
A terceira e última matéria da série #É dia de Feira, produzida pelo DIÁRIO DO RIO, fala sobre a produção de alimentos na cidade e a relação direta com os feirantes.
De acordo com dados da Emater-RJ (Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado do Rio de Janeiro), de 2019, o município do Rio possui ao menos 975 agricultores urbanos apenas na Área de Planejamento 5 (AP5), que abrange a maior parte da Zona Oeste.
As demais Áreas de Planejamento registram, somadas, um número menor de produtores, mas ainda assim significativos: 380 na AP4, 115 na AP3 e 35 na AP2.
“Apesar de sua importância social, econômica e ambiental, a agricultura urbana ainda é amplamente invisibilizada pelas estruturas formais de planejamento urbano. O Plano Diretor do Rio de Janeiro, recentemente atualizado, reafirma a cidade como exclusivamente urbana e ignora sua dimensão produtiva, contribuindo para o enfraquecimento dessa prática. A inexistência de uma zona rural reconhecida e de instrumentos específicos para o fortalecimento da agricultura familiar urbana dificulta o acesso a políticas públicas, como crédito agrícola, assistência técnica, regularização fundiária e o uso de espaços públicos para cultivo e comercialização. Mais do que produzir alimentos, a agricultura urbana também desempenha uma função ecológica estratégica. Ao ocupar a terra com cultivos, ela contribui para o manejo sustentável dos recursos naturais, amplia as áreas verdes, melhora a permeabilidade do solo e reduz os riscos de alagamentos e enchentes, intensificados pela impermeabilização da cidade com concreto e asfalto. Dessa forma, os espaços de cultivo funcionam como zonas de transição ecológica entre áreas urbanizadas e de proteção ambiental, atuando como barreiras à expansão urbana desordenada e colaborando com a preservação de florestas, nascentes e biodiversidade“, destaca o vereador Wiliam Siri (PSOL), que lançou o levantamento A realidade do trabalho nas feiras do Rio de Janeiro, produzido por seu mandato.
As feiras realizadas na cidade do Rio são organizadas, em sua maioria, de forma autônoma por redes de agricultores urbanos, funcionando por autogestão.
“Apesar de sua contribuição evidente para a segurança alimentar e o bem-estar da população, essas iniciativas seguem invisibilizadas e sem reconhecimento oficial. Ainda é urgente a ampliação de políticas permanentes de fomento à agroecologia e à comercialização direta, com infraestrutura, logística e apoio institucional“, pontua Siri.
O Maciço da Pedra Branca, que abriga uma das maiores riquezas produtivas e ambientais da nossa cidade e a maior floresta urbana do mundo, tem como protetores e aliados os sítios e chácaras mantidos por agricultores e agricultoras que, além de produzirem alimentos de qualidade e abastecerem feiras em diversos pontos da cidade, ainda funcionam como zona de amortecimento e resistência, contendo o avanço desordenado da urbanização sob a mata preservada.
Ex-gestor do Parque Estadual da Pedra Branca, Marcelo Soares conta que “atualmente deve ter cerca de 200 agricultores na área do Parque. Alguns de terceira, quarta geração, incluindo quilombolas”.
“É nessa região que o cultivo de caqui se destaca não só pela sua relevância econômica, mas também pelo valor cultural que assumiu. A cada colheita, a paisagem da cidade muda. Surgem as tradicionais barracas de caqui ao longo da Avenida Brasil, marcando uma época esperada por muitos cariocas. Essa fruta, hoje símbolo da produção rural do subúrbio, representa a força da agricultura familiar que persiste dentro dos limites da cidade do Rio de Janeiro“, pontua o relatório.
O levantamento destaca, ainda, que nesse contexto, surge o Tira Caqui, uma iniciativa voltada para a colheita e comercialização dos caquis cultivados em sítios na Pedra Branca.

Fotos: Felipe Ouverney | Mandato William Siri.
A maior parte dos agricultores envolvidos vive em bairros como Campo Grande, Vargem Grande e Taquara, e integra associações, quilombos e movimentos agroecológicos. As práticas são baseadas em preceitos ecológicos, o que fortalece o compromisso com a saúde, o meio ambiente e a soberania alimentar.
“Apesar de toda a história e do potencial da região, nos últimos anos, o evento anual do Tira Caqui tem perdido força. Isso se deve a um inimigo comum a esses produtores: as mudanças climáticas. A cada ano, a produção de caqui tem sido diretamente afetada com a queda na produtividade, além disso, temos relatos recorrentes sobre a piora da qualidade dos frutos. Todo esse contexto gerou nos últimos anos a redução do caqui e, por consequência, inviabilizou a realização de alguns mutirões de colheita“, declara William Siri.
Mudanças climáticas
Cerca de 90% dos entrevistados pelo levantamento A realidade do trabalho nas feiras do Rio de Janeiro já sentem os efeitos das mudanças do clima em suas produções. É importante destacar que os 9,8% que afirmaram não perceber impactos são, em sua maioria, feirantes que comercializam produtos que não dependem exclusivamente do cultivo, como é o caso do artesanato e de cosméticos naturais.
“A gente sente que está diferente. As chuvas não têm mais uma época certa, o calor está pior“, disse Robson Aguiar, agricultor na região do Pau da Fome, na Taquara.






Gráficos do relatório A realidade do trabalho nas feiras do Rio de Janeiro
“A chuva de granizo em janeiro deste ano prejudicou toda a safra de caqui da região”, lembrou o agricultor Claudino, que também é feirante em Campo Grande.
A produção orgânica e agroecológica adota métodos baseados na agricultura tradicional, que respeita os ciclos naturais e não utiliza fertilizantes químicos nem agrotóxicos. Dessa forma, mais de 65% dos feirantes afirmam ser também agricultores.
“Ao analisarmos esses dados em conjunto, temos uma dimensão mais clara dos impactos profundos das mudanças climáticas. A instabilidade na produção, somada à insegurança quanto às condições climáticas, ameaça diretamente o sustento dessas famílias, e a causa principal são os danos irreversíveis provocados pelo modelo de produção capitalista sobre o meio ambiente“, finaliza William Siri.