma.


Retomando o repertório, não vão faltar sucessos como Tô fazendo a minha parte, Alma boêmia, Clareou e Pé na areia. Segundo o diretor musical, a seleção das músicas envolveu um processo intenso, que combinou memória afetiva e pesquisa histórica, refletindo a amplitude do samba como um gênero capaz de dialogar com diversas dimensões da cultura brasileira. O roteiro conta com clássicos consagrados, canções românticas, momentos dedicados ao samba de gafieira e trechos que evocam o clima das tradicionais rodas de samba.
Da superação pessoal ao reconhecimento nacional
Diogo também falou abertamente sobre o início difícil da carreira, após abandonar o futebol por causa de uma lesão. “Eu era um menino que tinha acabado de sofrer uma lesão como jogador profissional de futebol. Voltei do Rio Grande do Sul e fiquei quase um ano sem saber o que fazer. Fiquei trancado em casa e foi justamente quando resolvi ir para as rodas de samba, para mudar os ares”, relembra.
Foi Beth Carvalho quem deu o empurrão definitivo para a carreira profissional, ao convidá-lo para participar de um DVD. “Foi quando as pessoas do Brasil passaram a saber que eu estava cantando. Ele foi quem me deu o empurrão, dizendo que eu precisava cantar e que as pessoas tinham que escutar a minha voz. Agradeço também ao Teatro Rival, foi aqui que eu comecei, e à grande Alcione, que me ajudou muito nesse caminho”, explica.


Desde então, Diogo lançou 19 trabalhos, venceu o Grammy Latino em 2010 e teve músicas premiadas. Seu álbum mais recente, Sagrado vol. 2, lançado em junho de 2025, homenageia as diferentes formas de amor.
Samba, política e futuro
Encerrando a coletiva, o artista, consciente da função social do samba, destacou a criação do Clube do Samba por seu pai no final dos anos 1970 como um movimento de resistência cultural. Para ele, o samba é sinônimo de luta.
A turnê Infinito Samba conta com patrocínio da Petrobras, por meio das leis de incentivo à cultura, tema que também foi abordado durante a conversa. “As leis de incentivo movimentam a cultura, geram empregos. Tem a pessoa da limpeza, os seguranças, a pessoa que te serve a cervejinha. As pessoas confundem e acham que o dinheiro vem todo para o meu bolso. Recebo apenas uma parte, assim como todos os funcionários e músicos que vão trabalhar na turnê. A pessoa que pensa ao contrário disso é ignorante. Antes de falar sobre a lei, estude”, reforça.
Questionado sobre como dialogar com os mais jovens, Diogo foi direto: seguirá fazendo música do seu jeito, mantendo sua identidade e unindo ancestralidade e inovação, sem se moldar a padrões.
Datas da turnê Infinito Samba
- 20/06: Rio de Janeiro – Parque Madureira (Gravação do audiovisual);
- 01/03: Rio de Janeiro – Farmasi Arena;
- 06/03: São Paulo – Tokio Marine Hall;
- 14/03: Belém – Local a ser anunciado;
- 20/03: Porto Alegre – Auditório Araújo Vianna;
- 27/03: Curitiba – Teatro Positivo;
- 10/04: Brasília – Centro de Convenções Ulysses Guimarães;
- 18/04: Recife – Local a ser anunciado;
- 24/04: Salvador – Local a ser anunciado;
- 09/05: Fortaleza – Local a ser anunciado;
- 06/06: Belo Horizonte – BeFly Hall;
