
A Câmara Municipal de Japeri voltou a ser palco de tensão política na última semana. Vereadores de oposição, liderados pelo presidente Rogerinho RR (PSD), mobilizaram mães atípicas para lotar o plenário durante a votação da emenda impositiva. Elas foram levadas a acreditar que a rejeição da proposta colocaria em risco políticas voltadas às pessoas com deficiência (PCD), especialmente crianças autistas.
Na prática, essa leitura não se sustenta em base técnica. A narrativa foi construída para criar desgaste imediato e produzir uma crise artificial entre famílias e o governo municipal, em especial a gestão da prefeita Fernanda Ontiveros (PT).
Não é a primeira vez que o mesmo grupo recorre a essa estratégia. No segundo turno da eleição interna do PT em Japeri, Rogerinho RR também estimulou a presença dessas mães, que acabaram atuando, na prática, como cabos eleitorais, em ataques direcionados à prefeita. A repetição do roteiro mostra que a pauta PCD vem sendo tratada mais como ferramenta de pressão do que como compromisso real com inclusão, acessibilidade e atendimento especializado.
O cenário se torna ainda mais grave quando mães, confiando no discurso dos parlamentares, levam seus filhos autistas ao plenário. O espaço é barulhento, cheio de estímulos visuais e sonoros, sem qualquer cuidado com adequação sensorial. Em mais de uma sessão, crianças enfrentaram crises justamente por estarem em um ambiente que não foi pensado para elas, mas transformado em arena de disputa política e manipulação emocional.
A guinada repentina da oposição em defesa da pauta PCD também contrasta com o histórico recente desses mesmos vereadores. Até pouco tempo, o discurso girava em torno do uso do orçamento impositivo para obras de apelo eleitoral — asfaltamento, praças e intervenções voltadas à manutenção de redutos e curral político.
Mesmo agora, com toda a retórica em defesa das pessoas com deficiência, nenhum deles apresentou emendas ao Orçamento de 2026 especificamente voltadas ao público PCD, que é o espaço adequado para propor políticas permanentes. O resultado é um vácuo entre o discurso inflamado no plenário e a prática concreta na peça orçamentária, deixando claro que, em Japeri, a pauta PCD continua sendo usada mais como palanque do que como política pública.