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Em busca do nacionalismo de esquerda, Elias Jabbour se coloca como pré-candidato a deputado

Foto: Felipe Lucena

Nascido em São Paulo, Elias Jabbour atualmente preside o Instituto Pereira Passos (IPP). É pré-candidato a deputado estadual pelo PCdoB d Rio de Janeiro, além de professor associado da Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, UERJ.

Elias também atua nos programas de Pós-Graduação em Ciências Econômicas (PPGCE) e em Relações Internacionais (PPGRI) também na UERJ. E não menos importante, ele toca na bateria Unidos de Vila Isabel.

Morador do bairro da escola de samba, Elias Jabbour deu uma entrevista para o DIÁRIO DO RIO na sede do IPP na qual falou sobre sua pré-candidatura, política nacional e internacional e Carnaval.

Quais serão suas principais plataformas e ideias para sua candidatura a deputado federal, em outubro?

Eu acho que existe no Brasil e no Rio de Janeiro um vazio no discurso nacionalista de esquerda. Durante muito tempo, desde a década de 1990, discursos que eu chamo de totalidade, ou seja, se fala do nacional, em desenvolvimento, política industrial, em classes sociais, em país. Essas micronarrativas estão tomando sempre o debate público. E a própria esquerda perdeu um pouco o bonde do debate. Ela foi abandonando de forma limpa, gradual e insegura a pauta nacional, a pauta do desenvolvimento, a pauta do projeto nacional. Então a nossa candidatura cumpre um papel político muito claro que é trazer para o seio do debate político um guarda-chuva nacional. E a linha mestra disso é a necessidade urgente de reindustrialização do Brasil. Então, eu sou pré-candidato a deputado federal nessa plataforma, com discurso majoritários de governadores sabe? E também que sente o nosso discurso muito na questão do projeto oral do processo e da centralidade do processo. E isso vai estar no palanque junto com Lula para presidente com Eduardo Paes para governador e Benedita para o Senado.

Então, nessa pré-candidatura, você busca o eleitorado do PDT, que já foi muito forte no Rio de Janeiro com bandeiras bem parecidas?
A nossa pré-candidatura pode atingir todo um eleitorado que votou que votou no Ciro Gomes em 2018. Ele ganhou no Rio de Janeiro. E o Ciro Gomes é uma figura que vocalizava a questão do projeto nacional. Eu acredito que o nosso conteúdo visa um projeto nacional diferente do Ciro Gomes. Mas não é essa a questão. A questão é que existe um nicho no Rio de Janeiro que nós estamos explorando. Nosso eleitorado é, evidentemente, de esquerda, uma esquerda que tem relações históricas no trabalhismo com brizolismo, com getulismo e por aí vai. Ou seja, esse é o caminho que nossa pré-candidatura está ocupando. E está ocupando com muito sucesso, inclusive, até pela pela repercussão das nossas intervenções pública e debates nas redes sociais, em podcasts e também nesse fenômeno que está sendo está se constituindo aqui na cidade do Rio de Janeiro que são as nossas aulas públicas.

Eduardo Paes terá como vice uma pessoa da família Reis, ligados ao bolsonarismo. Qual sua análise sobre isso?
Tenho uma relação política com ele muito boa. Independentemente do trabalho, temos uma relação de amizade. Claro, com concordâncias e discordâncias. Mas não tenho a menor dúvida de que no caso ele é a figura mais pronta para o momento político do Rio de Janeiro. E não somente isso, existe uma questão que envolve a viabilização de um grande palanque para o Lula aqui no Rio de Janeiro. Nós sabemos as dificuldades que o presidente Lula enfrenta no Rio. E vale falar também que foi o presidente Lula quem escolheu Eduardo Paes para ser candidato. A vontade do presidente também deve ser respeitada. Aqui, o Flávio está na frente dele nas pesquisas e Eduardo Paes assegura um palanque tão grande quanto amplo para sustentar a candidatura de Lula aqui no Rio de Janeiro. E aqui eu falo só mais um ponto que é o seguinte: o centro da nossa discussão, o debate que eu faço não é somente em torno de um projeto nacional para o Rio. No imediato é garantir com que a extrema-direita não volte a governar o país. Por quê? Porque se é uma direita tem duas características que devem ser denunciadas, colocadas ao público. A primeira é que ela é antipopular, ou seja, ela ela não tem a menor vergonha na cara de de chamar de deixar claro que trabalha para os ricos. A segunda é que é bloco político antinacional. Eu digo isso por quê? Porque o Flávio Bolsonaro vai ser o primeiro candidato a presidente da história do Brasil que é abertamente pró Estados Unidos. O Bolsonaro era, mas não tão abertamente. Flávio não, Flávio é explicito. E sempre pró Estados Unidos não é uma coisa boa ou ruim a priori. Mas hoje em dia, o Estados Unidos tem uma uma política externa para garantir acesso privilegiado aos recursos naturais e aos ativos estratégicos da América Latina e o Flávio Bolsonaro ao comemorar, por exemplo, a o sequestro Maduro e o bombardeiro Irã se coloca como um homem no Brasil dessa estratégia dos Estados Unidos.

Mas como você lida com as contradições de Eduardo Paes na política?
Eduardo Paes estatizou o serviço o serviço de transporte do Rio de Janeiro, mexendo com interesses dominantes profundos. Foi uma revolução. Existem as contradições e discordâncias, claro. Mas vejo o Eduardo no Eduardo como a possibilidade do Lula ter um ter um um porto seguro aqui no Rio de Janeiro, que garanta a possibilidade de conversar com muita gente. Esse é ponto. Eduardo é contraditório como qualquer pessoa é. Mas ao invés de apontar as divergências, prefiro apontar as convergências. O meu sonho seria um candidato revolucionário. Mas temos que trabalhar em cima da realidade que está posta. Deixa eu te falar uma coisa, o Flávio Bolsonaro em uma semana fechou dezenove palanques no Brasil. Dezenove palanques. O Rio, até agora, é o único palanque certo para o Lula no Sudeste. Em São Paulo, Fernando Haddad vai ter que ir para o sacrifício. Em Minas estão pedindo pelo amor de Deus para o Pacheco ser nosso candidato. No Espírito Santo nós não temos um candidato competitivo. No Paraná não tem Eduardo Paes, em Santa Catarina não tem Eduardo Paes, no Rio Grande do Sul tem duas candidaturas de esquerda que estão se digladiando. Não temos um Eduardo Paes em nenhum um palanque no Mato Grosso do Sul, no Mato Grosso, em Goiás, Tocantins. E o Flávio Bolsonaro, diferentemente do pai, é mais atraente para o centro, imprensa, mercado. Se passa de mais moderado, é mais político que os dois irmãos. A frente ampla que elegeu Lula na última eleição não será tão ampla esse ano. Justamente por essa capacidade maior que o Flávio Bolsonaro tem de alcançar apoios além da extrema-direita. Então, a vida está me colocando diante de uma responsabilidade. O mundo não está fácil. O Trump está sequestrando o presidente da Venezuela. Israel fazendo um genocídio. O Irã está sendo atacado porque é o Irã. E aqui no Rio de Janeiro eu vou ficar escolhendo aliado de acordo com meu pressuposto pequeno burguês? Infelizmente, eu não conheço a política dessa forma.

E por que a esquerda não forma novas lideranças?
O meu problema agora é derrotar a extrema-direita hoje. Daqui quatro anos é uma outra discussão. O pós-Lula para mim é uma outra discussão. Meu problema é imediato. A esquerda não formar novas lideranças, eu acho que não é uma pequena dificuldade, é uma grande dificuldade, em comparação com a extrema-direita. Só que eu não posso hoje focar nesse debate, porque a conjuntura não me permite. Assim, eu posso falar sobre isso na UERJ, como professor com meus orientandos. No conforto da universidade sim posso falar sobre. Mas na luta política, hoje, temos que pensar maneiras para derrotar a extrema-direita e para ela não voltar ao poder.

Na sua análise quais devem ser as bandeiras da esquerda nas eleições deste ano?
O presidente Lula acordou. Na medida que o presidente Lula força a barra em dois pontos, como o fim da escala 6×1 e a tarifa zero e a extrema-direita se coloca contra, ele tem o discurso de que de um lado tem um grupo que é contra os mais pobres e do outro tem um grupo que é a favor. Lula candidato dos pobres e Flávio Bolsonaro (que agora na imprensa é só Flávio) como o candidato dos ricos. Essa polarização interessa. Acho que esse é um caminho para a vitória do Lula esse ano. A esquerda tem que mostrar quem é nacionalista de verdade. A extrema-direita não é.

E como está sendo seu trabalho no Instituto Pereira Passos? Há pouco tempo, o IPP era citado por algumas pessoas do meio político como um instituto que estava sem utilidade, sem grandes realizações para a cidade. Como você vê isso?
Não é verdade. Por exemplo, se o IPP deixa de existir hoje, a Prefeitura fica às cegas. Isso no sentido dos dados que as secretarias precisam acessar para realizar políticas públicas. Eu já encontrei o IPP fazendo isso, encontrei o IPP tocando um programa que faz uma busca ativa de pessoas que, por exemplo, não não têm RG, acesso ao SUS, não têm Bolsa Família. Com essa busca ativa, incluímos mais de cem mil pessoas no jogo dos programas sociais, no jogo da identificação, no jogo da cidadania. Foi esse trabalho que nós encontramos aqui, na minha opinião muito bem administrado pelo pelo meu antecessor, o Manoel Manoel Vieira.

E quais os maiores projetos do Instituto Pereira Passos na sua gestão?
A nossa orientação, inclusive para depois que eu deixar a presidência para a eleição, é que o IPP discuta desenvolvimento econômico. Isso vem do meu perfil, meus estudos, do meu trabalho no banco dos BRICS. Nós ampliamos o programa dos territórios sociais e estamos construindo uma coordenadoria de planejamento estratégico que vai que orientar e gerar dados para uma radiografia de economia da cidade do Rio de Janeiro e a partir dessa radiografia nós podemos criar e elaborar políticas voltadas ao desenvolvimento econômico do Rio de Janeiro. O IPP hoje é uma Fic Tank que para os próximos anos, até o final da gestão Eduardo Paes, vai ser uma referência nacional em produção de dados, estudos e propostas. Já temos a questão climática. O monitoramento da emissão de gases na cidade do Rio, por exemplo. Quem faz isso é o IPP e fornece a Secretaria de Meio Ambiente. Hoje o IPP está no centro, vamos dizer assim, da política ambiental carioca. Nós fizemos também, no IPP, um levantamento de vazios urbanos. Nós vivemos uma desindustralização nas últimas décadas e ela é a grande causa de vazios urbanos em partes da cidade. A partir do índice de empregabilidade industrial, nós tivemos a clareza de saber onde está o emprego industrial no Rio de Janeiro, onde esse emprego industrial deixou de existir, onde ele ainda existe. Eu posso pegar esses dados, passar para a Prefeitura, e ela fazer políticas públicas em cima disso.

Que tipo de industrialização ainda é possível no Rio de Janeiro?
O Rio, junto com Niterói e Baixada pode ser um importante polo ferroviário que poderia atrair capital de empresas da China, por exemplo. Eu sempre falo com o prefeito Eduardo Paes, ele brinca que sou religioso da indústria, que também poderíamos ser um complexo industrial de saúde muito importante. Não tem solução para o Rio de Janeiro, inclusive em relação à segurança pública, sem passar por uma reindustrialização.

E a Vila Isabel? Porque não ganhou o Carnaval?
Assim, fanático eu só sou pelo Corinthians, que é meu time de coração. Mas sobre o Carnaval desse ano, eu acho muito mais fácil tirar um décimo da Vila Isabel do que da Viradouro, ainda mais nesse contexto do Ciça, do apelo emocional que envolveu. Mas a Viradouro teve problemas em alegoria, carro. Acho que a Vila foi injustiçada.

Você fala, faz política dentro da Vila Isabel? Por que o samba também é um ambiente com muitas contradições.
Claro. Eu não sou um estranho na Vila. Eu moro no bairro, toco na bateria há 10 anos. Converso com todo mundo sobre tudo. Eu sei que lá tem muita gente que vota no Bolsonaro, que pensa diferente de mim, mas eu converso buscando pontos de convergência, não de divergência. Não vou para o embate. E acho que vou ser bem votado na escola. Como disse, não sou um paraquedista no bairro, na escola. Eu moro lá. Eu sou um radical no conteúdo, mas sou muito flexível na minha forma de lidar com o contraditório, o diferente. E por mais que que o que o jornal que o DIÁRIO DO RIO me coloque como se fosse um como se fosse o o demônio encarnado, eu não sou [risos].

Vamos falar de China, assunto que você domina. O que Rio de Janeiro pode ensinar para eles e o que podemos aprender com os chineses?
Eu vou te dar a mesma resposta que eu dou para todos os lugares: não é que a gente do Rio ou do Brasil tem que aprender com a China. Eu acho que nós temos que olhar para a história da China desde a fundação do Partido Comunista até hoje e observar como nesse período, o país foi se reinventando e como até hoje conseguiram formar uma maioria política. Então, o desafio nosso é copiar a China entre aspas no sentido de como formar uma outra maioria política capaz de colocar o Brasil num rumo de desenvolvimento acelerado das forças produtivas. É difícil formar a maioria política aqui, a gente sabe. Mas a nossa história é feita disso também, a característica de hoje do Brasil é essa, entendeu? É a de ser um país com muitas e muitas contradições.

Você já foi citado em uma coluna aqui do DIÁRIO DO RIO e criticado por posições na política internacional. Inclusive em relação à guerra no Irã. Até brincou em uma resposta anterior dizendo que não é o demônio encarnado como o jornal pintou. Qual sua opinião sobre o atual cenário internacional envolvendo os conflitos EUA e Israel contra o Irã e também na Palestina, Gaz?
Eu sou contra o movimento colonial e racista. E isso não é ser pró-Irã. Eu acho que é observar a história do Irã e respeitar o modo de vida deles. Não existe país no mundo capaz de dizer para o outro como ele deve viver o não. E achar que o que o Estados Unidos e Israel estão preocupados com as mulheres do Irã é uma grande mentira. Eu sou anti-imperialista. E se for eleito deputado federal, vou seguir as orientações do meu partido na questão internacional, que são muito claras. Ou seja, ser a favor de qualquer povo em luta global. E isso inclui o povo palestino, o povo iraniano, contrapondo o imperialismo estadunidense. E outros povos do mundo em luta.

E a posição da China nessa guerra do Irã? Qual sua opinião?
A China não tem que entrar na guerra. A China já tem um alto nível de cooperação militar com o Irã. Tem coisas que se faz, não se fala. O Irã não estaria aguentando esse tempo todo de bombardeio sem essa cooperação. Já houve um sincericídio do ministro da defesa do Irã dizendo que tem relações de alto nível de cooperação militar com a China. A China não entrar nessa, sendo que ela tem uma questão em Taiwan e desafios internos como 1.4 bilhão de habitantes para alimentar e mais do que isso, a China tem mais cinco anos do plano quinquenal para desatar os pontos de estrangulamento do setor de alta tecnologia. A China está diante de tarefas nacionais que são muito gigantescas. E em grande medida a China já se posiciona nessa guerra. E mais do que isso, a China hoje é o maior investidor do Irã. Ela recebe petróleo em troca de infraestrutura, cooperação miliar. A China está jogando parada e expondo as fraquezas do seu maior adversário, que é os Estados Unidos.

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